… Estes são os que andaram virando o mundo inteiro de CABEÇA PARA BAIXO. Agora estão também aqui.” (Atos 17.6b – Versão do Rei Tiago)

Há exatos 25 anos atrás fui impactado pela leitura do livro: o Reino de Ponta-Cabeça do menonita Donald B. Kraybill, onde até o presente momento considero como o melhor livro sobre discipulado teológico que conheço, sem desmerecer nenhum outro obviamente. Posteriormente tive o prazer de aplica-lo pelas comunidades cristãs onde servi como pastor, e recentemente tive a grata notícia de saber que o mesmo foi reimpresso pela JesusCopy após estar décadas esgotado.

Por que usar a frase O Reino de Cabeça para Baixo? Por que usá-la como título inaugural desta coluna e deste artigo? Permita-me o leitor, ao invés de usar a palavra composta “Ponta-Cabeça” (o qual é um termo muito “sudestino”, e com todo respeito ao meu estimado povo do sudeste), e como somos um país continental, prefiro usar o termo mais geralmente conhecido “Cabeça Para Baixo” e por este motivo estamos apresentando o blog/projeto/coluna com este título: O Reino de Cabeça para Baixo.

Por mais incrível que possa parecer, o termo Cabeça Para Baixo é baseado na Bíblia. A versão Revista e Atualizada de Almeida usa o termo “transtornado”; a Bíblia de Jerusalém usa o termo “Revolucionando”; a Bíblia do Rei Tiago (mais conhecida como King James Version) usa o termo “cabeça para baixo”, o qual é bastante apropriado para os nossos dias. Mais especificamente a palavra (anastatow = anastatoo) é traduzido pelo conhecido Léxico Grego-Inglês de Thayer como: “virar de cabeça para baixo; fazer um alvoroço; 1) Agitar, desestabilizar; 1.1) excitar tumultos e sedições no Estado; 1.2) perturbar, inquietar as mentes…

Embora eu e você possamos ter alguma resistência ao termo no parágrafo acima, é este o sentido que a frase deseja realmente dizer. O Reino de Deus provoca este fenômeno: vira o mundo de cabeça para baixo. E os súditos deste Reino não são agentes omissos, são atuantes e os responsáveis diretos em colocar o mundo (aion) criado pelos homens de cabeça para baixo. Por mais estranho que possa parecer somos convocados a desestabilizar, isto é, a nossa vocação deve ser de ajudar a desinstalar os valores do mundo, e a instalar os valores do Reino de Jesus Cristo.

Fomos há 500 anos no passado apelidados de protestantes, onde a Reforma foi capaz de inquietar as mentes e transformar o pensamento ocidental até os dias de hoje, mas atualmente parece que sumiu a nossa vocação de protestar. A nossa capacidade de inquietar e produzir o bem está desaparecendo, está se esvaindo lentamente.

O Reino de Cabeça para Baixo tem que provocar nos cristãos o amor em viver como Jesus Cristo vivia. Deve fomentar nos súditos o desejo de se aprofundar nos ensinamentos dAquele que é o comandante-em-chefe deste reino. Certa vez perguntei a um grupo de jovens quem era o seu maior modelo como cristão, alguém respondeu dizendo que era uma conhecida cantora gospel de um grupo lá da “lagoa pequena”. Com todo respeito para com a história da irmã cantora, e a qual acredito que não tem interesse em ser o modelo absoluto para qualquer cristão. Após o fato descrito acima, nós corrigimos afirmando que nem ela (a cantora), nem eu, nem ninguém,ocupa o lugar de Jesus de Nazaré. Ele, o Cristo de Deus é o único modelo de atuação e de exclusiva influência sobre o seu Reino.

Como devemos agir neste reino? Agir de acordo com o político A, B, ou C? Agir de acordo com o líder eclesiástico A, B ou C? Embora devamos como cristãos ser exemplos no sentido genérico, temos que lembrar: a nossa devoção não é o culto a líderes ou personalidades cristãs. Jesus Cristo é o único modelo absoluto para eu e você sermos cristãos hoje e sempre. Sermos bem definidos quanto a isto, evita adoecimento, evita frustração, evita decepção, e no caso provoca também o nosso amadurecimento.

