Numa disputa sem precedentes na história, a religião domina o duelo entre os evangélicos Barack Obama e John McCain pela Presidência dos Estados Unidos e mostra toda sua força no mundo globalizado. Na política norte-americana, quem não disputa o voto religioso está perdido. Lá, a Igreja Católica é a maior denominação religiosa com 23,9% da população adulta, mas os protestantes representam outros 51,3%, que equivalem a um universo com 55 milhões de votantes.

No dia 26 de outubro de 1967, quando tinha apenas 31 anos e executava a sua 23ª missão, John Sidney McCain III teve seu avião A-4 Skyhawk alvejado pela artilharia anti-aérea em Hanói, capital do Vietnã. Ele conseguiu fazer um pouso forçado no lado Truc Bach, mas feriu-se gravemente nas pernas e em um dos braços. Capturado, foi espancado e preso em uma cela de dois metros por dois metros, em total isolamento. Durante cinco anos foi interrogado quase diariamente. Mas como não deu informações a seus captores nem confessou ter cometido crimes de guerra, enfrentou pesadas sessões de tortura, nas quais teve o braço esquerdo e diversas costelas quebradas. McCain suportou tudo isso. E quando voltou aos Estados Unidos, ainda amparado por muletas, foi recebido na Casa Branca pelo então presidente Richard Nixon como um herói de guerra. Hoje, aos 71 anos e candidato republicano à Presidência do país, ele não tem dúvidas: foi Deus quem o livrou. Por isso, diz ser “cristão”, mas não um “cristão evangélico”, apesar de ser batista. Um crente que vai à igreja, mas “não tanto quanto deveria”. Quando vai, seus assessores logo tratam de anunciar, afinal, a foto não pode ser desperdiçada.

Seu adversário, o democrata Barack Hussein Obama, 47 anos, tem uma história de vida completamente diferente. Filho de um economista queniano negro e uma antropóloga norte-americana branca, cresceu em um verdadeiro caldeirão de culturas e religiões. Nasceu no Havaí, mas passou parte de sua infância na Indonésia e teve contato direto com o Islamismo. Entretanto, já adulto, mudou-se para os Estados Unidos e estudou Ciências Políticas e Direito, além de dedicar-se a causas sociais. Obama também é considerado um herói, mas de outro tipo. É o único senador negro dos EUA e, no dia 4 de junho de 2008, viveu um momento histórico, sendo apontado como o primeiro negro a concorrer ao posto mais importante da nação. Isso, depois de 389 anos do desembarque da primeira leva de escravos africanos na América inglesa, 232 anos de vida independente e democrática da nação e menos de 50 desde que foi abolido o vergonhoso regime de segregação racial, que durou mais um século e que impedia que pessoas de cor morassem nos mesmos bairros, usassem os mesmos banheiros públicos e até sentassem junto dos brancos. O segredo para vencer tantas dificuldades e preconceitos? Deus, claro. Considerado um praticante de sua fé, ele ora todos os dias, lê as Escrituras e, junto com toda a família, agradece ao Senhor pelas refeições.

Esse traço comum entre McCain e Obama foi revelado nos últimos meses de campanha, mas certamente não se trata de mera coincidência. País mais rico e poderoso do mundo, também um dos mais desenvolvidos e modernos, é considerado berço de teorias científicas, inúmeras doutrinas e filosofias e um dos maiores expoentes do secularismo e do materialismo que invadiram o Ocidente nos últimos anos. Porém, em nenhuma outra eleição de sua história a religião teve tamanha importância. Não se passam mais do que alguns dias sem que a fé, ou algum assunto correlato, dê o ar da graça no debate eleitoral. Enquanto na Europa menos da metade da população acredita em Deus e no Japão todos os dias são fechados templos budistas – foram mais 600 só nessa década –, nos Estados Unidos Deus não apenas está mais vivo do que nunca, como também deve ditar os rumos da nação. Pesquisa do Pew Forum on Religion & Public Life mostra que quase 90% dos norte-americanos acreditam em Deus e que mais de 70% vão freqüentemente á igreja. Lá, é possível imaginar um negro ou uma mulher na Casa Branca, mas não um ateu. Diante disso, não é de admirar que assuntos como política externa, recessão econômica e papel do Estado na saúde e na educação dêem cada vez mais lugar a discussões como aborto, casamento homossexual, pesquisas com células-tronco e a Guerra contra o terrorismo.

