Por quem os sinos da catedral da Cidade do México dobraram no domingo passado? Para um grupo de militantes, as badaladas tinham o objetivo de atrapalhar a manifestação liderada pelo candidato à Presidência derrotado Manuel López Obrador e por isso eles resolveram invadir a igreja, derrubar bancos e gritar impropérios contra o arcebispo (“Norberto Rivera, o inferno te espera”) e contra o papa Bento 16.

A cúpula católica acusou o partido de Obrador, o PRD (Partido da Revolução Democrática), principal força da esquerda do México, de “terrorismo” e “sacrilégio”. Em reação, as portas da catedral foram fechadas no domingo pela primeira vez em 81 anos.

O templo, um dos mais emblemáticos do catolicismo latino-americano, só foi reaberto ontem, seis dias depois, depois de o prefeito da capital, Marcelo Ebrard, do PRD, dizer que a igreja não poderia fechar por ser “patrimônio do povo mexicano” e de intensas tratativas diplomáticas da ala moderada do partido. A prefeitura ofereceu instalar até um sistema de vigilância interna para o local.

O episódio foi só mais um capítulo da confrontação entre os perredistas e a cúpula católica e o desenrolar do episódio joga luz tanto nas divisões da sigla como no movimento da igreja de ganhar cada vez mais espaço no cenário político mexicano.

Os responsáveis pela catedral dizem que os sinos badalaram como sempre no último domingo. Já López Obrador condenou a invasão, mas afirmou que o dobrado foi uma clara provocação, mais alto e longo do que de costume.

“No episódio, foi o PRD que saiu perdendo”, diz o antropólogo e sociólogo mexicano Roger Bartra. Para ele, a imagem de militantes ligados ao partido na igreja, repetida inúmeras vezes na televisão, contribui para enfraquecer a sigla que obteve 34% dos votos nas eleições presidenciais de julho de 2006, quando Felipe Calderón venceu por 0,56% de diferença.

Ressentimentos

Da parte da igreja, diz Bartra, o episódio foi o que faltava para que a instituição expressasse “todo o ressentimento” com o PRD e com o governo da Cidade do México. “Não foi a primeira invasão. O fechamento da catedral foi para marcar posição.”

A cúpula católica do México -país onde 90% se declara fiel da religião- ainda digere a aprovação, em abril, da lei que descriminaliza o aborto até a 12ª semana de gravidez na capital (na época, bispos e até o papa Bento 16 ameaçaram de excomunhão os parlamentares que votaram a favor). A prefeitura aprovou ainda um modelo de união civil entre gays.

“A igreja protestou pela lei do aborto, mas não como queria porque o governo Calderón interveio para freá-la. Ao presidente não interessa essa polarização”, diz o antropólogo.

O porta-voz da Arquidiocese da Cidade do México, Hugo Valdemar, fez um paralelo histórico. Disse que o templo não era fechado desde a “Guerra Cristera” (1926-1929), conflito armado no pós-revolução mexicana que opôs Estado, que na Carta de 1917 havia aprovado várias leis restritivas à igreja, e grupos católicos.

A citação não é por acaso. A igreja faz agora mais uma ofensiva para mudar a atual Constituição mexicana, que abrandou as restrições de 17 em 1992 -quando o país retomou as relações com o Vaticano-, mas ainda mantém a proibição do ensino religioso nas escolas e veta a participação política dos clérigos. Uma reforma nesse sentido foi entregue ao Congresso pelo Colégio de Advogados Católicos em outubro.

Embora proibidos, os padres participam cada vez mais da vida política. Exemplo foi a atuação da ala esquerda católica -diminuta, se comparada a outros países da região- em Chiapas, nos anos 90. E parte da contenda com os “lopezobradistas” se deve à campanha de 2006, quando o arcebispo Norberto Rivera e outros clérigos insinuaram ou apoiaram abertamente Calderón.

Fonte: Folha de São Paulo