Tenho que confessar uma coisa; ficção cientifica é o meu gênero preferido. Sei que muitos desdenham desse tipo de filme, mas para quem como eu, faz parte da geração “Guerra nas Estrelas” é difícil não ter pelo menos simpatia pelo gênero. Venho curtindo filmes de ficção desde que me conheço por gente e não deixo de acompanhar novos lançamentos de jeito nenhum.

O problema, é que a linha que separa o ótimo do péssimo nesse tipo de filme, é muito tênue. E para cada “ótimo” filme de ficção científica que aparece no mercado, pelos menos uns vinte “péssimos” o antecedem. Assim, o citado gênero não goza de muito prestígio junto à crítica especializada.

Por isso foi com muita alegria que fui assistir recentemente ao filme “Distrito 9”, que mesmo antes de seu lançamento aqui nos EUA já vinha gerando bastante burburinho e comentários positivos. O filme é produzido por Peter Jackson, o mesmo premiadíssimo diretor da trilogia “O Senhor dos Anéis” e do mais recente “King Kong”. Mas, em “Distrito 9”, Jackson não dirige o filme, apenas assina a produção, o que não é pouco. A direção ficou à cargo do Sul-africano Neil Blomkamp, um diretor estreante, mas que graças ao apoio de Peter Jackson conseguiu viabilizar esse projeto. Conta-se que Jackson prometeu à Blomkamp a direção da versão para o cinema do vídeo game “Halo”, mas a produção acabou não acontecendo; por isso emprestou seu nome para “Distrito 9” como um tipo de compensação.

“Distrito 9” é ambientado em um futuro próximo onde uma gigantesca nave alienígena chega à terra trazendo centenas de milhares de seres extraterrestres. Só que na verdade não se trata de nenhuma invasão, mas sim de um enorme grupo de refugiados procurando asilo. Assim, os aliens são enviados para o famigerado Distrito 9 enquanto se decide o que fazer com eles passam-se mais de vinte anos e o campo de refugiados vira uma gigantesca favela com mais de um milhão de extraterrestres. O governo local decide então relocá-los para um outro campo e aí é que começam os problemas.

“Distrito 9” está longe de ser uma obra-prima, mas traz alguns elementos muito interessantes e inovadores para um filme de ficção científica. Os alienígenas, por exemplo, não são nem superiores nem inferiores à nós, mas apenas diferentes. Também não estão querendo invadir nosso planeta, tão pouco ficar nossos amigos; estão apenas querendo sobreviver. Foi bom também ver um filme como esse ambientado fora de Nova Iorque ou Washington: a nave escolheu parar na África do Sul! Achei isso o máximo! Ver um filme de ficção com ares de país de terceiro mundo foi bastante criativo. Eu nunca entendi por que os aliens sempre tem que ir para os EUA; nosso ET de Varginha que o diga…

Na verdade, a idéia para o filme surgiu a partir de um curta-metragem que o mesmo diretor realizou em 2005. Para “Distrito 9”, o mesmo conceito foi utilizado e ampliado para a dimensão de um longa-metragem. Visivelmente o diretor usa diversas analogias e evoca temas que transcendem a ficção. O nome “Distrito 9”, por exemplo, é uma clara alusão ao infame “Distrito 6”, da época do regime segregacionista do apartheid , uma área da Cidade do Cabo usada para isolar a população negra. A própria língua dos ETs lembra um pouco o som e os estalos de língua característicos do Banto, dialeto muito comum naquela região.

“Distrito 9” é em muitos aspectos bem mais profundo do que aqueles filmes de ação com raios laser e naves espaciais em desabalada carreira. Evoca muitos dos nossos problemas sociais e políticos e mostra que independente do contexto, a natureza humana tem as mesmas variantes de sempre: a luta entre o bem e o mal, os conflitos sobre decisões éticas em momentos difíceis.

Mas não se enganem; os efeitos especiais, apesar desta ser uma produção de médio porte, são muito bons e convincentes. E temos uma boa e saudável dose de adrenalina em cenas de ação de tirar o fôlego. A concepção dos aliens foi bem criativa original. Um toque interessante foi em relação às armas dos ETs que só podem ser acionadas por quem tiver DNA alienígena. Muito engenhoso. O final é intrigante e surpreendente e pede por uma continuação. Vamos torcer que ela ocorra.

Claro que sempre aparecem aqueles buracos no roteiro e as perguntas mal respondidas, como por exemplo , porque cargas d’água os aliens não usaram as armas contra nós? E como é que todos se entendem tão bem com línguas tão diferentes? Mas, mesmo assim, “Distrito 9”é um filme acima da media em termos de ficção cientifica e certamente vale a visita. No Brasil ele só deve estrear dia 30 de outubro, por isso, fique de olho.

Um abraço,

Leon Neto