Muitas relações familiares pioram, quando marido é enviado à guerra. Traição, divórcio e queda no desempenho escolar das crianças são alguns dos efeitos.

Durante os cerca de dois anos em que o cabo John Callahan das Forças Armadas ficou longe de casa, sua esposa, segundo ele, teve dois casos extraconjugais. Ela não conseguiu pagar as contas de cartão de crédito dele. E os dois filhos do casal foram mandados para morar com os pais dela após a deterioração da família.

Então, em novembro, houve uma falha na metralhadora usada por ele durante um combate, ferindo-o na virilha e mutilando sua perna esquerda. Quando sua esposa conseguiu localizá-lo por telefone após uma operação na Alemanha, o cabo Callahan mal conseguia escutá-la. O namorado dela estava gritando muito alto ao fundo. “Você não disse a ele que terminou?”, o cabo Callahan, 42, recorda-se de ouvir o homem falar. “Que você não vai mais usar a aliança dele?”.

Para o cabo Callahan, que se recupera no Centro Médico Walter Reed Army, e tantos outros soldados e membros de família, os desdobramentos, o caos e a solidão dos combates durante a guerra são um dos mais difíceis, e menos discutidos subprodutos dos conflitos no Iraque e Afeganistão. Centenas de milhares de soldados e pessoas amadas resistiram por bastante tempo, às vezes a repetidas separações que testam a fragilidade dos relacionamentos de formas inesperadas.

A situação tende a piorar à medida que o exército aumentará o número de tropas no Iraque nos próximos meses. O Pentágono anunciou na quarta-feira (21) que planeja enviar mais de 14 mil tropas da Guarda Nacional de volta ao Iraque no ano que vem, causando enorme preocupação entre os reservistas. Cerca de um terço das tropas que serviram no Iraque e Afeganistão participaram de mais de uma missão.

A maioria das famílias e soldados enfrenta a situação, às vezes heroicamente. Mas essas separações também deixaram um rastro de uniões bastante abaladas ou rompidas, muitas agravadas por adultério ou vícios sexuais; esposas sobrecarregadas, muitas vezes recorrendo a antidepressivos; desordem financeira resultante do acúmulo de dívidas, salários perdidos e excesso de gastos; crianças emocionalmente abaladas chegando às vezes a apresentar fraco desempenho escolar; e pais aflitos que por vezes se atacam.

Os mais atingidos são os reservistas e suas famílias, que nunca tiveram expectativa de longos períodos de ausências, às vezes no máximo 18 meses, e que não possuem a rede de suporte dos membros veteranos do exército.

“Desde a partida do meu marido, treinei duas crianças para deixar de usar fraldas, o mais velho começou na pré-escola, um aprendeu a andar e falar, e além disso o bebê não está dormindo bem”, disse Lori Jorgenson, 30, cujo marido, capitão da Guarda Nacional de Minnesota, foi escalado desde novembro de 2005 e sua permanência na missão foi recentemente estendida por mais quatro meses. “Estou exaurida”. Nos próximos meses, ela, que tem três filhos pequenos, precisa obter um empréstimo, comprar uma casa e se mudar do apartamento em que moram.

Mesmo as diversas famílias de militares na ativa, acostumadas às dificuldades das missões, estão chocadas e confusas, já que os soldados são enviados seguidas vezes às zonas de guerra, com apenas um pequeno intervalo entre uma saída e outra. O contínuo medo de morrer ou se ferir, os problemas psicológicos, a ausência de um tempo de recuperação entre as missões e as mudanças à espera quando um soldado volta para casa pairam em cada família.

Ao contrário da era Vietnã, quando o contingente significava que muitas pessoas estavam diretamente atingidas pelo conflito, este período faz com que as famílias dos militares tenham um forte sentimento de isolamento do restante da sociedade. Não são muitos os norte-americanos que possuem uma conexão direta com a guerra ou com os militares. Apenas 1,4 milhão de pessoas, ou menos de 1% da população dos EUA, estão em serviço militar ativo.