O cristão como súdito do Reino de Cabeça para Baixo deve ser alguém capaz de provocar santas catástrofes! Você vai me dizer: – espere um pouco! Santas catástrofes? – Deixe-me explicar: no Evangelho de Jesus segundo a narrativa de Marcos em seu capítulo 11, versículo 15 diz a respeito dEle: “Entrando Ele no templo, passou a expulsar os que ali vendiam e compravam; derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas”. Ou seja, a palavra derribou a qual está em negrito acima é uma tradução da palavra grega katastrepho, trocando em miúdos: Jesus provocou uma katastrepho, uma santa catástrofe naquele lugar; ali Ele derribou os valores do anti-reino. Ele se posicionou contra aqueles que estavam dizendo que eu e você não éramos bem vindos; ali Jesus afirmou que a casa do Pai era lugar de oração para todas as nações, isto é, para todos os povos, para mim e para você! Não foi porque aquele lugar havia se tornado um local de troca de dinheiro sujo, de uma maneira suja, mas era principalmente porque os que ali vendiam estavam impedindo que pessoas como eu e você fossem bem vindas ao Reino. Ele virou de cabeça para baixo. Ele reposicionou, Ele recolocou o que sempre deveria estar de pé! Eu, você, todos nós somos bem vindos a fazer parte do Reino de Cabeça para Baixo. Somos bem vindos a virar o mundo de cabeça para baixo, somos bem vindos a provocar uma santa catástrofe. Se Ele se posicionou a nosso favor, isso denota que devemos fazer o mesmo por Ele.

Ser súdito do Reino de Jesus Cristo implica tomar uma posição coerente com os valores deste Reino, significa estar do lado dEle. Não decidir é uma decisão, é a decisão de não decidir, logo ser cristão, ser seguidor de Cristo é tomar decisão, é provocar uma boa cisão bem no meio do erro e fracasso humano. É influenciar vidas. Mas de que modo podemos influenciar?

O corrente ano que estamos para alguns pode ser o ano da copa do mundo de futebol, ou o ano das eleições presidenciais, mas o ano de nosso Senhor de 2018 pertence a Ele, apesar de alguns acharem o contrário. Como súditos do Reino de Cabeça para Baixo, nós não somos chamados a achar que 2018 será apenas um ano diferente, mas somos chamados a fazer diferença neste ano, e quando falo mais especificamente sobre política, desejo falar com paixão apenas da política do Reino de Jesus Cristo. Devemos evitar a tentação de darmos lugar ao ódio que está sendo destilado por alguns setores da sociedade e por alguns cristãos acerca das preferências eleitorais. Devemos com certeza diminuir a nossa ingenuidade acerca dos candidatos, mas devemos lembrar que o Rei Jesus ordenou que amássemos até os nossos inimigos. Alguns estão tentando dividir o Reino, mas não conseguirão. Com isso não quero dizer que deveremos votar em um(a) só candidato(a), ou querer fazer com que à força devamos constranger a parte divergente, dizendo que ele/ela deva votar na pessoa A ou B. Estão até já dividindo os cristãos com cores: amarelos, verdes, vermelhos, azuis. Ah, como admiro a letra da canção do Michael W. Smith que fala sobre o sonho de que todos nós deveríamos ser daltônicos, isto é, não se preocupar com a cor da pele, mas isso bem que poderia ser levado em conta para evitarmos a tentação de colorirmos o irmão A ou B, a liderança A ou B por ter uma preferência eleitoral diferente. Se alguma decisão se choca com os valores do Reino, nada melhor que orarmos e pedirmos a intervenção divina para abençoar aquele(a) pessoa que pensa diferente de mim e de você.

Devemos evitar não apenas neste ano de 2018, mas devemos evitar sempre o sincericídio. Você nem eu somos chamados a sermos sincericidas. Em nome da verdade, em nome do que é certo muitos têm atingido o seu próximo com intenções destrutivas, e o pior: na melhor das “boas” intenções. Não se pode apenas falar o que é certo, deve-se contudo falar o que é certo da maneira certa, e na hora certa. Agir como o Jesus agia, viver como Ele vivia, e amar como Ele amava.

Grandes são os desafios, porém, maior é quem está conosco!

Agradeço ao FolhaGospel pelo apoio e por ser súdito e parceiro do Reino de Cabeça para Baixo. Iremos agora e sempre viajar neste Reino, e nos dislumbrar cada vez mais com Jesus de Nazaré. Afinal Ele mais do que ninguém tem colocado o mundo de cabeça para baixo! Por isso nEle esperamos e nos inspiramos.

Pastor Estêvão Chiappetta