Quem imaginaria que um dia a Rede Globo iria exibir em horário nobre um show evangélico de fim de ano? Algo impensável para uma emissora com profundas ligações com a igreja católica e que catapultou o padre Marcelo Rossi ao estrelato nacional não faz muito tempo.

Além disso, boa parte da cúpula da Globo é sabidamente simpatizante da doutrina espírita. Isso sem falar na pendenga com o Bispo Macedo da IURD que já dura mais de duas décadas e que fez com que a citada emissora fechasse suas portas para tudo o que fosse ligado às igrejas evangélicas do Brasil. Por essas e outras o anúncio do show evangélico de fim de ano pegou a todos de surpresa.

Se olharmos com mais cuidado, porém, dá para ver que não foi assim tão surpreendente. A Globo, proprietária do selo Som Livre, já tem em sua folha de pagamento diversos artistas evangélicos que assinaram com o segmento gospel da gravadora. Entre eles, o grupo de maior vendagem no Brasil, o ministério Diante do Trono. Não por acaso, Ana Paula Valadão e o Diante do Trono tem feito algumas aparições de destaque em programas da emissora nos últimos meses.

A Globo começou a colocar olho grande no mercado evangélico quando notou o enorme potencial desse segmento. Somente o Diante do Trono, por exemplo, vende mais do que alguns cantores sertanejos, principal produto da Globo e da Som Livre. O mercado evangélico parece também ser menos afetado pela pirataria, que consome grande parte dos lucros dos outros gêneros musicais.

O show em questão que irá ao ar dia 18 de dezembro será gravado ao vivo uma semana antes no Aterro do Flamengo e vai contar com as participações de Fernanda Brum, Regis Danese, Eyshila, Asaph Borba e claro, do ministério Diante do Trono. Já tem gente falando que a depender do sucesso dessa empreitada, a Globo pode passar a produzir um programa semanal dedicado à musica evangélica.

É claro que a Globo não está nem um pouco preocupada em pregar o evangelho; o que deve ter motivado a emissora a produzir o evento certamente foram os lucros advindos da divulgação de um produto seu, o selo Som Livre Gospel. Mas, isso não deve ser olhado com desdém pelo público evangélico, necessariamente. Aqui nos Estados Unidos, todos os grandes nomes da musica gospel tem contratos assinados com grandes corporações que também não tem compromisso nenhum com o Evangelho. Além do mais, nem mesmo as gravadoras evangélicas são assim tão puras e confessionais; a maioria está mais preocupada com os lucros do que com qualquer outra coisa.

Certamente esse show de fim de ano é uma grande oportunidade para a música evangélica brasileira. Finalmente um dos últimos bastiões de resistência abriu suas portas e vai dar oportunidade para que milhões e milhões de pessoas possam ouvir a mensagem do Cristianismo entrando em suas casas em horário nobre. Sem dúvida é um fato histórico. O apóstolo Paulo afirma em Filipenses 1:15-18 que “alguns pregam a Cristo até por inveja e contenda, mas outros o fazem de boa mente; estes por amor, sabendo que fui posto para defesa do evangelho; mas aqueles por contenda anunciam a Cristo, não sinceramente, julgando suscitar aflição às minhas prisões. Mas que importa? contanto que, de toda maneira, ou por pretexto ou de verdade, Cristo seja anunciado, nisto me regozijo, sim, e me regozijarei”. Nesse sentido, tem pouca importância a intenção da Globo em produzir o especial gospel ; o que os cantores tem que fazer é aproveitar a oportunidade e pregar a Palavra de Deus sem rodeios ou maquiagens; o que tem que fazer é mostrar para o Brasil que louvor é muito mais do que música e que relacionamento com Deus não é entretenimento, mas compromisso de transformação de vida.

Aliás, só começaremos a ter ideia sobre os resultados disso tudo, a partir de como os artistas evangélicos, que invariavelmente serão alçados ao estrelato, irão reagir e como vão lidar com a fama. Eu só espero que eles não se deixem influenciar por eventuais manipulações e edições e se apresentem de forma isenta e genuína, sem comprometer a essência da mensagem de suas músicas e a filosofia de seus ministérios. O que de pior pode acontecer é a Globo começar a interferir demais e gradualmente desvirtuar a mensagem principal. Cabe aos cantores e bandas colocarem o pé no freio se isso acontecer e jamais negociar os fundamentos de nossa fé, mesmo que isso venha ocasionar a perda de vultuosos contratos.

Como diz o ditado, o caráter de alguém é conhecido não na miséria, mas sim no sucesso.

Um abraço,

Leon Neto