“Antes do 11 de setembro, as preparações de tropas não tinham relação com o período de guerra”, afirmou Kristin Henderson, esposa de um militar cujo marido serviu como capelão da marinha no Iraque e Afeganistão, e que em seu recente livro “While They’re at War” (“enquanto eles estão na guerra”) explora o impacto das missões de hoje. “Havia problemas de separação, mas não havia o sofrimento por antecipação e medo e sobrecarga médica”.

É comum entre as esposas o uso de antidepressivos, disse Henderson, situação que se agrava com as repetidas missões. Quanto mais vezes eles são enviados de volta ao combate, menos tempo as famílias têm para se restabelecer até que o stress se instale novamente, acrescentou ela.

Henderson se recorda de um ataque de pânico que teve na igreja durante a ausência do marido e lembra-se de chorar no banho quase toda manhã para que ninguém a visse. “A falsa idéia bastante comum”, disse ela, “é de que quanto mais você passar por isso, mais fácil fica. Isso não é verdade”.

Alguns relacionamentos se fortalecem quando a distância e o sacrifício ajudam a se concentrar no que de fato é importante. Antes das partidas de Robert Johnson para o Iraque com a Guarda Nacional das Forças Armadas da Carolina do Norte, ele e a esposa, Dawn, enfrentavam decisões difíceis sobre como cuidar dos sete filhos, incluindo quatro que viviam com eles. Eles decidiram que os dois filhos gêmeos adolescentes com graves deficiências seriam mais bem cuidados em lugares diferentes, um em um lar, o outro com os avós.

Mas Dawn, 41, que trabalha em período integral em uma farmácia, disse que sentia que havia um lado positivo nessa provação. “Agora eu sei”, declarou, “que consigo sobreviver a qualquer coisa”. Outros casamentos, sobretudo casamentos jovens apressados pela guerra, poderiam já estar fadados ao fracasso desde o início.

Procurando Ajuda

À medida que a guerra se prolonga para o quarto ano, mais tropas e famílias estão buscando ajuda, procurando terapeutas de família e conselheiros. As Forças Armadas e a Marinha, em parte em resposta à elevação na quantidade de divórcios e aumento nos registros de violência doméstica, criaram programas para ajudar os casais a lidar com a situação, incluindo seminários e retiros familiares aos finais de semana. As Forças Armadas também aprimoraram os grupos de atendimento à família que muitas vezes são o único meio de contato das esposas.

Tensão Familiar

Os divórcios, que estavam na faixa de 2% a 3% nas Forças Armadas desde 2000, subiram em 2004 para 6% entre os oficiais e 3,6 entre o pessoal dos escalões mais inferiores. O índice para os oficiais caiu para 2,1% em 2006, mas o do pessoal sem patente de oficial manteve-se igual, a 3,6%.

As mulheres casadas estão sofrendo mais. O índice de divórcios das mulheres que fazem parte das Forças Armadas em 2006 foi de 7,9%, o mais alto desde 2000, comparado com 2,6% para os homens.

A demanda por aconselhamento familiar cresceu tão rapidamente entre as famílias de militares e soldados retornando do serviço que o exército começou a contratar mais serviços de terapeutas particulares. Os reservistas precisam contar com os serviços de voluntários.

“Durante algum tempo muitos soldados que retornavam não eram analisados porque havia uma sobrecarga enorme de pacientes e poucos psicólogos na base”, disse Carl Settles, psicólogo e coronel aposentado das Forças Armadas. O exército há pouco tempo o contatou para perguntar quanto das centenas de pacientes ele poderia tratar, contou o doutor Settles.

O cabo Callahan, que está à beira do divórcio, disse que seu casamento, o seu segundo, tinha problemas antes de sua partida para a guerra, mas tornou-se irrecuperável depois de sua ausência. Sua saída também o obrigou a transferir a guarda dos filhos temporariamente para os avós das crianças devido a problemas em casa, disse ele.

