Depois de conquistar o publico brasileiro, encher as salas de cinemas e os carrinhos dos camelôs, o filme “Tropa de Elite”, de José Padilha, iniciou sua carreira internacional conquistando um dos prêmios mais respeitados do cinema Europeu.

Fazendo parte do triunvirato de festivais mais importantes da Europa, ao lado de Veneza e Cannes, o festival de Berlim é dos mais concorridos e cobiçados do mundo. Filmes como “Rain man”, “Magnólia”, “Em Nome do Pai” e “Razão e Sensibilidade”, figuram entre os vencedores anteriores, o que mostra a credibilidade que o festival tem junto ao meio artístico mundial.

O Brasil já conquistou em 1998 o Urso de Ouro, prêmio máximo para o melhor filme da mostra, com “Central do Brasil”. O que aliás, é um ótimo presságio para Padilha. Se “Tropa de Elite” tiver o mesmo trajeto do filme de Walter Salles, então teremos muitos outros prêmios pela frente.

Mas, dessa vez, ninguém estava contando com a premiação de “Tropa”. As primeiras exibições obtiveram reações um pouco frias da platéia, e parte da imprensa internacional teceu algumas críticas ao teor do filme, chegando mesmo a chamá-lo de facista e reacionário.

Outro fator que pesava contra o filme de Padilha, era o fato de o júri do festival ser presidido pelo diretor greco-francês Costa-Gravas, conhecido por seus filmes de esquerda, como “Z”, e “Missing-O Desaparecido”. Todos esperavam que ele não se entusiasmasse muito com “Tropa de Elite” e até mesmo boicotasse uma possível premiação.

Mas, parece que o brilhante Costa-Gravas não se deixou influenciar pelas críticas de alguns jornais internacionais e à frente do júri, entregou o prêmio a José Padilha.

Não posso dizer se o prêmio foi justo ou não, até porquê não assiti aos outros concorrentes, mas posso, ancorado na minha brasilidade, dizer que foi bastante merecido. Poucas vêzes na história do cinema brasileiro se viu um fenômeno como “Tropa de Elite”, que transcendeu em muito sua dimensão de filme, inundando todos os setores da sociedade brasileira. Seus chavões viraram mania nacional, as cenas foram parodiadas à exaustão em programas humorísticos, os atores alçados à categoria de astros e até mesmo blocos carnavalescos saíram fantasiados à caráter. Debates na televisão não paravam de acontecer e mesmo nas conversas de botequim o assunto do filme era sempre evocado. documentários e reportagens sobre os temas abordados pelo flme pipocaram em todos os canais por vários mêses.

O melhor de tudo na minha opinião, foi justamente isso; mais até do que o filme em sí, as discussões e os questionamentos surgidos são muito mais benéficos para nossa sociedade do que qualquer prêmio.

E de todos os diversos temas incluídos na trama do filme, um dos principais é a tomada de consciência sobre a relação entre os consumidores de drogas e o crime organizado. Antes, sempre se tratava com demasiada tolerância aqueles que “apenas” consumiam drogas mas não traficavam. “Tropa de Elite”, mostrou com muita propriedade que a razão da existência do tráfico são os que consomem drogas. Dos adolecentes comprando um simples “baseado” até as socialites e artistas que consomem cocaína e heroína, esses são os verdadeiros culpados e financiadores do tráfico de drogas.

Espero que “Tropa de Elite” ainda conquiste muitos prêmios e quem sabe até mesmo indicações ao Oscar, já ainda pode concorrer nas categorias principais. Mas espero mais ainda que as discussões e debates continuem e nos ajudem à caminhar rumo a uma sociedade mais justa.

Um abraço,

Leon Neto