Apesar da política ateísta oficial de Cuba, atualmente as igrejas cubanas ficam tipicamente lotadas aos domingos, e cresce o número de fiéis da dominante Igreja Católica Apostólica Romana, assim como o dos membros de igrejas evangélicas.

Há 20 anos, quando o padre católico Ramón Suarez celebrava missas em uma pequena igreja na zona rural de Cuba, somente um punhado de paroquianos comparecia.

A política ateísta oficial de Cuba tinha muito a ver com o comparecimento reduzido. Da mesma forma, a intensa pressão social que fazia com que muita gente deixasse de participar de cultos religiosos por medo de se meter em encrencas ou de, no mínimo, ser denunciado às autoridades, mantinha os cubanos longe das igrejas.

Mas atualmente as igrejas cubanas ficam tipicamente lotadas aos domingos, e cresce o número de fiéis da dominante Igreja Católica Apostólica Romana, assim como o dos membros de igrejas protestantes/evangélicas.

Até mesmo a ‘santeria’, a religião afro-caribenha de Cuba criada pelos escravos por meio da mistura de crenças africanas com as dos seus senhores espanhóis católicos, passa por um processo de revitalização em Cuba.

Os líderes religiosos em Cuba dizem que mudanças drásticas registradas na última década restabeleceram firmemente a igreja como uma parte importante das vidas de muitos cubanos. Ao que parece a religião desempenhará um papel cada vez maior na sociedade cubana no futuro, à medida que o antigo líder Fidel Castro, com 80 anos de idade e enfermo, for abrindo espaço para uma nova geração.

“O papel da igreja em Cuba está aumentando diariamente, e as relações com o governo também estão melhorando dia a dia”, informa o reverendo Juan Ramon, pastor da Igreja Episcopal da Santíssima Trindade em Cuba.

O renascimento religioso de Cuba teve início no final da década de 1980, quando a antiga patrocinadora do regime da ilha, a União Soviética, sofreu mudanças e finalmente entrou em colapso. A perda de US$ 6 bilhões anuais em subsídios soviéticos paralisou a economia cubana e também levou a um questionamento do modelo soviético que, entre outras coisas, proibia a religião organizada.

Em 1994, o Partido Comunista de Cuba divulgou uma declaração afirmando que indivíduos praticantes de religiões poderiam ser membros do partido, uma medida que acabou com grande parte da pressão contra a participação dos cultos das igrejas.

Mas em uma nação que é predominantemente católica desde a sua fundação como colônia espanhola, o mais drástico catalisador do novo despertar espiritual foi a histórica vista do papa João Paulo 2º em 1998.

“Houve uma explosão de euforia entre a população”, afirma Suarez, que atualmente é um monsenhor e chanceler do Arcebispado de Havana. “Por toda a ilha presenciou-se um intenso fenômeno religioso. Antes disso, menos de um por cento da sociedade cubana era batizada, mas desde então esse número aumentou para 50% ou mais em certos locais”.

Ramon também presenciou o crescimento drástico do seu rebanho episcopal, que passou de cerca de uma dúzia de indivíduos na década de 1970 para os mais de 500 atuais, sendo que bem mais de cem comparecem às cerimônias religiosas na maioria dos domingos.

“A devoção religiosa e a espiritualidade jamais deixaram o povo”, diz ele. “Era inverno e tudo parecia estar morto, mas na verdade nada tinha morrido. As flores voltam e os pássaros cantam quando chega a primavera. E isso ocorreu em Cuba. Este é um bom momento para a igreja daqui”.

Mas embora a maioria dos cubanos não tenha mais medo de que o comparecimento à igreja signifique problemas, Cuba ainda é governada pelo Partido Comunista. A divergência é reprimida, e a maioria dos líderes religiosos toma cuidado para não cruzar a linha de separação entre um evangelho social centrado nas necessidades do povo e a arena política.

Embora a televisão estatal cubana tenha exibido imagens ao vivo dos funerais do papa João Paulo 2º e a seleção de um novo papa pelo Vaticano, os líderes católicos pressionam para que as suas atividades religiosas semanais sejam também transmitidas pela televisão.

“Até o momento não recebemos tal permissão, mas pouco a pouco estamos fazendo progressos”, afirma o padre Suarez.

Existem também fatos que alguns alegam serem exemplos de repressão direta.

No ano passado, o crítico aberto do governo e pastor evangélico Carlos Lamela passou um período na prisão sob a acusação de ter praticado contrabando humano. Lamela acabou sendo julgado e absolvido, mas os críticos dizem que o seu caso se constitui em um exemplo da pressão que o Estado cubano exerce sobre os pastores que mergulham muito no campo da política.

Recentes notícias da imprensa também citaram o fechamento de uma revista católica regional na cidade de Pinar del Rio, na região oeste da ilha. A revista publicava ocasionalmente artigos que criticavam o governo, e o seu editor, um leigo, teria sido demitido do seu emprego em uma empresa estatal.

Suarez diz que o problema da revista foi a falta de recursos, já que freqüentemente é difícil obter material para impressão em Cuba. Ele afirma ainda que o bispo de Pinar del Rio recentemente se aposentou, e o clérigo que o substituiu prefere uma abordagem menos política que aquela adotada pelo seu predecessor. Segundo Suarez, nenhuma autoridade católica ordenou ou pediu que a publicação da revista fosse cancelada.

As igrejas de Cuba também sentiram os efeitos do endurecimento do embargo dos Estados Unidos contra a ilha. Durante o governo Clinton, grupos religiosos, educacionais e culturais norte-americanos foram encorajados a visitar Cuba, e milhares de fato visitaram a ilha, muitas vezes trazendo suprimentos e ajudando a consertar igrejas em péssimo estado de conservação.

Essas visitas foram fortemente restritas durante o governo Bush, que endureceu o embargo em uma tentativa de pressionar mais o governo cubano.

Porém, em Cuba, os líderes religiosos afirmam que as mudanças nos últimos dez anos têm sido positivas.

“Contamos com 900 sacerdotes, e entre sete e dez pessoas me visitam diariamente buscando o meu auxílio”, afirma Juan Carreras, 72, um sacerdote de santeria em Havana. “Mesmo durante os anos difíceis, muita gente continuou procurando os sacerdotes da santeria de forma clandestina. Agora o acesso à religião foi novamente aberto, e o interesse vem aumentando”.

Fonte: Cox Newspapers