Deixa eu começar dizendo que não suporto quem diz coisas do tipo “o livro é melhor que o filme”. Como se fosse possível comparar uma coisa com a outra. Filme é filme, livro é livro, por mais óbvio que isso possa parecer. Seria como comparar feijoada com pudim de coco, por exemplo.

Na literatura, o escritor se utiliza apenas de letras, palavras, frases para desenvolver uma idéia, um processo no qual somos co-pilotos, e vamos criando mentalmente nossas próprias concepções e imagens, num processo interativo, onde o leitor dita o ritmo e a fluência. Já no cinema, o diretor faz uso de sons e imagens de sua própria cabeça, e participamos do processo passivamente, no banco do passageiro. Recebemos a mensagem como um todo, no ritmo ditado pelo diretor e só depois é vamos digerir suas propostas. Com isso, não quero dizer que um formato é melhor do que o outro; apenas diferentes.

Dito isso, achei “Ensaio sobre a Cegueira”, mais novo filme de Fernando Meirelles, uma das melhores adaptações de livro que já assisti. Li a obra original de José Saramago recentemente e estava bem temeroso do resultado do filme de Meirelles. “Ensaio sobre a Cegueira”é um livro difícil, sofrido, quase torturante, mas brilhantemente escrito. Saramago, detentor do prêmio Nobel de literatura confessou sobre o livro, que sofreu muito para escrevê-lo e que pretendeu que os leitores passassem pelo mesmo processo doloroso. Isso aliado ao estilo único de Saramago onde diálogos e narrativas se misturam ao uso de pontuações de forma pouco convencional e personagens que não tem nome nem passado, fazem desse livro um desafio para qualquer roteirista e diretor.

Mas, achei que Fernando Meirelles e sua equipe se saíram muito bem. Conseguiram capturar com precisão o clima pesado e clastrofóbico do livro e imprimiram bom ritmo à narrativa. Tive, ao ver o filme, a mesma sensação angustiante que senti quando li o livro no início do ano. Não há como ficar alheio ao sofrimento dos personagens e à crueza das cenas. Certamente não é um filme fácil de se ver, mas não havia outra forma de filmá-lo e fazer jus à genialidade de Saramago. E Meirelles fez poucas concessões, mantendo em cena quase todos os elementos da trama original.

O elenco todo está muito bem e mergulharam de cabeça na empreitada. Alice Braga, nossa representante brasileira na película, não faz feio mas não chega à brilhar. Danny Glover, de “Maquina Mortífera”, empresta dignidade e melancolia ao “velho da venda preta”, mas poderia ter sido um pouco mais explorado no roteiro. Juliane Moore, é a força-motriz do filme e entrega uma performance estupenda, digna dos grandes prêmios internacionais. Que atriz espetacular! Não dá pra entender como uma atriz medíocre com Julia Roberts tem um Oscar e Juliane Moore ainda não… bem dá pra entender sim, em se tratando de Hollywood…

A crítica americana detonou o filme e ao que parece o público também não aprovou muito. Mas isso não tem muita importância. Certamente que “Ensaio Sobre a Cegueira” tem seus problemas, mas como é bom ver que Fernando Meirelles continua em ótima forma e que continua em passos firmes uma trajetória de qualidade e brilhantismo no cinema internacional. Chego a achar que nenhum outro diretor da atualidade teria conseguido melhor resultado, filmando esse difícil texto.

Ridículo mesmo foram algumas manifestações de associações de cegos, nos estados Unidos protestando contra o filme. Curioso, já que o livro foi escrito em 1995 e ninguém protestou na época. Coisa de quem quer aparecer. A mensagem do filme vai muito além da cegueira. Na verdade é uma fábula moderna que explora a essência do ser humano e que pode ser analisado sobre múltiplos prismas. Até mesmo sob a ótica Cristã, ao notarmos que sem Deus, a natureza pecaminosa do homem sempre vai aflorar, mais cedo ou mais tarde.

Ao ver aquelas cenas dantescas lembrei de Rick Warren que disse em seu livro “Uma Vida com Propósitos”, que todos nós temos potencial de cometer qualquer pecado, dadas circunstâncias e oportunidades .

Irônico encontrar no texto de um ateu, a mensagem de que sem a valores morais e doutrinários não somos diferentes dos bichos. E nós bem sabemos que sem Cristo não somos nada além de pecadores sujeitos às conseqüências do pecado.

Um abraço,

Leon Neto