Não faz muito tempo assisti a um documentário no canal da National Geographic chamado “Pint-Sized Preachers”, algo como “Pregadores em miniatura”. O documentário acompanhou o dia a dia de três crianças que tem em comum o fato de terem começado muito cedo a pregar em cultos e conferências.

Fiquei surpreso ao saber aqui no FolhaGospel que o documentário já foi traduzido e exibido em português no Brasil. Normalmente programas interessantes como esse demoram um pouco para serem traduzidos, mas talvez o fato de que uma das três crianças retratadas é brasileira e mora no Rio de Janeiro, tenha acelerado o processo.

Kanon Tipton é o primeiro pregador mirim a aparecer no documentário. Kanon é filho e neto de pastor, e mora em uma cidade do interior do Mississipi, no sul dos Estados Unidos. Mesmo antes do programa da National Geographic, Kanon já havia se tornado uma celebridade no Youtube, por conta de alguns vídeos onde aparece pregando de forma entusiástica. E na verdade, Kanon, segundo a família, manifestou seu dom quando nem tinha completado dois anos de idade e agarrou o microfone das mãos de seu avô durante um culto, e começou a pregar. Na ocasião, ninguém entendeu nada, mas todos ficaram impressionados com a desenvoltura de Kanon. Agora, aos 4 anos, o chamado mais jovem evangelista do mundo, já se tornou celebridade e continua campeão de acessos no Youtube.

O segundo personagem do programa é Terry Durham, chamado de “Little Man of God’ (ou “Homenzinho de Deus”). Terry já é mais velho que Kanon (tem treze anos), mas começou também bem cedo. Terry prega desde os 8 ou 9 anos de idade e já é um pastor ordenado. Vindo de uma família pobre do sul da Florida, Terry é a própria tradução do estereotipo das igrejas de negros americanos. Terry, invariavelmente vestido com ternos em cores extravagantes e chamativas, não só prega, mas também faz curas, profecias, fala em línguas e derruba um monte de gente no chão com apenas o toque de suas mãos. Terry está sempre acompanhado por sua avó, também evangelista, que na verdade o criou desde pequeno, já que sua mãe biológica era muito nova, solteira e não tinha condições de cuidar dele na época de seu nascimento. Terry não tem a mesma notoriedade de Kanon, mas mantêm uma agenda bem corrida viajando para pregar em igrejas e conferencias com certa frequencia.

Matheus Moraes é carioca e desde os 2 anos de idade prega em igrejas do Rio de Janeiro. Matheus demonstrou uma habilidade bem precoce para música também e, aliás, começou sua “carreira” cantando. Matheus também é filho de pastor e hoje com treze anos já tem um ministério consolidado, não só em igrejas, mas também em penitenciarias, que visita com frequencia. A ênfase principal do ministério de Matheus é o evangelismo, muito embora ele também faça milagres e curas.

Achei o documentário muito bem feito, como, aliás, a maioria dos programas da National Geographic. Eu não entendo como tem gente que ainda assiste à rede Globo com tanto programa bom na TV por assinatura. O dia em que a maioria da população brasileira tiver acesso à TV paga, o domino da Globo vai acabar. Bem, de todo modo, gostei muito do documentário. Não achei que houve qualquer tentativa de estereotipar os três personagens ou denegrir a família de nenhum deles. Kanon é um fofo! Um menino adorável; e me pareceu bem saudável e equilibrado, que vai à escola e brinca com seus amiguinhos normalmente. É visível que ele está apenas imitando o gestual de seu pai e de seu avô. Dá pra notar que tudo não passa de puro divertimento para ele. Pode até ser que um dia ele venha a se tornar um pastor ou missionário, mas no momento, não é nada muito diferente de um menino que imita seu pai consertando o carro ou jogando futebol. Pelo menos aparentemente a família de Kanon não força nada e deixa ele à vontade para pregar somente quando tem vontade. Menos mal.

Já Terry, achei meio forçado; não que ele seja um engodo, mas parece que sua avó meio que dirige sua carreira e dita tudo o que ele deve fazer e como se portar. Posso estar enganado, mas me pareceu com um certo jeito de ministério caça-níqueis.

Matheus, nosso brasileirinho, é um querido. Claro que há exageros, mas ele aparentou bastante sinceridade e um profundo amor pelas almas perdidas, o que não deixou de ser tocante. Recentemente, Matheus foi entrevistado pelo CQC Danilo Gentilli, e deu um show! Respondeu com bom humor e maturidade e terminou até por deixar o repórter meio sem graça.

Fenômenos como esses não são assim tão incomuns como se pensa. Conheci vários pregadores mirins ao longo de minha vida. A maioria não passava de pura imitação. Por isso a família desses jovens precisa ser bastante responsável para não expor seus filhos a situações de stress para as quais eles não estão preparados ainda. Criança tem que aproveitar a infância com toda a intensidade, pois é uma fase de vida que não volta mais. Se esses e outros “fenômenos” são de fato chamados para o ministério, que estudem terminem o ensino básico e entrem em um seminário para buscar treinamento e conhecimento teológico. O mesmo Deus que nos vocaciona é o Deus que nos capacita e que espera que desenvolvamos os dons e talentos que recebemos. Até mesmo Jesus, que aos 12 anos já demonstrou seu chamado debatendo com religiosos na sinagoga, só foi começar seu ministério de fato aos 30 anos.

Se você encontrar um dos muito pregadores ou ministros mirins que andam por aí, fique de olho na família deles; fiquem atentos para pais e parentes que estão atrás apenas de fazer dinheiro fácil, e que não se preocupam com o desenvolvimento psicológico e emocional de seus filhos.

Um abraço,

Leon Neto