Líderes da comunidade judaica italiana apontaram ontem que as recentes declarações de membros da Igreja Católica, que fizeram algum tipo de alusão à comunidade judaica, poderiam prejudicar o diálogo interreligioso.

“Algumas comparações inadequadas e inoportunas, que preocupam ainda mais por terem vindo de expoentes da Igreja Católica, correm o risco de criar perigosos e enganosos paralelos históricos”, comentou o presidente da União das Comunidades Judaicas Italianas (Ucei), Renzo Gattegna.

Segundo Gattegna, toda a comunidade judaica, e não somente a italiana, espera que “o complexo diálogo com o mundo católico” continue no âmbito cultual, religioso e político, e se desenvolva “em um clima de colaboração e confronto construtivo, mas que certas declarações podem deixar mais difícil”.

O presidente da Ucei ressaltou, no entanto, que “a posição tradicional do judaísmo italiano em suas relações com as outras religiões permanece no recíproco respeito e dignidade, acompanhada pelo empenho de não intervir e interferir nas questões internas”.

Gattegna esclareceu ainda que os representantes de outras religiões não devem intervir nos acontecimentos, ao afirmar que os “eventuais silêncios das hierarquias eclesiásticas sobre comportamentos de representantes do clero são um problema interno no mundo católico”, sendo que a solução não deve envolver, “de nenhum modo, o mundo judeu, nem os organismos que o representam na Itália”.

Na última semana, durante um sermão na Basílica de São Pedro, o padre Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia, comentou que “por uma rara coincidência, neste ano nossa Páscoa cai na mesma semana da Páscoa hebraica” e “isto nos leva a pensar nos irmãos judeus que sabem, por experiência, o que significa ser vítima da violência coletiva e que, por isto, sabem reconhecer os sintomas”.

Para Tullia Zevi, ex-presidente da Comunidade Judaica Italiana, não apenas a declaração de Cantalamessa, mas também a do decano dos cardeais, Angelo Sodano, é prejudicial às relações entre os cristãos e judeus.

Em entrevista ao jornal vaticano L’Osservatore Romano publicada ontem, Sodano declarou que “as falhas e os erros dos sacerdotes estão sendo usados como armas contra a Igreja”.

“Agora, contra a Igreja, há as acusações da pederastia. Antes, havia batalhas do modernismo contra Pio X, depois a ofensiva contra Pio XII por seu comportamento durante o último conflito mundial [Segunda Guerra Mundial], e por último contra Paulo VI, pela encíclica Humanae Vitae [1968]”, recordou o religioso.

O pontificado de Pio XII (1939-1958) é justamente o tema mais espinhoso das discussões com os judeus. Setores da comunidade judaica o acusam de ter se omitido diante do Holocausto e pedem a abertura dos arquivos secretos do Vaticano do período. A Santa Sé, por sua vez, argumenta que o então pontífice agiu em silêncio.

Zevi contou ter ficado “perplexa” com tais pronunciamentos. Ao jornal Corriere della Sera, ela destacou que “são histórias diversas, figuras, planos diversos. E há também razões diversas por trás daquilo que está acontecendo hoje”.

Segundo a ex-presidente, a pedofilia “é uma consequência da castidade”. “O celibato é uma coisa contra a natureza. Quando a Igreja entenderá isso?”, questionou.

A Igreja Católica vem enfrentando nos últimos uma série de denúncias de supostos casos de pedofilia em vários países, como Estados Unidos, França, Suíça, Irlanda, Alemanha, Espanha, México, Itália, Áustria, Holanda, entre outros.

Nesta manhã, o Vaticano confirmou a informação de que o religioso Georg Mueller, de Trondheim, na Noruega, abusou sexualmente de um menor no início dos anos 1990.

Fonte: Ansa