Depois de andar as turras e querer castigar pastores de sua Igreja que se colocarem contra a homossexualidade, o deputado estadual Valter Araújo (PTB – RO), voltou atrás e disse que a “Lei da Homofobia” (PCL 122/2006), que criminaliza o preconceito contra homossexuais, bi-sexuais e transgêneros, e que está em tramitação no Senado, é um “sinal” de que estão chegando os tempos do “Juízo Final” previstos pela Bíblia.

O parlamentar explicou que as tais “forças malignas” que estão por trás do “famigerado” projeto da Lei da Homofobia, são o pecado e as possessões demoníacas que tornam os homens homosexuais e citou este fato como justificativa para a realizçaão de uma uma audiência pública da Assembléia Legislativa.

“A Bíblia prega que no final dos tempos isso iria mesmo acontecer” – acrescentou o parlamentar, que é membro da bancada evangélica no Poder Legislativo. Convoquei a audiência pública “para congregar esforços contra as forças malignas que se colocam contra o famigerado projeto de lei”.

O projeto da “Lei da Homofobia” a que se refere Araújo, é de autoria da Deputada Iara Bernardes (PT-SP), aprovado no ano passado na Câmara dos Deputados e, recentemente, teve parecer favorável de sua relatora no senado, a senadora Fátima Cleide (PT-RO.)

Os evangélicos dizem que, segundo a Bíblia, “homossexualismo é um desvio do projeto original de Deus”, é decorrência “do Pecado Original”, e que “a sua inclinação é uma tentação e a sua prática um pecado.”

Exegetas (estudiosos das Escrituras Sagradas) cristãos no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa, dizem que Jesus Cristo nunca se manifestou contra o homossexualismo. E que são falsas as téses evangélicas de que a “heterossexualidade é normativa” e que “não devem ser abençoadas as uniões entre pessoas do mesmo sexo” porque são contrárias à pregação do amor sem preconceitos entre os seres humanos feitas por Cristo.

A audiência pública requerida por Valter Araújo, embora seja de caráter mais religioso do que civil, deverá causar alguns dos maiores debates na Casa de Leis de Rondônia – entre fundamentalistas religiosos, ativistas gays e defensores dos Direitos Humanos – mantendo a tradição do parlamento rondoniense de grande fórum das causas populares.

Por outro lado, algumas posições evangélicas são vistas como contraditórias – e os exegetas alertam sobre as multiplicas e contraditórias leituras que costumam fazer da Bíblia, principalmente pelos fundamentalistas que interpretam os textos “ao pé da letra.”.

Por exemplo, de um lado, quando os evangélicos se opõem à lei que criminaliza a discriminação sexual, eles pregam desobediência civil ao dizerem que “o apóstolo Pedro, no Livro dos Atos dos Apóstolos, nos chama a atenção que devemos antes obedecer a Deus do que aos homens.”
Já os defensores da lei que criminaliza a homofobia lembram que não há, na Bíblia, nenhuma só vez as palavras homossexual, lésbica ou homossexualidade. Dessa forma, as Bíblias que empregam estas expressões estão erradas e mal traduzidas.

A prova é a de que a palavra homossexual só foi criada em 1869, reunindo duas raízes lingüísticas: homo (do grego, significando “igual”) e sexual (do latim). Portanto, como a Bíblia foi escrita entre 2 e 4 mil anos atrás, não poderiam os escritores sagrados terem usado uma palavra inventada só no século passado.

Pesquisadores da sexualidade humana dizem que a prática do amor entre pessoas do mesmo gênero é muito mais antiga que a própria Bíblia.

Segundo eles, documentos egípcios de 500 anos antes de Abraão, revelam práticas homossexuais não somente entre os homens, mas também entre os Deuses Horus e Seth. O poeta e escritor Goethe dizia que “a homossexualidade é tão antiga quanto a humanidade”.

Outros textos sobre a sexualidade explicam que no antigo Oriente, a homossexualidade foi muito praticada. Entre os Hititas, povo vizinho e inimigo de Israel, havia mesmo uma lei autorizando o casamento entre homens (1.400 anos antes de Cristo).

“Como explicar, então, que, entre as abominações do Levítico, apareça esta condenação: “O homem que dormir com outro homem como se fosse mulher, comete uma abominação, ambos serão réus de morte” (Levítico, 18:22 e 20:12).

Os exegetas dizem que fazia parte da tradição de inúmeras religiões de localidades circunvizinhas a Israel, a prática de rituais religiosos homoeróticos, de modo que esta condenação do Levítico visava fundamentalmente afastar a ameaça daqueles rituais idolátricos e não a homossexualidade em si.

Uma prova é a de que estes versículos condenam apenas a homossexualidade masculina e não se refere à feminina.

Outro estudioso religioso diz que “considerando que, do imenso número de leis do Pentateuco, apenas duas vezes há suposta referência à homossexualidade (e só à masculina)”, conclui-se que os “a supervalorização que alguns judeus e cristãos mais fundamentalistas (que querem interpretar as Escrituras ao pé da letra) conferem a este versículos é sintoma claro e evidente da intolerância machista que permeia as sociedades regidas pela tradição abraâmica.”

Isto, na opinião de um desses estudiosos, “é um entulho histórico a ser desprezado, e não um desígnio eterno de Javé”, “do mesmo modo que inúmeras outras abominações do Levítico, como os tabus alimentares (por exemplo, comer carne de porco ou camarão) e os tabus relativos ao esperma e ao sangue menstrual, hoje foram completamente abandonadas e esquecidas.”

E faz-se a pergunta: por que católicos e protestantes conservam somente a condenação da homossexualidade, enquanto abandonaram dezenas de outras proibições decretadas pelo mesmo Senhor?” .

Fonte: Rondonoticias