Sexta-feira passada, a NBC, rede de televisão norte-americana, exibiu um programa com duas horas de duração sobre o badalado caso Sean Goldman, que terminou por mobilizar até mesmo os chefes de governo de Brasil e Estados Unidos.

Venho acompanhando o caso todo há um bom tempo, mas só agora resolvi escrever sobre o assunto, depois das deliberações finais da justiça brasileira. Além do mais, quando eu soube do programa da NBC, resolvi esperar para ver se angariava mais informações.

Para quem não sabe do que eu estou falando, trata-se da longa batalha judicial entre David Golman e a familia de Bruna Bianchi pela posse do menino Sean, de apenas 9 anos. Bruna havia fugido para o Brasil com Sean em 2004 sem o consentimento do pai, que achou que ambos estavam indo de ferias visitar a família dela no Rio.

Assim, por longos quase cinco anos correu uma disputa judicial rancorosa e acirrada entre as duas partes. No meio tempo, Bruna casou-se novamente com o advogado que havia contratado para defendê-la na disputa por Sean, engravidou e teve uma filha. Mas, para tornar as coisas ainda mais dramáticas, faleceu tragicamente de complicações decorrentes do parto. O caso só foi se encerrar na véspera de Natal de 2009, quando a família de Bruna finalmente entregou Sean a seu pai em meio a uma multidão de fotógrafos e populares, numa lamentável e desnecessária exposição do menino. As imagens correram o mundo e causaram indignação geral aqui nos Estados Unidos.

O Jornal Nacional quis justificar a ação dizendo que a família de Bruna não havia sido informada que a embaixada americana havia oferecido um lugar mais isolado e longe da imprensa para a troca (fato negado veementemente pelo advogado brasileiro de David e pela embaixada americana), e quis dar lição de moral na imprensa americana, dizendo através de William Bonner e Fatima Bernardes, que no Brasil, ao contrário dos Estados Unidos, a televisão jamais havia mostrado o rosto de Sean publicamente. Mas, eles se esqueceram que a revista Época, parte das Organizações Globo, estampou em uma de suas capas ano passado, uma foto enorme do menino Sean e dedicou generosas paginas também recheadas de fotos sobre o caso. Pura hipocrisia. Aliás, a Globo visivelmente tomou o partido da família brasileira, o que pôde ser visto em todas as entrevistas da avó de Sean dadas ao Fantástico e ao Jornal Nacional. A imprensa brasileira se comportou de forma muito estranha também, durante todos esses anos de disputa. Em alguns momentos, ficou absolutamente calada, não publicando nada sobre o assunto enquanto no mundo inteiro o caso Sean Goldman já havia tomado proporções enormes, como se houvesse algum tipo de censura nos meios de comunicação. Algo inaceitável para um país que se diz democrático.

O programa da NBC trouxe algumas imagens inéditas da intimidade de Sean e David a caminho de Nova Jesrsey, no jatinho fretado pela própria NBC por sinal, e já em solo americano brincando com primos e tios. Claro que havia uma certa tendência de dar mais espaço para David Goldman, afinal o programa foi destinado para o publico americano, mas pelo menos a NBC mostrou os dois lados da moeda e não omitiu nenhuma das acusações feitas contra ele pela família brasileira. Entre elas a de que ele na verdade só está interessado em fazer dinheiro com a volta de Sean, prova disso foi o acordo com a rede NBC para a produção do programa. Enquanto que no Brasil, nenhum programa da Globo se dignou a entrevistar o jovem advogado brasileiro de David Goldman, que poderia dar muitos detalhes sobre os bastidores da disputa. Muito suspeito.

O mais vergonhoso de tudo foi a justiça brasileira que além de morosa e confusa, não teve a menor sensibilidade com as partes envolvidas. Tudo poderia ter sido resolvido de forma mais rápida e discreta, já que o Brasil é signatário da Convenção de Haia, que rege casos exatamente como esse. Depois da morte de Bruna, a disputa já estaria encerrada em qualquer pais decente, e o filho obrigatoriamente teria ido para o parente vivo o mais rápido possível, a não ser que o pai fosse um criminoso ou pedófilo, o que não era o caso. Mas, o Brasil apesar dos avanços ainda é um país corrupto e que favorece os mais ricos e poderosos. A família Lins e Silva, do padrasto de Sean é bastante conhecida e influente no Brasil e talvez por isso o caso tenha se entendido tanto. E a “cereja do bolo” nessa trapalhada toda foi o patético juiz do supremo mudando de idéia três vezes seguidas em menos de uma semana! Absolutamente ridículo.

Mas a grande verdade é que as duas partes foram pra lá de inflexíveis durante toda a epopéia e não facilitaram em nada a resolução da disputa. Poucos, senão nenhum ato de grandeza foi visto durante todo o processo. No entanto, é visível que ambas as famílias amam profundamente aquele menino e que muitas das decisões foram pautadas mais pelas emoções que pela razão em alguns momentos. A família brasileira parece que tinha por objetivo cozinhar os trâmites o máximo possível, até que Sean pudesse, aos 13 anos, decidir por si próprio onde queria ficar. E o plano só não deu certo porquê a imprensa internacional colocou pressão em cima dos dois governos.

Quem mais errou nessa historia toda foi a mãe, Bruna, que covardemente levou seu filho embora sem a anuência do Pai. Por mais difícil que fosse, o correto teria sido pedir o divorcio e lutar pela guarda do filho em território americano, onde eles se casaram. O que ela fez foi imoral e criminoso. Ela mesmo foi quem gerou todo o problema. Dificilmente teria perdido a guarda de Sean se tivesse iniciado o processo nos Estados Unidos. Certamente teria que permitir visitas do pai mas enfim, isso seria a coisa certa a ser feita.

Com tantos desdobramentos e reviravoltas, o caso de Sean Goldman certamente tem ares de filme de Hollywood e há quem diga que já existem negociações para a produção de um filme.

Eu só espero que depois de tudo o que esse menino passou, as duas famílias possam colocar a mão na consciência e acabar com qualquer tipo de disputa e tentar prover para Sean um ambiente de paz e harmonia. Ambas as partes deveriam tentar aparar as arestas e sem a necessidade de apelação judicial negociar uma convivência pacífica. Sean precisa de amor, aquele mesmo sentimento que a bíblia descreve como paciente, benigno, que não arde em ciúmes, não se ensoberbece. Talvez as duas famílias precisem conhecer mais desse amor também.

Um abraço,

Leon Neto