Depois de quatro meses do lançamento da campanha Som Sim, Barulho Não, de combate à poluição sonora, coordenada pelo Ministério Público de Pernambuco, a organização não governamental Disque-Denúncia recebeu 4.081 ligações entre 25 de janeiro e 14 de maio.

A assessoria de imprensa do Disque-Denúncia informou que foram mais de 30 telefonemas por dia, número aproximadamente seis vezes maior do que o registrado no mesmo período do ano passado.

O bairro de Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, que com um mês de campanha liderava as reclamações, permanece, após três meses, no topo do ranking seguido pelos bairros do Ibura, também na Zona Sul, e Casa Amarela, na Zona Norte da cidade.

De acordo com o mais novo levantamento, o barulho, em aproximadamente metade dos casos (47%), é proveniente de casas. Duas pessoas que ativaram o Disque-Denúncia para reclamar do som dos vizinhos ganharam recompensa em troca. A ONG oferece entre R$ 100 e R$ 2 mil para quem aponta um foco real de poluição sonora. Após a conclusão e resolução do caso, aquele que fez a queixa poderá ligar para o serviço e pedir o benefício.

Moradora do bairro de Boa Viagem, a advogada Maria Lenita de Gonçalves, 42 anos, já perdeu as contas de quantas vezes precisou acionar a polícia para baixar o som alto que vem da vizinhança.

“As pessoas perderam a noção de convívio. Precisam entender que moramos numa cidade com gente por todos os lados. Há crianças que precisam dormir, existem hospitais, idosos e ninguém liga para nada. É um absurdo completo. É cada um por si.”

Perto da casa dela, existe uma igreja evangélica. “Para mim, o inferno é lá. O barulho é ensurdecedor. O pastor grita no microfone e os fiéis respondem. Parece um estádio de futebol. Às vezes acho que o culto está aqui na minha sala. Deveriam fechar este templo. Independentemente de religião, quem faz barulho não respeita os outros e deve ser repreendido”, avalia o empresário Antônio Albuquerque de Sá, 58.

As estatísticas apontam que, depois das residências, o maior foco de barulho vem das carrocinhas de CD pirata (24%) e dos bares (18%). Igrejas e clubes somaram 2% das reclamações.

Em relação aos municípios, o Recife aparece como cidade mais barulhenta em mais da metade dos casos (57%). Jaboatão dos Guararapes (13%) e Olinda (12%), ambas na Região Metropolitana, figuram como segundo e terceiro lugar, respectivamente.

Abusos

O promotor de justiça e coordenador do Centro de Apoio Operacional às Promotorias (Caop) de Meio Ambiente, André Silvani, explicou que os abusos ainda são grandes. “Mas estamos ampliando o nosso foco de ação. Na eleição deste ano, por exemplo, queremos proibir a propaganda em carro de som. Estamos reunindo todos os partidos para chegarmos a um acordo.” Para ele há uma questão cultural muito forte. “Sabemos que não vamos ter resultados imediatos. A gente está tratando de uma questão cultural e isso não se resolve da noite para o dia”, avaliou.

Outro alvo de reclamação é o alerta sonoro emitido pelos portões dos condomínios. “Os apitos incomodam bastante. Imagine uma rua com vários prédios. É um barulho infernal”, diz a dona de casa Carmelita Moura, 61 anos, moradora da Avenida Beira Rio, no bairro da Madalena, Zona Oeste do Recife.

No entanto, o alarme é uma demanda dos deficientes visuais. “O alarme é muito importante. A gente sabe quando tem carro saindo. Também é muito bom para os idosos”, avaliou o presidente da Associação dos Cegos de Pernambuco, Antônio Muniz.

Alerta

O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) prevê a emissão de sinais sonoros de alerta na saída de garagens. O promotor de justiça André Silvani explica que o alerta sonoro dos portões é importante. “É um alerta importante, principalmente para pessoas que têm deficiências visuais. Pode ser que, às vezes, o sinal esteja fora dos padrões”, salientou. O principal caminho para a denúncia de poluição sonora é o telefone do Disque-Denúncia (3421-9595).

Fonte: JC online