Achei bem interessante ver como uma parcela da comunidade evangélica brasileira vem atacando de forma impiedosa a terceira edição do Festival Promessas, produzido pela Rede Globo. Aos gritos de “mercantilismo”, “distorção” e até mesmo “heresia”, muitos estão escandalizados com a participação de bandas e cantores evangélicos nesse tal festival.

Curiosamente, muitas das pessoas que atacaram o festival da Globo parecem estar bem animadas com a superprodução “Noah”. O filme de Aaron Aronosfki que trata sobre Noé e o dilúvio e conta em seu elenco com atores de grande relevância no cenário internacional como Russel Crowe (“Gladiador”, “Uma Mente Brilhante”), Anthony Hopkins (“O Silêncio dos Inocentes”) e Jennifer Connolly (“Requiem para um sonho”, “Uma Mente Brilhante”).

Claro que eu mesmo tenho minhas restrições ao Festival Promessas. Visivelmente se trata de um projeto secular, feito por uma empresa secular e com o claro objetivo de conquistar um segmento que cresce muito no Brasil. Quem achar que a Rede Globo tem qualquer interesse em anunciar o Evangelho deve viver em um outro planeta.

Mas, por outro lado, quem se animou ao saber do filme sobre Noé, que deve fazer sua estreia no início de 2014, precisa dar uma pesquisada antes de sair por aí convidando todo mundo; É bom saber que não se trata de uma produção cristã e nem mesmo é fiel à narrativa da Bíblia.

O diretor Darren Aronofski, o mesmo de “Cisne Negro”, quis fazer um filme onde Noé aparece como o primeiro ativista na defesa do meio ambiente, uma espécie de proto-Greenpeace. O dilúvio é tratado como mitologia e o enredo toma muitas liberdades em relação à narrativa bíblica. Não ache que o diretor e os produtores estão com qualquer intenção de promover a Bíblia e seus princípios; o livro de Gênesis é apenas o pano de fundo para propagar os ideais da esquerda Americana, que a classe artística tanto adora. Da mesma forma, alguns esperavam ver em “As Crônicas de Narnia” um filme evangelístico, o que não aconteceu; muitos dos elementos e alegorias cristãs do livro de C.S. Lewis foram amenizados e até mesmo eliminados na produção dos estudios Disney.

Particularmente eu não tenho simpatia nenhuma pelo Festival Promessas. Dei uma olhada nos cantores e bandas escalados e, sinceramente, nenhum deles me motiva a ligar a televisão e acompanhar a edição deste ano. Me desagrada a teologia rasa e sem embasamento da maioria das músicas, muitas delas calcadas no Velho Testamento e distantes da dispensação da Graça, fundamental para a teologia cristã. O aspecto músical também me desagrada; acho de forma geral um sonzinho pobre, quase que medíocre mesmo, com “muita cobertura e pouco bolo”, com alguns músicos excelentes, mas tocando canções medianas e sem profundidade à exemplo do que acontece com os cantores sertanejos e bandas de axé. Mas, a discussão na verdade é bem mais profunda do que isso, transcende o gosto pessoal. A discussão na verdade gira em torno sobre o que é sacro e o que é profano, o que é arte cristã e o que é puro entretenimento e se há algum limite para essa interação.

Já em em 2006, Jon Radwan definiu música cristã contemporânea como “um gênero que expressa ideais religiosas com estilos populares”. Nos EUA a música cristã contemporânea que começou de forma tímida com o chamado “Jesus Movement” no final dos anos 60, onde as gravações eram bastante precárias e a distribuição bem rudimentar, hoje evoluiu tanto que a qualidade técnica e de produção se equipara à da música secular. Aqui nos EUA desde meados dos anos 90 todos os selos de música cristã foram comprados ou se fundiram com selos seculares. Desde então a ênfase em propaganda e marketing aumentou consideravelmente, a mensagem das músicas começou a se tornar mais sutil e menos declaradamente evangelistica, para tentar atingir a um público maior, menos segmentado. Amy Grant nos anos 90 é um bom exemplo desse fenômeno.

No Brasil estamos caminhando nessa direção à passos largos. A qualidade musical e de produção certamente evoluiu muito, mas a qualidade das canções, a teologia das letras involuiu, e muito. Não vejo ninguém no cenário musical evangélico hoje que escreva letras com a qualidade de Guilherme Kerr, Sérgio Pimenta ou João Alexandre. Eu bem que tento não ser saudosista, mas confesso que não tenho conseguido. Além disso, é cada vez mais difícil diferenciar quem é artista cristão e quem é secular. Algumas músicas soam quase que de duplo sentido; não se sabe se o alvo é Deus, Jesus Cristo ou a pessoa amada.

Contudo, não sei de nenhum cantor evangélico ou banda que tenha sido convidado para o Festival Promessas e tenha recusado o convite. Se vocês souberem me avisem que vou querer saber mais sobre o artista ou banda. É muito fácil sair falando mal, mas na hora de abrir mão de vantagens é que conhecemos o verdadeiro caráter das pessoas.

Não é porque um cantor se autodenomina cristão que devemos automaticamente achar que ele é um “ungidão” consagrado e autêntico. São suas ações, sua coerência com os valores cristãos que irão mostrar quem ele realmente é. Da mesma forma, não é porque um filme tem um titulo ou temática bíblica que traz necessariamente uma mensagem positiva e relevante. Precisamos ter cuidado.

No final das contas, falta reflexão e base bíblica. O povo que acha que louvor é ficar no gargarejo de shows levantando as mãos para cima, certamente está precisando voltar para as classes de escola dominical.

Um abraço,

Leon Neto