Dia desses assistindo ao meu programa favorito, “Manhattan Connection”, Diogo Mainardi fez uma comparação bem interessante sobre dois filmes de Nelson Pereira dos Santos. O primeiro, um documentário produzido na década de 70 sobre a dupla sertaneja Milionário e José Rico e outro, mais recente sobre o compositor Tom Jobim.

Mainardi disse que o filme sobre Tom Jobim nos faz pensar em como o Brasil poderia ter sido, com Tom Jobim representando os ideais sofisticados e refinados dos anos 50; ideais esses derrotados pelo Brasil popularesco e tosco representado por Milionário e Zé Rico. E ele tem mesmo razão; o que impera no Brasil de hoje não são os princípios capitaneados por Jobim, Glauber Rocha e Niemayer, mas sim a sub-arte dos funks cariocas, grupos de pagode e duplas sertanejas.

Por isso mesmo, enorme foi a surpresa de todos quando semana passada durante um show atrapalhado onde Luciano sumiu, deixando seu irmão Zezé de Camargo cantando sozinho e depois reapareceu para anunciar sua “aposentadoria” e o consequente fim da dupla. O que parece ter acontecido, foi um repentino desentendimento entre os dois cantores no camarim minutos antes do show e que acabou por fazer Luciano sair do teatro em desabalada carreira. Abandonar um show é algo que não se faz; só mesmo um motivo de saúde ou morte na família justificaria o que Luciano fez. Depois, ficou-se sabendo que o chilique de Luciano estaria ligado ao uso excessivo de diuréticos com fins de emagrecimento. Luciano foi inclusive hospitalizado logo em seguida, com suspeita de problemas cardíacos. Todo mundo sabe que o uso de diuréticos é algo extremamente perigoso; Luciano que tem tanto dinheiro e pode pagar médicos de boa qualidade deveria estar sendo melhor assessorado nesse sentido. É inaceitável que ele tenha chegado a esse ponto por pura vaidade. Mas, de toda forma, artistas de sucesso em geral não são lá muito controlados com o consumo de drogas, permitidas ou não.

Zezé di Camargo e Luciano estão juntos há mais de 20 anos e se consolidaram como uma das duplas mais bem sucedidas da historia da musica brasileira. Os dois irmãos são uma verdadeira mina de ouro para gravadoras, produtores e redes de televisão de capitalizam sem pudores de todas as formas possíveis a fama e aceitação pública que eles conquistaram ao longo da carreira. Imagino só como esses que fazem milhões e milhões às custas da dupla devem estar com as mãos na cabeça, desesperados com a possibilidade da perda dessa “galinha dos ovos de ouro”. Eu sinceramente tenho minhas dúvidas se essa estória de fim da dupla vai mesmo acontecer. Num país como o nosso onde os direitos autorais não são respeitados e onde reina a pirataria com a conivência do poder publico, cantores como eles ganham dinheiro muito mais com shows ao vivo do que com os contratos com as gravadoras. É difícil imaginar que Luciano, ainda tão jovem, vai manter sua decisão depois de pensar com calma e fazer as contas de quanto dinheiro vai perder.

Zezé di Camargo, já está tentando de todas as formas convencer o irmão a voltar, muito embora do ponto de vista artístico-musical ele não faça falta alguma. Zezé é o compositor e cérebro da dupla, é o que carrega a melodia de todas as músicas com sua voz caprina e pode achar duzentos mil cantores muito melhores a mais afinados do que o irmão num piscar de olhos, e que estariam dispostos a harmonizar em terças paralelas invertidas os indefectíveis e xaroposos coros de suas canções. Mas, Zezé, que é uma pessoa inteligente, sabe que o aspecto musical é o que menos importa; Zezé di Camargo e Luciano já virou uma entidade com vida própria e transcende a dimensão musical.

A dupla transforma em ouro tudo o que toca e os fãs não estão nem um pouco preocupados com a performance musical de Luciano, mas sim com o personagem que ele representa. Aliás, segunda voz de dupla sertaneja já não tem mesmo grande importância. Não me refiro às saudosas parcerias de Tião carreiro e Pardinho, Pena Branca e Xavantinho e Tonico e Tinoco, muito mais criativas e autênticas, mas sim às essas duplas contemporâneas, que de sertanejas já não tem quase nada. Esses, junto com os grupos de funk, cantoras de axé music e pagodeiros estão na mesma categoria que Diogo Mainardi citou há alguns dias; a dos popularescos de qualidade duvidosa e conteúdo rasteiro. Mas, como é isso que o grande público gosta, com ou sem Luciano, Zezé di Camargo vai continuar a fazer sucesso e lotar seus shows da mesma forma. Infelizmente.

Um abraço,

Leon Neto