Lá estavam no programa do Jô, dia desses, o figuraça do Tom Zé, Moraes Moreira e o cineasta Henrique Dantas sendo entrevistados sobre um documentário sobre os Novos Baianos, grupo importante da MPB, particularmente influenciado pela Tropicália.

A entrevista caminhava de forma bem interessante e engraçada com alguns “causos” impagáveis de Tom Zé, que além de um ícone da MPB é uma personalidade divertidíssima. Até que Moraes Moreira contou um episódio nos idos dos anos 70, quando os Novos Baianos que na época moravam todos juntos em um sitio, usavam as folhas de uma Bíblia para enrolar cigarros de maconha. O público achou engraçadíssimo e Jô Soares , que nunca perde a chance de fazer uma piada, soltou a pérola de que “a Bíblia tem realmente mil e uma utilidades”.

Não demorou muito para que a entrevista e em especial a piada de Jô virasse alvo da ira de alguns evangélicos que iniciaram um movimento para criar um abaixo-assinado virtual, exigindo que o apresentador e os entrevistados se retratem em público sobre suas declarações. O episódio gerou manifestação até mesmo do deputado Marco Feliciano que protestou contra a entrevista em plenário.

Claro que fiquei chocado com a estória dos cigarros de maconha enrolados em páginas da Bíblia; isso mostra um total menosprezo daquelas pessoas pela palavra de Deus. E talvez, a piada de Jô Soares tenha sido de mau gosto, realmente.

Mas, me causa certo mal-estar, também, esse negócio do abaixo-assinado. Em primeiro lugar, o que eles querem mesmo? O Tom Zé não falou nada sobre a Bíblia e parece que nem tomou parte nesse “imbróglio”. E querem que o Moraes Moreira se retrate por algo que fez há mais de 30 anos, ou apenas por ter contado o fato? Claro que o fato é condenável, mas não deu pra entender bem o que o abaixo-assinado está querendo; me parece que uma nota de repúdio seria mais apropriado. Além disso, afirmar que “este é um ato que deve ser compartilhado por todos os que temem à Deus e zelam pela Sua Palavra” é um exagero e um tanto arrogante.

Nós como Cristãos temos sim que defender nossa fé e nossos valores ardorosamente, mas precisamos ter em mente as nossas prioridades e nunca descambar para o extremismo que nunca leva a nada de positivo. O pior ataque à nossa fé não vem de casos como esse, mas sim de desvirtuações dos nossos valores que na maioria das vezes começam de dentro para fora, de pastores que se valem da fé alheia para encher seus bolsos, de liturgias baseadas na emoção pura e simples, na infame teologia da prosperidade. Esses sim causam real dano aos valores Cristãos.

Gente que zomba da Palavra de Deus, sempre existiu e sempre vai existir; isso não é nosso maior problema. Esses devem ser alvo de nossa compaixão e não ódio. Jesus quando estava sendo imolado e escarnecido pela multidão, pediu misericórdia ao Pai Celestial por aqueles que “não sabem o que fazem”; deveríamos agir da mesma forma com os que não tem a menor ideia sobre o que é a Bíblia e sobre sua mensagem principal, salvífica e transformadora. Ao invés de causar revolta isso deveria ter despertado nossas igrejas a entrar em campo e ir ao encontro de outros milhares de artistas que estão na mesma ignorância espiritual sem saber que a Bíblia pode lhes trazer mudança e novidade de vida, solução para seus questionamentos interiores.

Além do mais, o que existe de sagrado na Bíblia é o seu conteúdo inerrante e inspirado por Deus e não o papel ou a capa onde está impresso. Não somos como os católicos que veneram ídolos e relíquias. A própria Bíblia nos desafia a carregar seu conteúdo em nossos corações e mentes.

Quanto à piada do Jô, foi apenas uma piada; de mau gosto, mas apenas uma piada. Jô ao que me consta nunca falou com desrespeito sobre a Bíblia e até é devoto de um determinado santo da igreja católica. Mais uma vez afirmo que como Cristãos temos todo o direito de nos manifestarmos quando acharmos que nossa fé é atingida ou ameaçada, mas na piada do Jô acho que não aconteceu nem uma coisa nem outra. Ameaçar humoristas e jornalistas por conta de comentários e piadas sem graça é coisa de extremista islâmico.

Um abraço,

Leon Neto