Dezenas de milhares de cristãos libaneses participaram ontem de uma manifestação no norte de Beirute, numa demonstração de força apenas dois dias depois que o grupo muçulmano xiita Hezbollah reuniu 500 mil pessoas para proclamar o que definiu como a ‘vitória divina’ em sua a guerra de 34 dias contra Israel em julho e agosto.

A manifestação dos cristãos indica que as divisões sectárias e políticas que alimentaram a guerra civil libanesa, entre 1975 e 1990, estão voltando a se aprofundar agora, diante da delicada situação que o Líbano está vivendo por causa do conflito entre o Hezbollah e Israel.

Antes de seguir para Beirute, os manifestantes participaram de uma missa na localidade de Harissa, realizada anualmente para homenagear 5 mil ‘mártires cristãos’ que morreram por ‘defender um Líbano livre, independente e soberano’ na guerra civil.

A figura de maior destaque do evento foi Samir Geagea, líder da antiga milícia cristã Força Libanesa (FL) – hoje um partido político da coalizão de governo favorável ao Ocidente, que detém uma estreita maioria no Parlamento libanês.

Em seu discurso, Geagea, que foi anistiado no ano passado depois de mais de 10 anos de prisão por assassinatos cometidos durante a guerra civil, atacou o Hezbollah por criar um ‘Estado dentro do Estado’ no sul do Líbano e reiterou seu apoio ao governo do primeiro-ministro Fuad Siniora.

Durante a manifestação de sexta-feira, o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, qualificou o governo de Siniora como ‘fraco e incapaz de defender o Líbano dos ataques de Israel’, propondo, em seguida, a formação de um novo governo.

A meta de Nasrallah é ter maior representação para seu grupo (que hoje tem dois ministros) e o do general cristão Michel Aun. Ao contrário das FL e do restante do gabinete, ambos são aliados da Síria – país que por quase três décadas manteve tropas de ocupação no Líbano.

Geagea não só descartou a proposta de Nasrallah para uma ampliação da coalizão de governo, como acusou o Hezbollah de desestabilizar politicamente o país. ‘Como podemos estabelecer um Estado forte se todos os dias armamento e munição são contrabandeados para o Hezbollah debaixo do nariz (do governo)?’, questionou o líder das FL.

Para Geagea, só depois de ‘encontrada a solução para a questão das armas’ do Hezbollah, será possível estabelecer um Estado libanês ‘da forma que ele deveria ser’.

O Hezbollah se recusa a depor as armas e, de acordo com Nasrallah, ainda possui 20 mil foguetes, uma quantidade cinco vezes maior que a lançada contra Israel durante a guerra de julho e agosto.

Os militantes do grupo têm amplo apoio dos xiitas, que representam 35% dos 4 milhões de libaneses. Os cristãos e sunitas, formam, respectivamente 35% e 25% da população e se ressentem pelo fato de o Hezbollah ter provocado a recente guerra – desencadeada pela captura de dois soldados israelenses pelo grupo.

‘Não me sinto vitorioso porque a maior parte dos libaneses não se sente vitoriosa – sente que uma grande catástrofe caiu sobre ela’, afirmou Geagea, numa resposta direta ao Hezbollah, que clamou vitória no conflito contra os israelenses.

A guerra matou mais de mil libaneses e causou prejuízos de pelo menos US$ 6,5 bilhões para o país, segundo o governo libanês.

Ajuda americana

O presidente dos EUA, George W. Bush, anunciou sábado o envio de uma delegação ao Líbano para discutir com o governo de Siniora como os americanos podem contribuir para a reconstrução do país. Além de representantes da Casa Branca, a delegação americana incluirá empresários, como o presidente da Cisco, John Chambers, e o principal executivo da Occidental Petroleum, Ray Irani.

Fonte: Estadão