Mobilização evangélica

“A realidade que vemos nos Estados Unidos – e em partes no Brasil – é muito diferente da Europa. Tony Blair, quando ainda era primeiro-ministro britânico, quis enfatizar mais a importância de Deus na nação, mas isso pegou muito mal e ele foi aconselhado a não falar nada mais. Já nos EUA, o político se sente obrigado a frisar sua missão divina, falar frases com ressonância bíblica. É uma cultura que vem de longe e ganhou mais força depois dos ataques de 11 de setembro de 2001”, explica Paul Freston, professor da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) e pesquisador sênior do Instituto de Estudos da Religião da Universidade Baylor, nos EUA.

Na política norte-americana, quem não disputa o voto religioso está perdido. Lá, a Igreja Católica é a maior denominação religiosa com 23,9% da população adulta, mas os protestantes representam outros 51,3%, que equivalem a um universo com 55 milhões de votantes. Nas duas últimas eleições, religiosos conservadores e fundamentalistas se mobilizaram contra o aborto e o casamento homossexual e conseguiram levar às urnas grande parte desse contingente que a princípio não votaria, garantindo a vitória a George W. Bush. “Como lá o voto é facultativo, os candidatos são forçados a fazer um esforço extra. E é mais fácil e eficaz levar os religiosos, que já estão organizados nas igrejas. Os candidatos sabem disso e colocam gente somente para coordenar esse trabalho e explorar crescentemente a conexão entre religião e política”, diz Freston.

A não ser que se aceite a tese da missão divina, é difícil encontrar uma única e convincente explicação para o fenômeno. Mas os estudiosos tentam e uma coisa é certa: o país é o maior mercado religioso do mundo e a liberdade nessa área foi decisiva para provocar a competição e galvanizar a atenção pública. “A importância da religião remonta às origens da nação. Os fundadores, chamados pais peregrinos, eram puritanos ingleses. Ao cruzarem o Atlântico, no início do século 17, eles se consideravam como o ‘novo Israel’ que fugia da opressão da coroa inglesa como o Israel antigo saiu do Egito, para tomar posse de uma nova terra”, afirma o jornalista e teólogo Vanderlei Dorneles, professor do Centro Universitário Adventista (Unasp), em Engenheiro Coelho (SP).

Ao usarem as expressões “novo mundo”, “novo Israel”, “Nova Inglaterra”, “nova ordem”, os norte-americanos também criam que Deus estava cumprindo por meio deles e da nova e crescente nação a promessa do Apocalipse, ou seja, tinham uma missão de natureza profética, que seria o cumprimento do próprio Reino de Deus, inclusive, levando os dons divinos, de liberdade e felicidade, com seu modo de vida. “Agora, toda vez que enfrentam uma crise, esses valores religiosos, quase mitológicos para alguns, são sempre reformados e enfatizados. Por meio deles, encontram forças para se manterem e se expandirem como um império”, destaca Dorneles.

A liberdade de crença nos Estados Unidos acabou atraindo um grande número de denominações e até originando algumas genuinamente nacionais, que depois se espalharam pelo mundo, como Testemunhas de Jeová, fundada em 1872, Ciência Cristã, de 1879, mórmons, também do século 19, e o pentecostalismo, do começo do século 20. Isso seria impossível se o país tivesse uma religião oficial. Coisa que só não aconteceu devido a percepção de James Madison (1751 – 1836), quarto presidente e conhecido como “Pai da Constituição”. Ele é o autor da Primeira Emenda, que estabeleceu a liberdade religiosa. Madison temia que, se não agisse dessa forma, poderia haver uma guerra entre as denominações protestantes, o que viria a enfraquecer a união das colônias e inviabilizar a nação que se desligava da Inglaterra. Acertou em cheio.

“Agentes da intolerância”

Os votos evangélicos nos Estados Unidos são tradicionalmente republicanos. Nas últimas décadas foi a chamada “direita religiosa” quem deu sustentação para três presidentes do partido: Ronald Reagan (1981 – 1989); George Bush, o pai (1989 – 1993) e Gerge W. Bush, o filho (2001 – 2009). Dessa vez, no entanto, a missão do republicano McCain de conquistar os religiosos não será nada fácil. Chama a atenção nas atuais eleições, a relativa moderação do discurso das maiores organizações evangélicas norte-americanas. Talvez, por causa da recessão econômica, dos frustrantes resultados da Guerra do Iraque e da desilusão das gerações mais jovens com o discurso fundamentalista.

