A crise no Tibete assombra as celebrações de Páscoa no Vaticano, nesta sexta-feira. Durante as celebrações da Semana Santa, o papa Bento 16 fez poucas críticas ao conflito na tentativa de se aproximar da China e conseguir maior liberdade para a Igreja Católica no país.

Mesmo com uma atitude prudente em relação ao conflito, Bento 16 pediu, nesta quarta-feira, “diálogo e tolerância”.

A resposta de Pequim, no entanto, foi direta. “A chamada tolerância não pode existir para os criminosos, que devem ser punidos segundo a lei”, disse o porta-voz da chancelaria chinesa, Qin Gang.

Bento 16, que dá grande importância à Ásia em seu pontificado, decidiu há vários meses dedicar à igreja da China as meditações que serão lidas nas 14 estações do tradicional Via Crucis noturno no Coliseu de Roma.

Para isso, o Sumo Pontífice encarregou o cardeal de Hong Kong, o chinês Joseph Zen Ze-Kiun, de redigir os textos.

Desde os anos 60, os textos das meditações foram escritos por personalidades intelectuais, dentre eles o poeta italiano Mario Luzi, a monja protestante Minke de Vries e o cardeal da Nicarágua Miguel Obando e Bravo.

O cardeal Zen, conhecido defensor da liberdade religiosa, é referência para os católicos na China e faz a ponte entre as autoridades comunistas e a Santa Sé. Ele, contudo, não estará presente no Coliseu. “O papa tenta assim manifestar sua pessoal atenção para o continente asiático e envolver nesse rito de piedade cristã os fiéis da China”, escreveu Zen na introdução.

Em algumas passagens das meditações, divulgadas com antecedência pelo Vaticano, o cardeal se refere aos “mártires do século 21” e em particular as vítimas das “tenebrosas perseguições religiosas”.

Relações complicadas

O Vaticano e a China mantêm relações difíceis. A Santa Sé rompeu relações diplomáticas com o país em 1951, dois anos depois da vitória do comunismo e da instauração do ateísmo, que representou uma forte repressão contra os fiéis de toda religião.

Depois da morte do líder máximo Mao Tse-tung em 1976, o budismo, o islamismo e o cristianismo começaram a ser tolerados e alguns anos depois o Vaticano começou a buscar a aproximação com Pequim com o objetivo de reunificar a Igreja do país, dividida entre a “oficial”, reconhecida pelo governo, e a clandestina, fiel ao papa.

Segundo dados do Vaticano, existem entre 8 e 12 milhões de católicos na China. As estimativas do governo de Pequim calculam que são cinco milhões de católicos e 70 bispos. Uma minoria, entre os 1,3 bilhões de habitantes.

Fonte: Folha Online