Para mim o “conceito de mundo” é uma das principais confusões cristãs, e de onde procede boa parte dos conflitos e irreconciliabilidades de pensamento que aparecem no meio dos que confessam ser gente do evangelho ou da igreja, mas vivem em estado de “reclusão-inserida” no espírito do mundo. (Em meu livro “Mais que um sonho”, trato disso com um pouco mais de atenção).

Na cabeça dos crentes, a loucura e o processo de descolamento entre realidade e fantasia, começa aqui… na confusão do significado “de mundo”. Sim, porque de um lado Deus ama o mundo, e Jesus se deu pela humanidade e toda a criação. Entretanto, também se lê que aquele que ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Na mesma seqüência de contradições vem a oração de Jesus, pedindo ao Pai que não nos tirasse do mundo, mas que apenas nos guardasse do mal, pois não somos do mundo, como Ele também não era. Estava no mundo… mas não era do mundo! Assim, segundo Jesus, mesmo não sendo do mundo, tem-se que ser ativo e partícipe nele; afinal, somos o sal do mundo, ou da terra, como se preferir chamar.

Entretanto, a lista de conflitos entre mundo-e-mundo apenas cresce na cabeça dos crentes, apesar de Paulo dizer em II Coríntios que “o mundo é nosso”, assim como a vida, a morte, as coisas do presente e as do porvir. “Tudo é vosso, e vós de Cristo, e Cristo de Deus”, conclui ele.

Simplificando a questão, eu diria apenas que o Novo Testamento usa várias palavras diferentes para designar coisas distintas, mas que são traduzidas, algumas vezes, pelo mesmo termo, como é o caso da palavra mundo; e não somente palavras diferentes são usadas nas Escritura, mas se as faz ganharem a devida conotação de acordo com o contexto em questão.

Entretanto, Deus amou o mundo das coisas criadas e dos humanos. Todavia, Ele não está “presente” no “curso desde mundo”, que não é nem a criação e nem os indivíduos humanos, mas o entendimento de valores que movem a ambição da civilização —, que é controle, manipulação, domínio, e poder. Ora, esta dimensão do mundo jaz no maligno e é pervertida em seu entendimento; e a História está aí para nos comprovar tal fato.

Além disso, tem-se também o aeon de cada tempo, que é a Era de certo momento histórico, a qual, na maioria das vezes, está tomada pela carga dos ódios, modas, irreflexões-feitas-valores, banais e perversas causas de vida ou morte, assentimentos emocionais com a morte, concentração de riquezas, imperialismo, colonialismo, guerras religiosas, espíritos de vícios generacionais, e tudo o mais que mantenha uma dada geração correndo atrás do vento, como se tal fizesse sentido.

Isto é mundo!

Desse modo, Deus ama a criação e todas as criaturas, incluindo a espécie humana, por quem se diz que Ele deu seu Filho. Ele também ama todas as produções da criatividade humana que se dedicam à vida, ao belo (e aqui não falo de estética apenas) e ao significativo. Por esta razão as portas da Nova Jerusalém estarão abertas para que os povos levem ao Cordeiro as belezas de suas riquezas e produções culturais, artísticas e espirituais dedicadas à vida.

Assim, sem ter que ir tão longe, o Apocalipse diz: “…fora ficam…”; e também diz: “… nela entram…”. Fora ficam as maldades do sistema e todas as energias que as motivaram, emularam e alimentaram. Nela entram pessoas, gente, povos curados pelas folhas da Árvore da Vida.

Desse modo, sabe-se que Deus não odeia a criação, ao contrário, ama o cosmo e todos os universos e suas criaturas, bem como ama toda produção da inteligência e da alma que sejam dedicados à vida.

O que Deus não ama, e sou convidado a também não amar, é o sistema de morte e controle que existe na Terra, o qual, em nossos dias, anda para o ideal de controle do diabo e dos seus “anticristos”. Ora, esse sistema é de marcar homens como gado, e exercer controle até sobre suas almas, gerando em cada indivíduo emulações de desejo, consumo e entrega da mente ao curso do mundo, que é o que mantém a humanidade sem poder comprar, vender, ir e vir, ser ou deixar de ser, sem que tenha que verificar se está sob o conceito aceitável dos fazedores de imagens falantes, que são, cada vez mais, os humanos de nossa geração.

Quem ama tais valores e sistemas, os quais são sempre movidos pela ambição do controle e das riquezas, não pode dizer que ama a Deus, pois, tal sistema, é a antítese de tudo quando Deus é: Ele ama e deixa livre; o sistema, entretanto, é frio e perverso, e seu ideal é controlar. Deus se dá; o sistema, porém, apenas quer tirar, roubar, tomar, expropriar e possuir. Deus ama a todos, mas o sistema separa os homens a quem Deus ama. Etc…

Ora, se pensarmos na “igreja na história”, de um lado; e de outro pensarmos apenas no que é e no que não é mundo; veremos que mesmo com sua obsessão antimundo, por seguir e praticar o mesmo espírito de poder, controle e manipulação que há no mundo, a igreja, ainda que “invocando” o nome de Deus, é MUNDO, no pior sentido da palavra; visto que é parte do curso dos sistemas da morte, e o pratica sob o manto do engano de que em nome de Jesus toda perversidade é santificada. Sim, porque a igreja odeia o que Deus ama e ama o que Deus aborrece! Odeia o mundo que Deus ama, e ama o mundo que Deus abomina. E, desse modo, quase que só existe na contramão do amor de Deus no mundo.