Ainda mais notável que a insatisfação com o governo Bush é a nítida falta de empatia do candidato com os religiosos. O drama divino de John McCain, que cresceu episcopaliano e se tornou batista, começa com sua vida pessoal. Sempre que ele fala sobre os valores da família, alguém lembra que, enquanto Carol, sua mulher e mãe de seus três primeiros filhos, recuperava-se de 23 cirurgias, depois de um acidente de carro que a deixou mancando até hoje, o republicano ia a festas. Numa delas, conheceu Cindy Hensley, uma loura de 24 anos, herdeira de um milionário, e se tornou sua amante. Alguns anos depois, em 1980, divorciou-se da primeira mulher e casou com Cindy.

Problemas de caráter à parte, o que a direita religiosa não consegue engolir mesmo é que, em 2000, quando disputava a indicação de seu partido pela primeira vez, justamente contra Bush, chamou dois de seus líderes, Pat Robertson e Jerry Falwell, de “agentes da intolerância”. A crítica de que Robertson era um defensor do apartheid e de que Falwell, morto no ano passado, um dos maiores segregacionistas da atualidade, pegou muito mal. Para piorar a situação, McCain ainda teve que recusar em maio o apoio de outros dois fundamentalistas: de John Hagee, defensor da idéia de que Hitler e o holocausto foram providências divinas para levar os judeus de volta à Palestina, e do reverendo Rod Parsley, autor de diversas pregações islamofóbicas. Por causa da autêntica falta de cortesia, James Dobson, fundador da organização Focus on The Family, logo tratou de vir a público e dizer que, de forma alguma, votaria em McCain.

Somando-se tudo isso à grave crise econômica vivida nas últimas semanas, considerada a pior desde 1929 e pela qual os republicanos são considerados culpados, Barack Obama faz suas apostas. Ainda que não consiga conquistar o voto evangélico em massa, pelo menos quer dividi-lo com o concorrente e evitar o vexame de 2004, quando John Kerry ficou com apenas 21% da votação contra 78% de Bush. Condições para isso existem. Historicamente, quando a direita sai, a cena passa a ser ocupada pela esquerda religiosa, por achar que o governo está falhando no combate à pobreza e à injustiça social. O fenômeno ocorreu no fim do século 19 e, mais recentemente, na década de 1960, quando aconteceu o auge do movimento pelos direitos civis. Há quem aposte que o fenômeno está novamente para se repetir.

Profissão de fé

Mas, se isso é verdade, por que Obama não deslancha de vez nas pesquisas? Na verdade, o candidato democrata vive também seu calvário. Uma pesquisa recente revelou que, para 12% dos norte-americanos, o candidato democrata é muçulmano – uma acusação grave depois dos atentados de 11 de setembro. No mesmo levantamento, um em cada quatro entrevistados disse ter certeza de que o senador teve uma educação islâmica. Nem um nem outro são reais. Obama nunca foi muçulmano. “Creio na morte redentora e na ressurreição de Jesus Cristo”, respondeu ele em entrevista à revista Christianity Today.

De fato, Obama pode ser considerado um evangélico mais ativo do que McCain. Apesar de seus avós paternos serem muçulmanos, quando a mãe, Stanley Ann Dunham, uma agnóstica, conheceu seu pai na Universidade do Havaí, este já se considerava ateu. Após o segundo casamento de Ann – esse de fato com um muçulmano – Obama foi para a Indonésia, onde viveu até os dez anos, quando voltou a viver com os avós no Havaí. O pequeno Barack Obama chegou a estudar a cultura árabe, mas o fato de freqüentar escolas católicas fez com que não aderisse à religião.

Já nos Estados Unidos, acompanhou os amigos do colégio e da faculdade e chegou a beber e experimentar drogas. Entrando na casa dos 20 anos, Obama diz ter sentido um vazio. “Por mais de dois anos, realizei uma busca espiritual, atrás de um sentido para a vida. Cheguei até mesmo a jejuar”, conta. Em sua auto-biografia, A Origem dos Meus Sonhos, lançada no Brasil pela Editora Gente, ele diz que passou a trabalhar com movimentos sociais. Foi aí que conheceu a Trinity United Church of Christ e o reverendo Jeremiah Wright Jr., que o conduziram à fé em Jesus Cristo.

Batizado em 1991, Obama e a esposa Michelle sempre tiveram Wright como seu pai na fé e conselheiro. Quando assumiu a igreja em 1972, a Trinity não passava de 100 fiéis. Em fevereiro desse ano, quando se aposentou, eram mais de 8 mil, entre eles uma destacada figura do Partido Democrata. No púlpito, Wright nunca escondeu sua simpatia pelo nacionalismo negro e sua aversão aos valores da classe média norte-americana. Guiou a igreja orientado pela Teologia da Libertação Negra, criada pelo teólogo James Cone, em 1969, e que não pode ser confundida com a Teologia da Libertação defendida no Brasil por Frei Betto e Leonardo Boff. Oposta a esta, a criação de Cone surgiu justamente para oferecer alternativa e evitar que os jovens negros, decepcionados com a “religião dos brancos” e com as injustiças de que eram vítimas, caíssem nos braços do marxismo.

