Os cristãos iraquianos, reduzidos a menos da metade nos últimos anos, temem mais do que qualquer outro grupo um ataque turco no Curdistão, pois já não lhes resta lugar para onde correr, após terem se refugiado em diversas regiões para fugir da violência.

Segundo o bispo Mer Patros, máxima autoridade dos cristãos caldeus (católicos) no Curdistão, restam hoje no Iraque “pouco mais de 600 mil cristãos”, dos quais 250 mil vivem no Curdistão. Nos tempos de Saddam Hussein, o número de cristãos no Iraque chegou a 2 milhões.

“Os cristãos são alvo de uma autêntica perseguição no Iraque, e só aqui, no Curdistão, encontramos a paz”, diz Dohuk, que reconhece o trabalho que o governo autônomo do Curdistão está fazendo para ajudar o grupo.

“Por causa da ocupação americana do país, nos consideraram cúmplices, por sermos cristãos como eles. Sofremos com os muçulmanos fanáticos, que querem limpar o Iraque e o Oriente Médio de cristãos”, lamenta. Após a queda de Saddam Hussein, os cristãos iraquianos começaram a sofrer ataques e atentados em suas igrejas que lhes forçaram a emigrar em direção a países vizinhos ou até mesmo à Europa. Dos quarenta sacerdotes caldeus que havia em Bagdá, hoje só restam 17.

Mas muitos cristãos mais pobres, que não puderam emigrar, se transferiram para as montanhas curdas das quais haviam saído por causa das guerras curdas ou dos ataques da Turquia. Estes cristãos curdos voltaram a seus povoados, reconstruídos graças ao governo autônomo curdo, e reocuparam aldeias inteiras em uma faixa próxima à fronteira com a Turquia.

“Estas casas nos foram dadas pelo governo autônomo do Curdistão, após sermos obrigados a fugir de Bagdá pelos incessantes ataques dos fanáticos muçulmanos”, disse o professor Abu Yeryes, pai de quatro filhos e morador da aldeia curda de Shiranish.

Segundo Yeryes, como todos os seus vizinhos, ele recebe ainda um salário mensal do governo autônomo, com o qual se prepara para passar o rigoroso inverno da região. “Maldita guerra. Rezo para que não cheguem os ataques dos turcos, pois simplesmente já não temos para onde ir, pois perdemos tudo”, se lamenta.

O povoado de Shiranish se esvaziou em meados dos anos 80, por culpa dos enfrentamentos entre os próprios partidos curdos, e seus habitantes povoaram bairros inteiros de Mossul e de Bagdá. Apesar das dificuldades e da possibilidade de perder o pouco que lhe resta, Abu Yeryes não culpa o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), “gente que luta por seus próprios direitos”.

“Esta pobre gente já esgotou todas as possibilidades. Só lhes resta lutar”, afirma. “Aqui há quem queira exterminar o cristianismo oriental, e mesmo os muçulmanos decentes não fazem nada para nos defender. Isto é uma guerra, o amigo de hoje pode te dar as costas e se transformar em inimigo amanhã”, lamenta por sua vez o bispo Patros, que critica a ocupação americana e afirma que há treze igrejas protestantes que se estabeleceram nos últimos anos em Bagdá, supostamente protegidas pelos EUA. “Curiosamente, todas vivem em paz. Nada lhes ocorreu, enquanto nós estamos sendo massacrados”, denunciou.

Fonte: EFE