A crise financeira que assola os Estados Unidos torna-se a cada dia mais violenta. Os chamados aos números dos samaritanos de Nova York aumentaram 16% no decorrer do último ano – e a maior parte dos casos refere-se a problemas de dinheiro.

Um administrador de investimentos californiano perde uma fortuna e, num ato desesperado, mata sua família e suicida-se a seguir. Em Ohio, uma viúva de 90 anos de idade tenta o suicídio com um tiro no peito ao perceber a chegada de oficiais de justiça com uma ordem para despejá-la de sua modesta casa.

Em Massachusetts, Carlene Balderrama escondia de seu marido a precária situação financeira em que se encontrava a família. Ela então enviou uma carta à empresa que financiava sua casa com a advertência: “Quando vocês emitirem uma ordem de despejo, eu já estarei morta”. Balderrama tirou a própria vida depois de matar seus três amados gatos e deixou uma apólice de seguros e uma nota de suicídio sobre a mesa.

A crise financeira que assola os Estados Unidos torna-se a cada dia mais violenta. Em alguns lugares, as linhas diretas de ajuda a pessoas com problemas estão congestionadas. Os serviços de aconselhamento psicológico também estão sobrecarregados. Ao mesmo tempo, os refúgios para mulheres vítimas de violência estão lotados.

“Muitas pessoas me dizem que isso as faz lembrar dos atentados de 11 de Setembro”, diz a pastora Ann Malonee, da Igreja da Trindade, a famosa “igreja negra” situada no coração de Wall Street. “Muitos têm a sensação de que alguém tirou o chão sob seus pés.” Um grande número de pessoas tem telefonado para as linhas diretas de prevenção de suicídios.

Os chamados aos números dos samaritanos de Nova York aumentaram 16% no decorrer do último ano – e a maior parte dos casos refere-se a problemas de dinheiro. Em Miami, a linha direta dos samaritanos registrou este ano mais de 500 chamadas relacionadas com a execução de ordens de despejo de mutuários que não conseguiram mais arcar com as prestações de suas casas. “Muitas pessoas nos disseram que perderam tudo, a casa, o emprego”, relata Virginia Cervasio, diretora de um centro de atenção a suicidas potenciais no sudoeste da Flórida.

Mas as tragédias continuam se acumulando. No início de outubro, em Los Angeles, um ex-gerente de investimentos matou a esposa, seus três filhos e a sogra antes de suicidar-se. Karthik Rajaram, de 45 anos, deixou um bilhete dizendo que estava com problemas financeiros e que, a princípio, pensara em suicidar-se. Mas depois decidiu matar antes toda sua família por considerar esta uma saída “mais honrosa”, informou a polícia. “Era uma autêntica família americana que acabou destruída aparentemente por um homem que afundou em desespero absoluto”, observou Michel Moore, subcomandante da polícia de Los Angeles.

No Tennessee, Pamela Ross, de 57 anos, suicidou-se há alguns dias, quando oficiais de justiça apareceram em sua casa com uma ordem de despejo. O caso foi ainda mais trágico porque naquele mesmo dia Pamela e o marido haviam conseguido na justiça dez dias adicionais para apelar da execução da hipoteca. Em Akron, no Estado americano de Ohio, uma viúva de 90 anos deu um tiro no próprio peito em 1º de outubro e agora recupera-se do ferimento.

O deputado contou a história de Addie Polk na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos antes da aprovação de um pacote de resgate do sistema financeiro estipulado em US$ 700 bilhões. A agência hipotecária Fannie Mae, cujos problemas financeiros a deixaram perto da quebra, cancelou a hipoteca da viúva e decidiu que ela pode morar para sempre na casa. Em março último Roland Gore matou sua esposa e seu cachorro em Ocala, na Flórida. Ele ainda incendiou a casa, alvo de uma execução imobiliária, antes de suicidar-se. O caso de Gore é um dos muitos nos quais pessoas mataram animais de estimação ou o cônjuge e destruíram o imóvel ou trocaram tiros com a polícia antes do suicídio. O doutor Edward Charlesworth, psicólogo clínico em Houston, observou que a atual crise financeira está causando angústia crônica no americano médio.

Fonte: Tribuna do Norte