Algo que venho notando a um certo tempo é o gradual desaparecimento dos hinos tradicionais dos cultos da maioria das igrejas evangélicas. Especialmente na comunidade neo-pentecostal onde um turbilhão de novas denominações tem nascido do dia para a noite, é uma raridade encontrar algum hino dentro do repertorio utilizado para cultos, eventos e gravações.

Digo isso sem fazer aqui nenhuma crítica ou juízo de valor necessariamente; apenas estou querendo entender o fenômeno. Para alguém como eu, que foi criado desde a mais tenra idade em igrejas batistas, hinos tradicionais são parte integrante de qualquer evento evangélico e parece impossível tirá-los do contexto, ainda que seja para usá-los sob uma roupagem mais contemporânea. Por isso fico tão surpreso quando me deparo com algum adolescente que nunca ouviu falar em “Descansando no Poder de Deus”, ou “Brilho Celeste”; para mim é surreal; e não estou falando aqui em gostar ou deixar de gostar, mas de conhecer a melodia ou de ter pelo menos ouvido alguma vez.

É fácil entender porque os hinos foram sendo cada vez mais retirados da liturgia das igrejas neo-pentecostais. Boa parte da membrezia das citadas igrejas é formada por novos convertidos, que nunca tiveram qualquer contato com igrejas evangélicas tradicionais, ou históricas. Assim, tiveram muito pouca chance de ouvir ou serem influenciados por hinos tradicionais. Em segundo lugar, porquê nas novas denominações em geral opta-se por usar uma linguagem mais moderna e contextualizada e gêneros mais próximos da música comercial, certamente mais assimilável pelos neófitos, o que é bastante compreensível.

Mas, o que me preocupa um pouco é o fato de que estamos deixando de fazer uso de uma fonte quase que inesgotável de ótimas e profundas letras, e nos afastando daquilo que representa nossa própria tradição musical, como evangélicos brasileiros. Ainda que a maioria dos hinos encontrados nos diversos hinários sejam de origem norte-americana e européia, eles fazem parte da nossa historia; emolduraram as primeiras viagens missionárias e campanhas evangelísticas no século 19 e ajudaram a traduzir para o contexto brasileiro as doutrinas e princípios das denominações evangélicas históricas. Hinos como “Quão grande és Tu” e “Tu és fiel Senhor”, foram se tornando tão presentes no contexto evangélico da primeira metade do século 20, que muita gente tem certeza de que eles são hinos brasileiros de origem. Alguns hinos inclusive são mais conhecidos aqui do que em seus países de origem, como é o caso de “Cristo Valerá” e “O Segredo do Viver”. E em alguns casos, passaram a ter contextos e mensagens bem diferentes dos originais, como aconteceu com o conhecidíssimo “Vencendo vem Jesus”, que na verdade usa a melodia do Hino da proclamação da republica norte-americano!

Na década de 80, a Convenção Batista Brasileira iniciou a elaboração de um novo hinário, que se propunha a revisar traduções, retirar hinos em desuso e mesmo introduzir hinos originariamente compostos em português. O tal hinário chamado “Hinário para o Culto Cristão” ou HCC, tentou dar um novo fôlego a um gênero em franco declínio e provou ser o canto do cisne de publicações deste tipo. Um projeto que nunca foi levado a cabo em sua inteireza e que causou mais confusão do que qualquer outra coisa. Imagine só, querer mudar a letra de hinos que vem sendo cantados por gerações da mesma forma; seria preciso passar por outras tantas gerações para que o projeto fosse assimilado. Mas, pelo menos criou espaço para alguns poucos, na minha opinião, compositores brasileiros publicarem seus hinos.

Ainda que algumas igrejas evangélicas históricas continuem a usar hinos tradicionais em suas liturgias, podemos constatar que seu uso de forma geral está em declínio e que eles estão praticamente excluídos do cenário musical contemporâneo brasileiro. Alguns cantores ainda gravam aqui e acolá versões modernizadas de hinos em seus discos, mas nada muito significativo.

Como disse no início da coluna, não tenho intenção de tecer nenhuma crítica a quem usa ou deixa de usar hinos tradicionais em seus cultos ou gravações. Apenas quero deixar aqui minha palavra de certa preocupação, por ver mais uma demonstração de desapego à historia de nosso povo.

Nos diversos hinários em português que foram publicados ao longo dos mais de cem anos de presença evangélica no Brasil, podemos encontrar hinos compostos desde o século 9 até composições mais recentes, e hinos abordando temas dos mais variados; de comunhão a batismo, de adoração a escatologia, de contrição a ressurreição, praticamente todos os temas ligados á vida cristã podem ser encontrados nos índices dos diversos hinários brasileiros, ao contrario das músicas evangélicas contemporâneas, cada vez mais monotemáticas e sem profundidade.

Não estou aqui propondo uma volta ao passado e espero não estar soando muito saudosista. Mas, espero que essa coluna possa ter suscitado sua curiosidade e faça com que compositores mais jovens possam voltar a usar hinos tradicionais como fonte de inspiração ou mesmo como base para composições e arranjos. E mais importante, que se volte a explorar a riqueza das letras que por séculos e séculos tem expressado nossa fé e nossa crença ao redor do mundo. E letra, mensagem é o que faz toda a diferença em uma música Cristã.

Um abraço,

Leon Neto