Isso porque a pobre e infeliz igreja pensa que o mundo é um lugar, uma geografia, uma coisa que existe diante dos olhos… e não é. Por esta razão, para a “igreja-burra-de-espírito” e preguiçosa na “busca da verdade interior”, é mais fácil dizer que mundo “é tudo que não é ela”; embora, dentro dela exista tudo o que “no mundo” se faz ou se deixa de fazer com muito mais honestidade-perversa, no primeiro caso; ou consciência livre, no segundo caso.

Desse modo, mesmo sendo perversamente do mundo, entregue ao mal, a “igreja” acha que se as coisas dela foram feitas “consagradas nominalmente a Deus”, não importando as motivações, as ambições mercadológicas, os marketings de manipulação, e todas as demais decisões dela, quase sempre baseadas em “imagem” — essas coisas, mesmo sendo más, não são mais do “mundo”; pois teriam sido feitas nesse “lugar-institucional” no qual existe, supostamente, uma suspensão da verdade para Deus, valendo tudo, desde que feito para a “glória Dele”.

Assim, a “igreja” não enxerga que existe no “pior dos mundos” em sua total e mais sutil manifestação. Desse modo, se for para Deus, pensa ela que toda bosta é ouro, e todo mijo é vinho de Caná.

O que a “igreja” não quer ver é que como ela é, ela é mundo; e não é objeto do amor contente de Deus, mas apenas de Sua paciência; enquanto Ele aguarda o dia em que aqueles que o confessam, entendam que o Evangelho não é um sistema, uma geografia santificada e nem um poder mundano, o qual, ainda que seja operado confessadamente para “a gloria de Deus”, nem por isto deixa de ser o que é: mundo em sua pior manifestação. Pois a placa de “igreja” na porta não é um lugar de alquimia divina no qual todo esterco se torna em diamante espiritual.

Para simplificar ainda mais, apenas pense: quem foram aqueles com quem Jesus se sentiu bem, em que lugares e com que gente Ele apreciava estar, onde Ele aceitava comer com mais liberdade, onde Sua presença era celebrada, e Sua mensagem acolhida? Responda isto à luz do Evangelho e você verá o que para Jesus era o mundo a ser amado, apesar de tudo. Por outro lado, veja onde Ele se sentia mal, com que tipo de espírito, tema, interesse, papo e valores com os quais Ele se incompatibilizou — e você verá o que para Ele era mundo.

Por tal olhar a partir do Verbo Encarnado, um monte de gente que a “igreja” diz que é do mundo, não é; sendo apenas pessoas que não sabem como fazer para não ser, posto que em suas almas aborrecem aquilo que a “igreja” chama bom e de sua “tarefa”, discernindo eles que tais coisas não podem ser de Deus pelo simples fato que não carregam graça e amor; e isto enquanto a própria “igreja” nem mesmo consegue enxergar seu estado patético.

Entretanto, conforme o Evangelho, o verdadeiro mundo não é feito de publicanos, pecadores, meretrizes, bebedores de vinho ou de pecadores quebrados; mas sim de gente “piedosa”, jejuante como um camelo, curvados como islâmicos, e tarados homicidamente pelo que eles chamam de “verdade de Deus”.

Sim, conforme o olhar do Evangelho de Jesus, onde estava o mundo em sua forma mais letal e perversa: entre os pecadores e infelizes da terra ou entre os “sãos” que não precisavam de médico?

O que a “igreja” precisa aceitar, a fim de ser salva de sua morte e arrogância, é que ela está para o Presente da História assim como o Sinédrio, os doutores da Lei, os escribas e os fariseus estavam para Jesus, nas narrativas do Evangelho!

Ora, o mundo é o mundo; e faz menos mal como é, mesmo em sua forma pior, do que a “igreja”; posto que o mundo se sabe perdido, e pode ser alcançado; a “igreja”, porém, se vê como a salvadora desses perdidos que estão mais achados do que ela própria; visto que se pelo menos dissesse que não vê, não teria pecado algum, mas como diz: “… nós vemos…”, subsiste seu grande engano, pecado, e narcisistico espírito de auto-engano luciferiano.

Assim, o mundo que Deus ama, entre os humanos, é feito de gente doente e que precisa de médico; já o mundo que Ele aborrece é feito do espírito dos doentes que não se enxergam, e, por esta razão, oferecem-se para ser os guias de cegos que ainda vêem um pouco melhor do que a maioria de seus guias.

Nele, que não nos deu do espírito do mundo, mas do Espírito de Deus,

Caio