Recentemente escrevi uma coluna dedicada ao talento do músico cristão João Alexandre. Na ocasião, falei de forma ampla sobre seu ministério dando uma pincelada no seu histórico e apenas citando seu mais recente trabalho, o disco “É Proibido Pensar”. Desde então venho recebendo e-mails pedindo para que eu comente sobre a polêmica que a música-título vem causando no meio evangélico.

Como tinha outros temas para abordar, fui deixando o assunto meio de lado, e achei até que havia passado do tempo, mas alguns arquivos postados no site “youtube” reacenderam a polêmica e saíram espalhando faíscas para todos os lados. Então achei que estava na hora de comentar sobre a tão falada música.

“É Proibido Proibir” é mais uma bela música do compositor, que traz sua habitual brasilidade, recheada de acordes dissonantes e ritmos sincopados. Mas a melodia , apesar de muito bem feita, não teria causado tanto impacto não fosse pela letra, que toca em pontos nevrálgicos da temática cristã como teologia da prosperidade, legalismo e profetismo.

A letra como um todo também é bastante bem feita, a exemplo da maioria das músicas de João Alexandre. É profunda e traz alguns toques de humor, mas sempre questionando aspectos importantes da ética cristã. Particularmente forte é a frase que diz “reconstruindo o que Jesus derrubou, recosturando o véu que a cruz já rasgou, ressuscitando a lei, pisando na graça, negociando com Deus”, numa direta referência à denominações que supervalorizam o velho testamento em suas práticas em detrimento da dispensação da graça do novo testamento.

Mas, o que causou grande parte da reação do público foram os trocadilhos que João faz em versos como “estar de bem com a vida é muito mais que renascer”, “no show da fé milagre é tão natural”, “Evangeliquês universal”, “estão distantes do trono caçadores de Deus ao som de um shofar”, que fazem claramente alusão à denominações e ministérios específicos.

Para ser bem sincero, não me surpreendi muito com “É Proibido Pensar” e nem acho que seja das melhores letras de João. Acho por exemplo, “Prá Cima, Brasil” e “Esquinas Cruéis” mais bem feitas e líricas que “É Proibido Pensar”. Mas todas tem o mesmo tom questionador e inquisitivo do compositor. Ele sempre foi assim. Muita gente acha que João começou a ser questionador só por causa da Renascer ou da Universal, mas desde os anos 80 ele vem nos brindando com versos profundos e muitas vezes críticos que se tornaram verdadeiros clássicos da música cristã contemporânea.

Um dos vídeos postados no “youtube’, traz uma entrevista de João em um programa de rádio ([url=http://www.youtube.com/watch?v=b1qoECdFZrI]confira aqui[/url]), onde ele fala sobre a polêmica e tenta responder a alguns de seus críticos. É muito interessante e vale a visita. O outro vídeo, é uma montagem, não autorizada pelo compositor, que coloca imagens das denominações citadas. Este, já não gosto muito, primeiro porque não foi idealizado por João e também porque tira muito da sutileza dos versos da música.

Mas o pior de tudo foi a forma grosseira com a qual alguns religiosos de plantão reagiram aos vídeos, colocando comentários de baixo calão e impensados. Tais pessoas são tão bitoladas que nem mesmo se dão conta de que apenas comprovam a validade da letra da música, mostrando que são treinadas para não pensar e a não questionar seus “ungidões”.

Outros são mais comedidos, mas não entendem porque João foi mexer em temas tão polêmicos e causar “dissensão no meio do povo de Deus”. Para esses, tenho a dizer que existem muitos e diversos ministérios no Reino. Alguns têm chamado para consolar almas cansadas, outros para ação social, outros para evangelismo, outros para louvor e alguns, poucos autênticos na minha opinião, para profeticamente levar o povo de Deus à reflexão e questionar modos de proceder. Esses são tão importantes quanto os outros e tem se feito muito necessários ao longo da história do cristianismo, porquê nos ajudam a corrigir a trajetória, já que somos falhos e passíveis de erros. Imagine só se Lutero tivesse dado ouvido aos críticos e se calado diante das indulgências e outras aberrações da igreja católica do século XVI…

Uma música como “É proibido pensar”, cumpre sua razão de existir, ao gerar debates e estudos e nos fazer rever valores e princípios, enfim pensar de forma objetiva, humilde e desprovida de paixões humanas, que afinal de contas são a antítese do amor Divino, que sempre é paciente e benigno.

Aqueles que defendem sua igreja, ou denominação com paixão e violência, com muito mais ardor do que ao próprio Evangelho, esses sim deveriam levar as mãos à cabeça e buscar na Palavra de Deus orientação para seus atos, como diz João em “Deus já me deu a Palavra, e é por ela que ainda guio o meu viver”, e não apenas receber com verdade inquestionável aquilo que seus pastores, profetas e apóstolos vem dizendo ou fazendo.

Quando uma pessoa perde a noção de que todos somos pecadores e carecemos da Graça de Deus, dá assim o primeiro passo rumo a perdição. Não serão instrumentos antigos ou práticas religiosas desnecessárias que nos farão ficar mais próximos de Deus, mas sim coração contrito e amor sincero.

Não devemos ter medo de questionar atitudes e procedimentos no meio evangélico. Faz parte da dinâmica cristã desde os tempos de Paulo, que escreveu cartas à diversas igrejas, muitas delas com pesadas críticas. Devemos ter medo é do endeusamento de líderes religiosos e da manipulação de massas. Enfim, daqueles que querem nos proibir de pensar.

“rogo-vos pois irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos como um sacrifício vivo santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este mundo mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” (Romanos 12:1-2)

Um abraço,

Leon Neto