Já se vão mais de dez anos, mas ainda me lembro bem. Como se fosse possível esquecer…

Estávamos eu e meu grande amigo Dudu Alves, do Quinteto Violado, produzindo um CD infantil que acompanharia um livro. Projeto muito interessante, por sinal, com muita musica regional e participações especiais de artistas locais. Eu e Dudu fizemos todos os arranjos e estávamos fazendo a produção musical também.

De repente chega a noticia de que o autor do livro havia conseguido uma participação especial de ninguém menos do que o mestre da sanfona, Dominguinhos!

Nada muito incomum para Dudu, que já o conhecia de longas datas, sendo seu pai o querido e saudoso Toinho Alves, muito amigo de Dominguinhos, ambos conterrâneos, nascidos em Garanhuns. Mas, pra mim, parecia algo surreal.

Nem cheguei a ficar muito preocupado, porque certamente, Dudu iria dirigi-lo na gravação e eu não precisaria fazer nada, só mesmo apreciar a visita pra lá de ilustre.

Mas eis, que surge uma viagem de última hora e Dudu não estaria mais presente à gravação. Só então a ficha caiu; eu vou ter que dirigir o Dominguinhos! Gelei…

Dominguinhos chegou sonolento, numa manhã logo após um show na noite anterior. Sonolento, mas gentil. Como sempre. Todos os que o conheciam de perto sabem que gentileza e generosidade eram seus sobrenomes. Características nem sempre fáceis de serem encontradas em artistas de sua magnitude.

Só fez mesmo um pedido: “será que dava pra baixar o tom? “ Dominguinhos ainda gozava de boa saúde, mas a voz já estava começando a dar sinais de cansaço. “Claro, mestre! O que o senhor precisar”, disse o escritor do livro, sem saber como às vezes é complicado mudar o tom assim na hora. Mas, para o mestre, daremos um jeito.

Meio tom mais baixo (odeio bemóis!), tudo pronto para começar. Dominguinhos ouviu a canção umas duas vezes apenas e já estava pronto para o primeiro take. Do outro lado do espesso vidro que nos separava, eu ia pensando em o que iria dizer quando ele parasse de cantar. Quem sou eu pra corrigir Dominguinhos? O que poderia acrescentar à sua interpretação? E ao mesmo tempo, precisava “mostrar serviço”, dar alguma sugestão, fazer as vezes de diretor. Que nada; fiquei mesmo só torcendo para que ele não parasse de cantar…

E há quem diga que cantar não era o seu forte. Assim como seu padrinho musical, o Velho Lua, Dominguinhos abriu as portas do estrelato através de sua habilidade tocando sanfona. A voz, o canto veio depois. Mas, assim como Luis Gonzaga, criou um estilo, um jeito de cantar inconfundível, inigualável. Dominguinhos transcendeu seu mestre ao fazer a sanfona e a música nordestina migrar para a MPB, temperando seus arranjos e composições com acordes dissonantes e sutilezas melódicas belíssimas e criativas. E sua voz aveludada de barítono, era, junto com sua sanfona virtuosística, a melhor expressão desse estilo que deixou poucos seguidores.

Mas, o take não podia durar pra sempre; nem me lembro direito o que falei quando ele parou de cantar; só lembro que gaguejei como se fosse possível não gaguejar…

Dominguinhos ouviu com respeito e disse; “vamos fazer mais um take”. Ai, ai, ai… lá vamos nós novamente… vou ter que pensar em mais alguma coisa pra falar quando ele parar. Mas, pensei na melhor e única coisa que cabia naquele momento: “Tá ótimo! maravilhoso, perfeito!” às vezes é melhor jogar na defesa. Como se fosse possível ser diferente…

Dominguinhos se despediu, gentil, como chegou; agradeceu a Jorge Sinésio, nosso técnico de som, elogiou os arranjos. Gentileza e generosidade. Esse era Dominguinhos. Pedi para tirar uma foto e sua autorização para coloca-la no mural do Estúdio . “Claro, com o maior prazer”. O prazer foi meu, Dominguinhos, de ter tido esse breve encontro com você e poder ver de perto um gigante da música brasileira em ação.

Um gigante que se foi recentemente, mas que na verdade nunca vai nos deixar.

Será eterno, assim como Luiz Gonzaga, seu padrinho, que continua brilhando e sendo reverenciado mesmo depois de tantos anos.

Como se fosse possível esquecê-los…

Um abraço,

Leon Neto