Ainda me lembro, no início dos anos 80, quando assisti a uma das primeiras apresentações do recém criado grupo MILAD. O tal grupo representava a primeira tentativa de profissionalização de uma banda evangélica no Brasil pré MTV, internet e abertura política. Algo quase impensável em anos anteriores.

Os grupos musicais mais conhecidos da época, Vencedores por Cristo e Logos, viviam mais de ofertas que de vendagem de cd’s e levantavam o próprio sustento para viagens missionárias, que aconteciam nas férias, para conciliar agendas estudantis e de trabalho, e quase sempre em igrejas, sem a cobrança de ingressos.

O Milad, pela primeira vez entrava de cabeça no profissionalismo, com músicos de tempo integral, com formação diferenciada e larga experiência, inclusive fora do meio evangélico. Mas, o que mais me chamou a atenção naquele dia, foi um certo cantor/violonista/compositor que se destacava naquele mundaréu de talentos. Um certo rapaz que surpreendeu a todos com uma enxurrada de musicas super originais e regadas a fartas doses de brasilidade, além de demonstrar uma virtuosidade ao violão, nunca antes vista em bandas cristãs. Um certo rapaz chamado João Alexandre.

De lá para cá, João enveredou pala carreira solo, onde foi pioneiro mais uma vez, abrindo caminho para a geração atual de cantores e bandas que vivem exclusivamente de seus ministérios. Na época, João foi bastante criticado por cobrar cachês para apresentações, coisa que hoje é vista com bastante naturalidade e compreendida como necessária para a manutenção de carreiras e ministérios.

Por boa parte desses anos que se seguiram, João Alexandre fez a opção pelo gênero “voz e violão”, inicialmente mais pela dificuldade em viabilizar shows e viagens com uma banda completa, o qual levou ao mais alto nível com suas harmonias ricas e seu virtuosismo vocal e instrumental. Ninguém até agora, conseguiu fazer o que João faz em suas apresentações solo. Eu diria inclusive, que nem João Bosco ou Caetano Veloso.

Alem de tudo, João é uma figuraça, engracadissimo e sempre pronto a contar uma piada ou fazer alguma palhaçada. Dono de uma criatividade exuberante, possui também uma energia inesgotável que o faz estar sempre pronto a novas idéias, arranjos e brincadeiras. Inúmeros artistas cristãos foram e ainda são influenciados pelas musicas e arranjos de João, que já se tornou como que um selo de qualidade para todos os trabalhos nos quais venha a por a mão.

João Alexandre também escreve a maioria das letras de suas musicas, e o faz de forma brilhante e profunda. Diante da pasmaceira e mesmice que imperam em nosso meio evangélico atual, ele ainda continua sendo uma ilha de originalidade e qualidade, abordando temas inusitados e necessários, saindo da previsibilidade e mercantilismo que infelizmente imperam em nosso meio.

João mais uma vez se torna pioneiro, ao continuar bravamente produzindo e distribuindo seus trabalhos de forma independente, sem contar com a estrutura de uma grande gravadora. Parece até mesmo um pouco irônico; João esta indo na contramão do caminho que ele próprio ajudou a abrir, tudo em nome da liberdade de criação. Seu mais recente trabalho, é o polemico “É Proibido Pensar” um disco na mesma linha dos trabalhos solo mas com alguns adendos alem do tradicional violão. Trata-se de um ótimo representantes da qualidade e virtuosidade de João e merece certamente fazer parte de sua coleção. E mais que isso, merece seu apoio, por ser um estandarte da resistência ao domínio dos grandes selos, mais preocupados com vendas do que com qualidade artística e profundidade doutrinaria.

Depois de todos esses anos, João Alexandre continua com energia de menino e o talento de sempre, que parece que generosamente, passou para seu filho Felipe, que esta tocando e cantando cada vez melhor.

Um grande abraço para todos e um bem especial e saudoso pra você, João.

Leon Neto