Israel confiava política e militarmente no Egito e na Etiópia no caso de uma invasão Assíria.

Isso causava “ciúmes em Deus.”

Trata-se de tema recorrente entre os profetas.

Sim! Deus tinha ciúmes políticos de Israel.

Os profetas declaravam que essa esperança nos meios políticos levantava a ira de Deus.

O Senhor era o libertador de Israel.

A nação, todavia, julgava mais seguro estabelecer um pacto com o Egito e com a Etiópia que com o Senhor seu Deus.

Isaías profetizava naqueles dias.

Sua vida já era um horror.

Carregar a Palavra de Deus—sem barganhas a fazer—é uma catástrofe para o mensageiro.

O que ele ouve é quase sempre o que não se quer ouvir.

O que ele fala é geralmente o que ninguém quer falar.

Isaías era o homem que cumpria esse papel infeliz.

Profeta feliz?

Nunca existiu esse profeta!

Até Jonas, que tinha todas as razões para alegrar-se—afinal, sua profecia cumpriu-se ante os seus olhos na forma da conversão de Nínive—, não se sentiu feliz.

Ele era um profeta que estava mais cativo por seus próprios ideais ideológicos—os ninivitas eram o inimigo—, que grato a Deus pelo sucesso da missão.

Jonas só ficaria feliz se sua missão fosse um total insucesso.

Pois bem, até o profeta que poderia ser feliz, por razões de natureza psicológica e ideológica, não usufruiu o bem de seu próprio ministério.

Mas Deus cumpriu Sua Palavra!

Isaías estava lá…

Carregando vaticínios…

Gritando o que ninguém queria ouvir e muito poucos entendiam.

Um dia veio-lhe outra vez a Palavra do Senhor:

“Isaías, tira a roupa feia de profeta que usas e passa os próximos três anos andando nu”—foi a ordem do Absoluto.

Na Bíblia tal declaração cabe no espaço de dois versículos. Para Isaías, apenas essa partezinha da mensagem, cuja conclusão falada e explicada é também ridiculamente curta, teve o tempo de três anos para ser vivida todos os dias.

Lindo para quem romanticamente lê e logo pensa na obediência extraordinária dos homens de Deus.

Isaías, no entanto, teve que sair de casa e ir pelo caminho de sempre, todos os dias, completamente nu.

Ele passou a ser um atentado ao pudor e dele faziam pouco caso, era desprezado e nele também não havia nem aparência nem formosura…era como aquele de quem os homens escondem os rosto.

Hoje seria uma vergonha, um despudor, uma ignomínia.
Naquele tempo não foi diferente.

Aliás, a ordem para que ele ficasse nu todo aquele tempo era para que ele mesmo conhecesse como sentimento e vergonha a mensagem que ele mesmo pregaria.

Além disso, era para que o choque visual e moral que seu ato causava, pudesse ainda ser transformado em algo concreto ante os sentidos do seu povo.

Ou seja: Deus faria aquilo com os Egípcios e os Etíopes—leva-los-ia nus pelo caminho, dominados pelos Assírios.

A esperança de Israel ficaria envergonhada. Essa era a mensagem!

O mensageiro, entretanto, teve que virar a mensagem.
Certas mensagens só são compreendidas quando o mensageiro passa a ser a verdadeira caricatura de sua própria mensagem.

Lindo!—dizem alguns.

Mas nenhum deles é Isaías!

Isaías era casado. Tinha filhos, mãe, pai e irmãos.

Sua educação era mais elevada que a da média da nação.

Pelo seu texto vê-se que ele era um erudito, um homem fino e pudico.

Mas Deus não quis saber de nada disso.

Isaías teve que sofrer a vergonha de andar nu, sem ter explicação outra que não fosse “Deus mandou”—e ainda assim ter que sair de casa todos os dias e viver a normalidade como vergonha e nudez.

Depois dos três anos é que Deus dá a explicação.

A nudez de Isaías era uma parábola profética e Isaías a própria interpretação da mensagem.

Este é um pequeno episódio—mínimo se comparado a tantas outras situações constrangedoras que outros e o próprio Isaías tiveram que sofrer a fim de carregarem a mensagem—se comparado ao tamanho do uso de escândalos que Deus faz para se comunicar com os homens.

Quanto mais duros os corações, maior será o escândalo e mais escandalosa será a mensagem.

Você conseguiria olhar Isaías como seu “pastor” se ele chagasse assim no domingo de manhã?

Os tempos mudaram?

Sim! Mas nem tanto!

Afinal, era sobre nudez e vergonha que Deus estava falando. E Isaías era a mensagem, antes de ser o mensageiro.

A mensagem de Deus, quando se serve de parábolas proféticas, pode ser insuportável aos sentidos embotados pelo moralismo ou pela dureza de coração da pseudo-religiosidade.

Ainda bem que ninguém teve peito ainda para representar a mensagem que hoje nos diz respeito.

Caio

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