Janeiro e fevereiro são meses sempre bastante aguardados pelos cinéfilos e “metidos” a cinéfilos de plantão. Isso porquê dois dos principais prêmios do cinema americano acontecem nesse período. Estamos falando do “Golden Globe” e do “Oscar”.

O primeiro já distribuiu suas premiações sem maiores surpresas e o segundo acabou de anunciar os indicados. Mesmo o “Oscar” sendo, indiscutivelmente o mais famoso, mais badalado e decididamente o mais cobiçado dos dois, eu continuo levando o “Golden Globe” muito mais a sério; o “Oscar”, que existe desde 1929, foi gerado e estruturado dentro da própria indústria cinematográfica e até hoje é votado pelos próprios produtores, diretores e atores, os chamados membros da “Academia”; ou seja, é mais ou menos tão esdrúxulo quanto os nossos “despojados” deputados e senadores votando o próprio salário. Já o “Golden Globe” é votado pela imprensa internacional que atua nos Estados Unidos, o que me parece um melhor e teoricamente, mais isento critério.

O Oscar tem muitas e históricas idiossincrasias e injustiças (lembram daquela franguinha da Gwyneth Paltrow tirando premio de melhor atriz de Fernanda Montenegro?), mas no “frigir dos ovos”, a verdade mesmo é que pouca gente leva o “Golden Globe” muito a serio; o objeto do desejo de atores, diretores e produtores sempre será mesmo o tal do Oscar. Não somente pela premiação em sí, mas porquê os ganhadores, para o resto de suas vidas serão sempre antecedidos pelo nobre título de “Academy Award Winner”, o que lhes garantirá, teoricamente, boas oportunidades de trabalho e respeito profissional. Aliás, só o fato de ser indicado, já é uma grande Honra, já que somente cinco figuram entre os melhores de cada categoria.

Falando nas tais indicações, a exemplo do Golden Globe, não tivemos muitas surpresas, mas alguns fatos merecem destaque. Parece que esse ano vai ser, assim como o ano passado, uma premiação bastante equilibrada e acho que nenhum filme vai sair como “o grande vencedor”. Achei interessante a presença marcante do cinema mexicano, se fazendo presente em diversas categorias e até mesmo no anuncio das indicações, com a atriz Salma Heyek, visivelmente “afetada” e ansiosa. Talvez a maior surpresa tenha sido a não indicação de “Dreamgirls” ao prêmio de melhor filme, já que o mesmo foi o concorrente que recebeu o maior número de indicacoes (8), esse ano. A grande festa do Oscar está marcada para dia 5 de fevereiro e as apostas já correm soltas no mundo inteiro.

Faço então aqui duas promessas, a serem cumpridas antes da cerimônia de entrega do Oscar: a primeira, assistir e comentar todos os 5 candidatos indicados ao prêmio de melhor filme, e a segunda, fazer as minhas previsões para as principais categorias.

Vou começar então, comentando o filme que acho que tem a menor chance de levar a estatueta: “Pequena Miss Sunshine”. Único independente na disputa, este é um filme bastante simpático, e que teve um bom desempenho nas bilheterias americanas. Se não tivesse sido classificado errôneamente como comédia, talvez tivesse se saido ainda melhor no Brasil. O problema, é que fica-se esperando, por conta da propaganda, gargalhadas do começo ao fim, ou alguma comédia tipo “Pastelão”, e o filme na verdade, está bem longe disso. A trama gira em torno de uma familia prá lá de disfuncional, composta por um gurú de auto-ajuda falido, um avô viciado em drogas, um tio homossexual e suicida, uma mãe sem autoridade com os filhos, um adolescente em voto de silêncio, e uma garotinha de 10 anos obsecada por concursos de belêza para crianças. Toda a dinâmica familiar é mudada, quando se faz necessário uma viagem de mais de mil milhas para levar a garotinha para um desses concursos, no outro lado do país. Apartir desse ponto, o filme se transforma em “road movie”, quando a familia resolve botar pra funcionar uma kombi amarela caindo aos pedaços, e cair na estrada. Diversas e inesperadas situações vão acontecendo no decorrer da viagem, e a familia vai assim, se defrontando com seus proprios conflitos e problemas internos.

O grande mérito do filme é o roteiro, indicado ao Oscar, e a atuação competente e despojada dos atores. Todos estão muito bem e bastantes convincentes, formando o que os americanos chamam de “ensemble”, ou elenco coletivo onde todos são protagonistas. O veterano Allan Arkin foi indicado ao prêmio de melhor ator coadjuvante e a iniciante Abgail Breslin, de apenas dez anos, para o premio de melhor atriz coadjuvante, igualando o recorde de Tatum O’neal como a atriz mais jovem a ser indicada. Abigail é uma graça de menina e está perfeita no papel, esbanjando doçura e carisma. Aliás, ela é responsável pelo melhor momento do filme, que claro não vou contar, para não estragar a surpresa de quem ainda não o assistiu.

De forma geral, o filme funciona muito bem e explora os dramas pessoais de cada personagem, e seus efeitos nas relações interpessoais, com sutileza e profundidade. Para mim está mais para um drama leve do que comédia, ainda que o filme tenha algumas cenas engraçadas. Uma grata surpresa é ver Steve Carell , o ator de “O Virgem de 40 Anos”, tão bem em um papel semi-dramático, mostrando que ele tem muito mais a oferecer do que as caras-e-bocas usuais. Outro aspecto interessante é a crítica velada que o filme faz ao sub-mundo dos concursos de beleza infantis, um horror que acontece aos montes aqui nos Estados unidos, e que na minha opinião deveriam ser proibidos. “Pequena Miss Sunshine” certamente merece as indicações que recebeu e merece tambem ser assitido, principalmente por ser um daqueles filmes em que se sai do cinema com um leve sorriso no rosto.

Um abraço,

Leon Neto