A principal interlocutora do governo cubano com as igrejas, Caridad Diego Bello, chefe do Escritório de Atenção aos Assuntos Religiosos do Comitê Central do Partido Comunista, afirma que as relações Igreja-Estado vivem um bom momento em Cuba.

É o resultado de um processo que, segundo ela, vem melhorando desde os anos 1980, após o período de conflitos e dificuldades que se seguiu à Revolução de 1959.

No dia 11 de julho, Caridad Diego, há 14 anos no cargo, participou de uma reunião com a cúpula do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), em Havana, para conversar sobre problemas e projetos comuns.

Os bispos perguntaram sobre a saúde de Fidel Castro. Sua resposta: Fidel é um símbolo para todos os cubanos e ficará como exemplo por suas virtudes e pelo que fez. “Aqui há um partido, organização política e muitos companheiros que podem dar continuidade a essa obra, em todos os setores da Revolução”, acrescentou Caridad Diego ao Estado, cinco dias depois.

A seguir, os principais trechos de sua entrevista:

Como estão as relações do governo com a Igreja Católica e outras religiões?

Estamos num bom momento, melhorando as relações com todas as organizações religiosas em Cuba. Nós nos reunimos sistematicamente com os principais líderes e representantes das igrejas, instituições religiosas e associações fraternas. Nós nos comunicamos, vamos às suas atividades quando temos a oportunidade e eles nos visitam, vêm aqui para tratar de assuntos do cotidiano. Vivemos um momento favorável.

Desde quando? Nos primeiros anos da Revolução, houve muitas dificuldades.

É o resultado de um processo de muitos anos. Os anos mais complicados nas relações com as instituições religiosas foram os anos da Revolução. Nossa Revolução foi profunda e gerou uma série de mudanças importantes do ponto de vista político e social. Alguns membros da hierarquia e das direções de instituições religiosas não conseguiram entender essa mudança. Muitos abandonaram o país, inclusive membros da hierarquia que não eram cubanos. Em alguns casos, eram protestantes, missionários norte-americanos.

A visita do papa João Paulo II, em 1998, contribuiu para a mudança nas relações Igreja-Estado?

Se essas relações não estivessem melhorando antes, não teria sido possível a visita do papa. De fato, a visita foi um passo importante para o trabalho da Igreja em Cuba. Depois da visita do papa, as relações foram se solidificando. Muitas pessoas acham que isso se deve unicamente à visita do papa, mas foi um processo. Houve outros fatores. A década de 1980 foi importante para as relações com as instituições religiosas. Houve uma entrevista feita pelo dominicano Frei Betto com o comandante-em-chefe e companheiro Fidel, muito divulgada (no livro Fidel e a Religião) que esboçou o pensamento de Fidel sobre esse tema. Houve também uma visita a Cuba de Jesse Jackson, um pastor batista norte-americano. Em 1990, Fidel se reuniu com líderes de igrejas evangélicas e protestantes e também da religião judaica em Cuba.

Houve também um encontro de Fidel com o papa João Paulo II, no Vaticano.

Sim, em 1996, portanto antes da visita do papa. Em novembro de 1996, Fidel assistiu a uma conferência da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) na Itália e visitou o papa João Paulo II. Essa visita serviu para ratificar o convite que os bispos haviam feito a João Paulo II para nos visitar. Em janeiro de 1997, veio uma delegação presidida pelo cardeal (Camillo) Ruíni, vigário do papa para Roma. Decidiu-se então que a visita seria realizada em um ano. Estão se completando quase dez anos da visita de João Paulo II a Cuba. Esteve aqui de 21 a 25 de janeiro de 1998.

Quais foram os resultados práticos desses encontros?

