No mesmo dia em que o Brasil perdeu um de seus maiores artistas, o arquiteto Oscar Niemeyer, o mundo do jazz perdeu um de seus mais queridos expoentes, o pianista e compositor Dave Brubeck.

Considerado como um dos grandes nomes do chamado Jazz progressivo, Dave revolucionou o gênero ao explorar a polirritmia e o uso de compassos assimétricos. É de Dave Brubeck e Paul Desmond a inesquecível “Take Five” , uma das mais importantes composições jazzísticas de todos os tempos.

Dave navegou também pela musica clássica e orquestral e compôs temas para peças da Broadway e trilha sonora para filmes. Além de compositor, Brubeck era um pianista virtuoso que tocou com os maiores nomes do jazz e se colocou como ícone em um gênero repleto de músicos extraordinários. Sua habilidade como improvisador é lendária e se tornou referência para todos os amantes de jazz e da boa musica em geral.

Poucos sabem, mas Brubeck tinha também um lado religioso; impactado pela experiência de ter lutado na segunda guerra mundial, ele se converteu ao catolicismo ainda jovem e praticou sua religião até o final da vida. Dave inclusive compôs bastante música sacra, como um oratório sobre os ensinamentos de Jesus e uma cantata misturando textos bíblicos e citações de Martin Luther King, Jr.

Meu amigo e colega Vince Lewis, professor aqui da Liberty University, é um guitarrista de jazz extraordinário, com uma carreira de mais de 40 anos e teve o privilégio de conhecer e abrir alguns shows para Dave Brubeck. Perguntei à ele o que mais lhe marcou na convivência que teve com Brubeck e Vince disse: “Meu professor de guitarra, Bob Whitlock, me levou para ouvir Dave Brubeck in Charleston no começo dos anos 60. Eu ainda estava no colégio e quase não consegui acreditar na música que o quarteto dele conseguia produzir. Em 2005 e 2007, eu tive o privilégio de abrir o show para Brubeck em dois festivais de Jazz. Nosso primeiro encontro aconteceu pouco antes de um banquete para convidados e imprensa. Depois de conversarmos um pouco ele foi chamado para entrar para o salão do banquete por uma entrada privada e assinar alguns autógrafos para convidados importantes. Eu prontamente fui me retirando para que ele pudesse ser devidamente homenageado. Mas, quando ele me viu saindo, me chamou de volta e disse: ‘de jeito nenhum! Você vai entrar comigo; você merece estar aqui tanto quanto eu’. Nós então entramos pelo elevador juntos e ele manteve seu braço sobre meus ombros o tempo todo. Dave Brubeck era de fato um cavalheiro e um mestre do jazz. Sua bondade, generosidade e humildade eram genuínas e autênticas. Ele era uma inspiração para todos os que o conheceram dentro e fora dos palcos”.

Enquanto gente medíocre como Madonna e Lady Gaga vivem dando demonstrações de arrogância e estrelismo por onde passam, Dave Brubeck, este sim, um verdadeiro gênio da música, mostrou nos seus mais de noventa anos de vida, que é possível ser um artista de grande magnitude sem sucumbir às armadilhas e excessos do estrelato.

Um abraço,

Leon Neto