O que era para ser um debate no plenário do Senado sobre a transposição do Rio São Francisco, com a presença de ministros, parlamentares, cientistas, representantes da Igreja Católica e os atores Osmar Prado, Carlos Vereza e Letícia Sabatella, virou uma guerra verbal entre o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) e d. Luiz Flávio Cappio, bispo de Barra (BA).

D. Cappio chamou o projeto de “propaganda enganosa” e de ser mais um exemplo em que “o pobre vai colocar a mesa para o rico”, referindo-se à idéia de que a população pobre pagará a conta da água do São Francisco que será posta a serviço da “agricultura irrigada, criação de camarão e usos industriais”. Ciro reagiu e acusou-o se comportar como se tivesse o “monopólio da boa fé”.

Para o deputado do PSB do CE, d. Cappio integra uma espécie de rede de “falsa denunciação”, que distorce os objetivos da proposta de transposição. A falsa denunciação acusa o governo, segundo Ciro, de mover-se pelo interesse “subalterno, clandestino, não confessado e safado de atender ao grande negócio e às empreiteiras e coisas que tal”.

Irritado com a postura do bispo de Barra, que por duas vezes fez greve de fome em protesto contra a tentativa de transposição da bacia, Ciro disse que não admite que ele se considere “intérprete superior do valor moral e ponha, por exemplo, o modesto militante de 30 anos na vida publica” como alguém que se movimenta numa oposição antagônica por interesses subalternos. “Eu não sou movido por interesses subalternos. Eu estou aqui, equivocadamente ou não, movido pelo mais superior interesse público”, discursou.

Exaltado, cobrou atitude de d. Cappio. “Eu não falo por Deus. Eu falo pelo mundanismo dos pecadores, como sou um deles. Olhe para mim, d. Cappio (que olha).” O bispo, que falou antes do deputado do PSB, não se dirigiu, diretamente, a ele uma única vez. Mas não poupou críticas à administração federal e à obra. Destacando que falava em nome do “povo do rio São Francisco”, “nações indígenas, quilombolas, brasileiros e brasileiras que se preocupam com a vida”, d. Cappio chamou o projeto de transposição do Rio São Francisco de “propaganda enganosa” e disse que a proposta viola os direitos das populações tradicionais, como os 34 povos indígenas, as 156 comunidades quilombolas e os sem número de populações ribeirinhas da região.

Diálogo

“Um projeto dessa magnitude exige diálogo com a sociedade e o governo nunca dialogou com a sociedade”, atacou. Para o bispo, o Poder Executivo tem por hábito classificar de “egoístas, mentirosos, desinformados e opositores políticos” os que discordam da proposta. Nenhum posicionamento contrário, disse, é respeitado.

Fonte: Agência Estado