Dia desses tivemos uma discussão em sala de aula sobre o que caracteriza uma musica boa, se é possivel se estabelecer padrões absolutos de qualidade ou não. Nem é necessário dizer que a discussão não deu em nada. Isso, porque a questão esbarra no próprio conceito filosófico da relatividade do belo. Cada cultura, cada geração tem seus próprio padrões e critérios e fica muito difícil se estabelecer o que é ou não apreciável ou desejável em qualquer que seja a forma de arte em discussão.

Cada gênero e estilo deve ser analisado sob a sua ótica própria e não encaixotado em padrões que são muito mais sub-produtos do preconceito ou do gosto pessoal do que qualquer outra coisa. Comparar, Chico Buarque com Zezé Di Camargo, portanto, é tão impossível quanto comparar Elis Regina com Ivete Sangalo; não dá; são propostas completamente diferentes. Foi interessante outro dia, quando ouvi em determinado programa de radio, uma jovenzinha falando horrores de Chico Buarque, o chamando de chato e até mesmo de brega! Para quem cresceu tendo Chico como representante absolutamente intocável da cultura musical brasileira, foi surreal ouvir aquela jovem achincalhando o grande compositor. Mas, se pensarmos bem, é isso mesmo; cada geração tem o direito de escolher seus idolos e seus padrões de qualidade; esse é um processo inevitável e inexorável, assim como é o conflito de gerações. Mesmo na música erudita, a relativação dos padrões de qualidade também se faz presente; a cada mudança de período, novos critérios são adotados e o que antes era desejável, passa a ser antiquado.

Mesmo me dando o direito de não gostar de alguns grupos e cantores, tenho por principio respeitar todo artista que procura desenvolver seu trabalho honestamente. Mas, com raras e honrosas exceções o que se tem visto surgir no cenário basileiro é muito mais fruto de ambições mercadológicas do que da pura expressão de idéias e arte. A grande verdade, é que a indústria fonográfica brasileira quer ter muito lucro, em pouco tempo e sem investir nada. Assim, tem caminhado ao sabor das ondas da moda e tornado o meio musical brasileiro cada vez mais monocromático. Em outras palavras, quando a onda do momento é pagode, só se produz pagode, quando é sertanejo, tome sertanejo e assim vão as gravadoras enchendo os bolsos às custas da imbecilização do público. E os artistas cada vez mais vendendo a alma ao diabo (leia-se: gravadoras), e fazendo o jogo do mercado. Esses não têm o meu respeito. Contudo, voltando a temática da qualidade, para os tubarões da indústria, música boa, é a musica que vende bem, e ponto-final. São padrões e critérios questionáveis, mas sob a ótica do mercado, absolutamente válidos. Empresário bem sucedido é aquele que ganha muito dinheiro. E contra fatos, não há argumentos.

E se pensarmos agora na música cristã; o que faz uma música cristã ser boa ou ruim? em termos de estética, podemos aplicar nesse caso, os mesmos conceitos que acabamos de discutir em relação a música de forma geral. Mas, o que devemos lembrar, é que musica cristã é em sua essência, música funcional. Ou seja, toda música Cristã tem um objetivo, uma função. Não é apenas a expressão de um pensamento ou uma idéia artística, mas carrega em seu bojo uma missão, uma mensagem específica. Sob esse ponto-de-vista, música cristã boa, é aquela que comunica sua mensagem e proclama os princípios e verdades do evangelho, a despeito do formato em que se apresenta. Assim, na minha opinião, o ritmo, gênero ou forma que se usa em uma canção cristã, tem muito pouca importância. O que faz toda a diferênça é o seu texto. Mas, mesmo a forma sendo secundária, não deve ser desprezada, porque ela pode facilitar ou dificultar bastante a propagação da mensagem imbutida no texto. Ampliando então o nosso conceito inicial, música cristã boa, é aquela que tem uma mensagem coerênte com a fé cristã, emoldurada por uma forma musical que facilita a veiculação dessa mensagem.

Será que a indústria fonográfica evangélica tem levado esses princípios em consideração? Será que temos produzido música cristã de boa qualidade? O que tenho visto na geração de hoje, é que a maioria dos artistas cristãos tem como modelos, bandas e cantores inspirados em modelos muito próximos aos do mercado secular e seus vícios. Os grande sêlos evangélicos brasileiros investem mais em “produtos” de fácil vendagem e de acordo com a onda do momento do que em artistas e grupos com coerência doutrinária. Assim, absurdos tem brotado em profusão no meio musical evangélico brasileiro; coisas como “clones” evangélicos de cantores populares , músicas de duplo sentido, onde não se sabe se o autor está falando de Jesus ou de sua namorada, e bandas com um louvor muito mais calcado no velho testamento do que na dispensação da Graça. Nos tornamos tais quais os mercadores do templo, que Jesus chicoteou sem piedade: prorizamos o dinheiro em detrimento dos nossos principios e valores, desrespeitando assim a casa de Deus. Por isso nem me choquei muito quando a alguns anos atrás , determinada banda de rock evangélico decidiu deixar o mercado evangélico e se aventurar pelo meio secular frequentado as MTV’s da vida; no fundo no fundo é tudo a mesma coisa, farinha do mesmo saco. Achei até mais honesto da parte deles.

O que penso ser mais importante em relação á música cristã contemporânea não é o estilo musical ou mesmo a tal da qualidade, que de toda forma sempre será relativa e questionável. O que realmente importa é se o que é produzido pela indústria dita-evangélica está fazendo diferênça na vida das pessoas, ou não; se as letras tem proclamado o evangelho de Cristo, se tem levado o povo de Deus a uma atitude de adoração genuína. Em outras palavras, se existe compromisso com o evangelho, desde a concepção da canção até a sua distribuição. e nós como consumidores, devemos então buscar não só música de qualidade, mas artistas e produtores cristãos de qualidade. Como saber então, diferenciar? Como é possível aferir se o artista tem ou não compromisso com Deus? Bem, humanamente não é possivel saber; só mesmo se buscarmos discernimento, na dimensão espiritual, onde, aliás, deve estar o louvor genuíno.

A esperança que nos resta talvez continue sendo a produção independente, que nem sempre produz qualidade, mas ao menos está livre da influencia maléfica do fenômeno da cultura de massa e nos oferece alternativas mais profundas e edificantes. Me enche o coração de alegria quando descubro grupos como Sal da Terra e Céu na Boca, por exemplo, que mesmo fora da grande mídia, conseguem sobreviver e abençoar a vida de tanta gente. Graças a Deus pelos bravos e idealistas músicos cristãos independemtes que tem conseguido sobreviver desta forma, botando seus cds debaixo do braço e indo “aonde o povo está” , como diria Fernando Brant. Talvez eles estejam mais próximos dos apóstolos de Cristo que saiam de vila em vila, cidade em cidade pregando as boas novas de forma autêntica e despojada, de forma direta para o povo. Quando o evangelho passou a ser um produto e caiu nas mãos de uma “grande corporação”, Veja só no que foi dar…

Pense nisso tudo quando for comprar seu próximo cd; procure música cristã, mas “da boa”.

Um abraço,

Leon Neto