Seu ferimento, que o impede de andar, agora dificultou suas chances de permanecer nas Forças Armadas. “Senti que havia chegado ao fundo do poço”, disse ele. “Sentia tanta amargura. Tanta raiva. Passei tantas noites chorando e tentando pensar no que consigo e não consigo fazer”.

O capitão Lance Oliver, comandante do cabo Callahan no Iraque, disse que acompanhou de perto a situação pessoal do cabo Callahan, e embora a desintegração dos casamentos seja comum, disse o capitão Oliver, a do cabo Callahan foi a mais trágica. “Não consigo pensar em algum que tenha sido mais devastador”, disse ele.

Os Segredos dos cônjuges

Casos extraconjugais, nem um pouco raros em outras guerras, agora são também muito comuns. David Hernandez, que está nas Forças Armadas, baseado em Fort Hood, contou que o relacionamento de dez anos com a esposa se desintegrou entre a sua segunda e terceira missão. Ela estava confusa e solitária, disse ele, com dois filhos para criar; ele voltou mais melancólico, calado e mais distante. Agora sua esposa está vivendo com outro homem, contou Hernandez em mensagens de e-mail do Iraque. Ele, por sua vez, começou um relacionamento com uma mulher também militar, apesar de sua esperança de reconciliação.

“Foi muito estressante para ela ter de fazer tudo e se preocupar comigo”, disse ele, acrescentando, “Passei tanto tempo longe que isso nos distanciou e nos fez buscar outros relacionamentos”. “Agora estou de volta”, disse ele. “Eu me sinto desamparado. O que posso fazer? Fica um pouco mais fácil com alguém. A tentação foi o mais difícil e eu me entreguei”.

O doutor Settles atende cerca de 40 soldados por semana em sessões particulares e conta que a maioria dos soldados vão bem nas sessões. Mas os que enfrentam problemas os sentem mais profundamente. “Infidelidade e problemas financeiros são as principais queixas”, disse, acrescentando que há muitos casos de esposas que limpam a conta bancária do marido ou soldados que voltam para casa e entram num ciclo de gastos excessivos. “Até mesmo uma mula precisa se entregar às vontades de vez em quando”, disse ele. “Alguns desses rapazes estão vivendo meio que no limite”.

Alguns terapeutas dizem que estão preparados para os divórcios deste ano. Mary Coe, terapeuta de família e de casal que trabalha próximo ao Fort Campbell, uma base das Forças Armadas na fronteira entre Kentucky e Tennessee, disse que presencia “muitos, muitos divórcios” neste momento. A 101ª Divisão de transporte aéreo retornou recentemente de sua segundo missão com um nível alarmante de violência, disse ela. “Agora vemos casamentos de 15 a 20 que não conseguem sobreviver, e essas são famílias que já passaram por 20 anos de combates”, disse a doutora Coe.

Lei Steivers, cujo marido é um oficial sênior não-comissionado em Fort Campbell, é esposa de um militar há 25 anos. Mas a segunda viagem de combate do marido com duração de um ano para o Iraque enfraqueceu o casamento. Agora estão em terapia. Sendo a chefe da família na base, Lei, 46, tem ainda dois filhos militares. Ela disse que diversos homens que ela conhece retornaram no ano passado para descansar e relaxar e pedir o divórcio.

Muitas esposas, ela disse, culpam a presença de mulheres nas unidades de combate. A culpa pode estar colocada no lugar errado, mas a ansiedade não. “Eles estão juntos consertando um motor, as meninas moram no andar de cima e os rapazes no andar de baixo”, disse Lei. “Ficamos cada vez mais amedrontadas, e dizemos, ‘mas o que está acontecendo?’”.

Algumas esposas descobriram fotos pornográficas dos maridos em sites da web como o MySpace, disse ela, “Eu vi porque as esposas mostram as fotos para mim”. A doutora Coe disse que ficou surpresa pelo número de soldados que voltaram para casa e procuraram terapia para tratar de vícios relacionados ao sexo incentivados por pornografia em DVD e na internet.