Tudo isso contribuiu para se chegar a 1991. No 4.º Congresso do Partido Comunista, se debateu e se aprovou a possibilidade de eliminar de seus estatutos qualquer interpretação que impedisse que um revolucionário de vanguarda se apresentasse para ser admitido no partido. Recomendou-se à Assembléia Nacional do Poder Popular, o parlamento, que se fizessem modificações em nossa Constituição, para determinados setores, não apenas nas relações Igreja-Estado. No ano de 1992, se aprovaram essas modificações. Passamos a ser, de um Estado ateu ou considerado ateu, a um Estado laico, um Estado em que todas as igrejas, todas as instituições, têm direito igual perante o Estado cubano. O Estado reconhece, respeita e garante a liberdade religiosa no país.

Na reunião dos bispos com o governo, falou-se sobre a saúde de Fidel Castro?

Alguns (bispos) perguntaram como ele estava. Alguém perguntou quando ele vai voltar. Respondi que já voltou, porque está fazendo reflexões, dá orientações, indicações… Fidel está presente até fisicamente. Mesmo que Fidel não esteja (presente), para nós, cubanos, sempre estará, porque permaneceram suas idéias, sua obra, as formas de nos educar. Fidel é um símbolo para todos os cubanos, pelo que representou, pelo que foi em Cuba, um homem excepcional. Mas aqui há um partido, há organização política de liderança, aqui há estrutura social, há um parlamento, aqui há muitos companheiros que podem dar continuidade a essa obra em todos os setores da Revolução. Ele (Fidel) ficará como exemplo por suas virtudes, por tudo aquilo que fez. O futuro será conseqüente com a vida de Fidel.

Fidel declarou, ao denunciar uma suposta conspiração de Bush para assassiná-lo, que “o bom Deus” o salvou. Não é uma referência surpreendente?

Teria de se perguntar a ele, que fez a reflexão. Não gostaria de opinar sobre o que não estou autorizada. Eu lembraria que Bush em seus discursos utilizou, em várias ocasiões, referências a Deus. Falou que Deus lhe disse que invadisse o Afeganistão e o Iraque. Depois, vieram à luz pública todos os documentos liberados pela CIA ou um número expressivo de documentos liberados pelo governo norte-americano sobre ações que a CIA havia feito contra Fidel, com numerosos atentados. Por isso, Fidel disse que teve sorte de poder escapar, de sair com vida desses atentados. E então disse “parece que esse bom Deus me protegeu”. Não é o Deus ao qual Bush se refere, um Deus que manda bombardear e atacar os povos, mas o “bom Deus”.

Na missa de encerramento da assembléia dos bispos do Celam, no dia 13 de julho, a senhora deu o abraço da paz a bispos cubanos e estrangeiros. A senhora tem formação cristã?

Não, não tenho. O abraço da paz, que se dá na missa e também nos cultos, é a única ação de que participamos. As pessoas vêm nos oferecer a paz do Senhor, a paz de Cristo, como dizem. Não somos crentes, mas respeitamos e agradecemos, porque somos a favor da paz mundial, da paz para todos os seres humanos no mundo. Não vemos nenhuma contradição.

A Igreja quer fazer catequese. Até que ponto isso seria possível?

Falou-se muito que não há liberdade religiosa em Cuba. É importante que os brasileiros saibam que em Cuba todas as igrejas nomeiam seu pessoal e o transferem de acordo com seus interesses. Todas as instituições religiosas são donas de seus imóveis. E também preparam seu pessoal. A Igreja Católica faz catequese nos templos e também em centros de casa de missão. As igrejas protestantes têm escolas dominicais. Católicos e protestantes mandam seu pessoal para estudar no exterior, para terminar sua formação ou para fazer mestrado ou doutorado.

A Igreja não pede a devolução de escolas?

A Constituição diz que o Estado é que tem o dever de garantir a educação de todo o povo. Foi uma conquista da Revolução em 1959. Havia em Cuba educação pública e educação privada. Nacionalizou-se toda a educação privada. Não unicamente a religiosa, toda a educação privada. Temos escolas para todos. Em um ano, eliminamos o analfabetismo em Cuba e hoje apoiamos muitos países da América Latina. Na reunião com os bispos, falou-se dos programas de colaboração em saúde e de educação.

Fonte: Estadão