Domingo passado (4/3/07), foi a estréia mundial do polêmico documentário produzido por James Cameron. O canal Discovery , responsável pela transmissão, esperava altos índices de audiência, e a imprensa de forma geral divulgou bastante o fato. Criou-se um grande burburinho por conta das supostas descobertas do túmulo de Jesus e Maria Madalena e das implicações de um possível casamento dos dois e de até mesmo um filho gerado (de novo?).

Aliás, não sei por que esse povo acha que um suposto casamento de Jesus iria abalar as estruturas da fé cristã; pessoalmente eu acho que não teria o menor problema; casamento é benção de Deus e em nada afetaria o ministério de Jesus. Mas, o fato é que não existe nenhuma evidência histórica, ou Bíblica de que isso aconteceu.

Claro que eu não poderia deixar de assistir ao tal documentário e fiquei acordado até tarde para poder ver por conta própria se as teses pretendidas pelos produtores do filme tem algum fundamento.

Em primeiro lugar quero deixar claro que, como cristão, não tenho um pingo de preocupação quando vem à tona livros ou filmes como esse, que pretendem “abalar os alicerces do cristianismo”, ou provar que Jesus nunca existiu, ou que não ressuscitou, ou qualquer outra bobagem do tipo; não me preocupo, porque sei que nunca ninguém vai poder provar nada em contrário ao que os evangelhos anunciam; como Cristão, sei que “a Verdade” está do nosso lado. É só uma questão de tempo para qualquer teoria dessas cair por terra. Portanto, nem me preocuparei aqui tanto em contradizer as alegações do filme, mas sim, dentro da proposta da coluna, fazer uma análise do ponto de vista da cinefilia.

Visivelmente o documentário tem um tom sensacionalista e “caça-níqueis”. O diretor/escrito/produtor Simcha Jacobovitz, que é um documentarista bastante respeitado e com diversos prêmios, tenta vender suas idéias, com tanto entusiasmo, que passa por cima de detalhes importantes e estabelece uma ligação entre os achados, baseado apenas em suposições. A postura dele nos diversos programas de entrevistas que participou antes do lançamento do filme, foi sempre agressiva e defensiva em excesso, como quem quer enfiar pela goela de todos as suas idéias.

Um mito que precisa ser desfeito é o de que tudo o que passa no Discovery Channel é de boa qualidade e de cunho científico. Eu mesmo já vi muito documentário ruim e sensacionalista no citado canal. Um, por sinal foi sobre os ataques de tubarão em Pernambuco, e foi muito criticado com razão, por não fazer uma investigação científica, mas sim por simplesmente explorar a dramaticidade dos ataques. Portanto, não ache que só porquê o documentário foi veiculado no Discovery ele deve ser levado à serio.

As quase duas horas de “O Túmulo Perdido de Jesus” são entrecortadas por encenações das teorias propostas pelos produtores e arqueólogos, fato bastante questionado pela crítica, já que tais cenas dariam um tom meio tendencioso à obra em geral. Eu nem acho que as encenações façam tanta diferença assim, apenas achei tudo muito brega e infantilmente dirigido.

O diretor, Simcha Jacobovitz, faz questão de aparecer bastante nas filmagens, na minha opinião muito mais do que deveria. Vemos mais a figura dele do que a de arqueólogos e outros pesquisadores, que certamente dariam mais credibilidade ao filme. Me parece que o tal do Simcha tem uma certa sede de sucesso e está querendo ser alçado à categoria de celebridade com o filme. De todos os pesquisadores e estudiosos do assunto mostrados no documentario, apenas um se mostra cético e contrário às teorias, justamente o que passou mais tempo com os tais ossuários. Todos os outros tentam através de estatísticas e testes de DNA, mostrar a veracidade das supostas evidências.

Em uma das cenas cruciais, a equipe de Simcha leva resquícios de material ósseo dos supostos ossuários de Jesus e Maria Madalena para um laboratório especializado em testes de DNA. O objetivo seria provar que as duas amostras possuem DNA diferentes, portanto não são da mesma família. Bem, até aí tudo bem, mas assim que saiu resultado, o diretor proclama como um apresentador de luta de boxe: “ isso prova que eles eram marido e mulher!” .

Peraí, seu Simcha; isso não prova nada; ela poderia ser esposa de um dos irmãos desse Jesus e por isso estaria no mesmo túmulo, ou uma filha adotiva, ou mesmo uma serva da família. Isso só para mostrar o tipo de conclusões apressadas e sem teor científico nas quais o filme é baseado.

De positivo, achei a forma como o documentário mostra os processos de pesquisa arqueológica e o caráter investigativo desse ramo da ciência. A qualidade visual não é ruim, mas também nada de espetacular.

De forma geral, achei um documentário feito para gerar admiração nos leigos e decepção nos acadêmicos. Acho que muito pouca gente vai levá-lo à sério. Os tais ossuários foram descobertos a quase trinta anos atrás e ninguém se deu ao trabalho de gastar muito tempo com eles desde então. Agora sabemos porquê.

Após as quase duas horas de duração de “O Túmulo Perdido de Jesus” o canal Discovery transmitiu um debate ao vivo com o diretor Simcha Jacobvitz, um dos arqueólogos defensores do filme e dois outros estudiosos, um deles ateu, por sinal, não envolvidos na produção do filme.

O debate foi infinitamente melhor do que o documentário em si, e muito mais esclarecedor.

As teorias ficaram ainda mais fragilizadas e muitas perguntas ficaram sem respostas, como por exemplo, por que o DNA dos outros ossuários também não foi testado. Mais uma vez, Simcha estava agressivo e defensivo, brigando por suas idéias, muito mais pela inflexão do que pelo conteúdo. Alguns dos pesquisadores citados no filme, mandaram cartas para a produção do debate, declarando que suas palavras foram muitas vezes usadas fora do contexto, o que deixou os produtores do documentário bem desconfortáveis e em situação embaraçosa.

Também na semana passada aqui na Liberty University, Dr. Gary Habermas, um renomado teólogo e pesquisador, com diversos livros publicados, fez uma brilhante palestra contradizendo todas as proposições do filme, uma por uma.

Se você estiver interessado em saber mais detalhes, [url=http://www.garyhabermas.com/articles/The_Lost_Tomb_of_Jesus/losttombofjesus_response.htm]clique aqui[/url] e dê uma olhada neste site.

Encerro meu comentário com uma pergunta que ninguém fez nas duas horas de documentário e nem mesmo no debate: se tudo isso é verdade, se o túmulo é mesmo de Jesus, por que razão seus seguidores iriam colocar os nomes de seus familiares nos ossuários? Não seria mais lógico ocultar as evidências da não ressurreição de Cristo?

Mais um naufrágio do diretor do irritante “Titanic”.

Um abraço,

Leon Neto