Ainda que a pornografia seja bloqueada pelo exército dos EUA no Iraque, os integrantes do serviço obtêm acesso a esse tipo de conteúdo com os laptops por meio dos próprios provedores de serviços de internet, revelou o cabo Callahan.

Ao mesmo tempo, as esposas em casa às vezes conhecem outros homens pela internet. Quando o relacionamento extraconjugal vem à tona, às vezes a história acaba em violência, afirmou Robert Weiss, co-autor de “Untangling the Web” (“desembaraçando a rede”, em tradução livre), um livro sobre pornografia na internet, e contratado como consultor por grupos de famílias de militares em busca de orientação.

A família acima de tudo

Para algumas esposas, as preocupações sobre infidelidade ficam em segundo plano em relação às demandas de uma casa. O marido de Lillian Connolly há 21 anos, sargento da Reserva das Forças Armadas em Massachusetts que agora trabalha em obras em Lowe, foi enviado ao Iraque duas vezes. A primeira missão, em 2003, durou 11 anos.

A segunda, à qual foi como voluntário, foi muito mais penosa para a família. Mesmo antes da segunda missão do pai, o filho de 12 anos do casal começou a apresentar acessos de raiva. Quando o pai partiu em 2005, o garoto começou a ter mau comportamento na escola, contou Lillian. Ele e a irmã eram as únicas crianças com pai em combate, e a escola, segundo ela, não foi nem um pouco solidária. No mínimo, disse, ela ficou com a culpa.

“Ele se preocupava com pai diariamente”, contou Lillian. “Eles não entendiam que o menino tinha acessos de raiva porque o pai estava longe”. “Foi mais difícil e estressante lidar com isso do que com a própria ausência do meu marido”.

Mary Keller, diretora executiva da Military Child Education Coalition, um grupo privado sem fins lucrativos que ajuda crianças e escolas a lidar com essa situação, afirmou que dois milhões de crianças haviam passado por essa experiência. Mais abalados são aqueles que nas escolas ficam isolados da cultura militar. “É bastante provável que o professor não tenha uma experiência pessoal com os militares”, disse a doutora Keller.

Em casa, como relatam as esposas, elas tentam manter os filhos mais novos conectados aos pais em combate. A Sra. Jorgenson deixa os três filhos tirarem balinhas de uma tigela para marcar a passagem do tempo. Ela compra para eles presentes surpresa, como caixas de cereais ou lençóis em tecido de camuflagem. Enquanto isso, ela pensa, “Será que vou conseguir fazê-los tomar banho e colocá-los para dormir sem gritar e perder a paciência?”.

Os pais de soldados mais jovens costumam parecer os mais atormentados, segundo os psicólogos, sobretudo se forem contrários ao alistamento. Há também pouco que podem fazer.

“As mães ficam em condição mais difícil do que as esposas”, disse Jaine Darwin, psicanalista e co-diretora do Strategic Outreach to Families of All Reservists, um grupo de voluntários que oferece aconselhamento às famílias de militares em diversos estados. “A mãe não tem direito de chorar. E isso sem dúvida é um problema”.

Esther Gallagher, 50, que trabalha no departamento de aconselhamento de uma escola em Goodrich, Minnesota, tem dois filhos no Iraque. Ela se preocupa com ambos, mas sobretudo com o mais novo, Justin, 22, um atirador que já presenciou muita violência em Falluja. Ele se alistou na Guarda Nacional das Forças Armadas em Minnesota e passou a maior parte dos últimos três anos em combate; a última estadia em combate foi recentemente estendida, o que deixou sua mãe furiosa e abateu os soldados de sua unidade.

Quando o sargento Gallagher voltou para casa por duas semanas no ano passado, ele saía da sala todas as vezes que alguém mencionava o Iraque. “Todos os dias eles correm riscos”, disse Esther, com a voz embargada. “Sabe, é seu filho — ele está lá fora em perigo sem saber. A gente vive para proteger essas crianças”.

Fonte: G1