Agora, longe dos púlpitos, Wright revelou de vez seu discurso radical. Primeiro, em um vídeo em que pedia que os Estados Unidos fossem amaldiçoados. A princípio, Obama criticou o pastor, mas não rompeu com ele. Mas o que veio em seguida tornou a relação insustentável. Em um tour pela mídia, o veterano pastor de 66 anos mostrou sua língua afiada e começou a enfileirar barbaridades: disse que os Estados Unidos foram alvo de ataques porque têm um governo terrorista, saudou o líder anti-semita e pregador de ódio racial Louis Farrkhan como uma das mais importantes vozes do século 20 e acusou os EUA de produzirem o vírus da aids para aniquilar os negros. Por fim, ainda soltou a pérola: “Obama só não admite publicamente que concorda comigo por motivos eleitorais”.

Sem alternativas e para salvar não somente sua campanha, mas também carreira e imagem, o senador veio a público e anunciou o rompimento com Wright e também a saída de sua família da Trinity. Nos bastidores, comenta-se que as polêmicas declarações ainda serão sentidas até o final da campanha. Wright é o tipo de pessoa que vê em qualquer crítica um ataque à igreja negra e também se entende um embaixador, quase profeta, dessa comunidade. Isso pode minar o esforço de Obama em apresentar-se como um candidato acima de divisões raciais, e não como negro, erro que custou nos anos 80 a indicação do reverendo Jesse Jackson, que tentava concorrer à Presidência.

Por questões éticas, Obama diz que só procurará outra igreja depois das eleições. Mesmo assim, faz questão de dizer que não abandonou a fé. “Oro várias vezes ao dia e leio muito a Bíblia, sempre pedindo ao Senhor direção para os meus passos. Não como alguém escolhido ou especial, mas para que simplesmente possa fazer sua vontade e não a minha.” Entre aqueles que fazem parte do time de intercessores do democrata está o reverendo Kirbyjon Caldwell, o mesmo que fez as primeiras orações por George W. Bush, quando este tomou posse e celebrou o casamento de sua filha Jenna. Quando Caldwell fala de Obama, não consegue esconder a emoção. “Quando pergunto a ele sobre o que interceder, ele nunca pede por sua campanha, mas sempre pela esposa Michelle e pelas filhas, Malia e Sasha”, afirma.

Entre os amigos, Obama é considerado um sujeito compreensivo e maleável. Tem sua fé – por exemplo, diz que biblicamente o casamento gay é errado -, mas não se considera o dono da verdade, está disposto sempre a aprender e rever posições. Ira Silverstein, judeu ortodoxo com quem Obama dividiu um escritório durante a época em que o político ainda era senador estadual, diz que certa vez o democrata chegou até ele para perguntar sobre questões como alimentação e o descanso no sábado. “Depois de nossas conversas, Obama se comprometeu a, sempre que possível, reservar o sábado para Deus. Ele é muito acessível”, fala Silvertein.

Arrancada

Obama, cujo nome em árabe significa “abençoado”, enfrentou outro duro golpe nas últimas semanas. Considerado favorito, viu McCain se aproximar e depois ultrapassá-lo nas pesquisas de intenção de voto. O segredo dessa arrancada tem nome e sobrenome: Sarah Palin, 44, a antes pouco conhecida governadora do Alasca, e que se tornou a estrela da campanha republicana. Com discurso firme, ela costuma investir significado religioso a questões seculares. Entre outras, ela afirmou que um polêmico gasoduto construído em sua gestão por exorbitantes US$ 30 bilhões (quase R$ 60 bilhões) foi “vontade de Deus” e a Guerra do Iraque era uma “tarefa do Senhor”.

Porém, o que fez a vice cair nas graças dos conservadores do Cinturão da Bíblia, região Centro-Sul do país dominada pelas denominações tradicionais, foi sua posição rígida em relação a temas morais. Palin defende o ensino do criacionismo nas escolas, junto com a biologia evolucionária, a proibição do aborto sob quaisquer circunstâncias e não aceita o casamento homossexual. Ela também optaria por barrar a educação sexual tradicional, investindo na mesma estratégia de Bush: pregar a abstinência fora do casamento.

A grande questão é que até agora, essa idéia se mostrou equivocada. Apesar de grande parte da população se dizer cristã e religiosa, existe um imenso abismo entre o discurso e a prática. Grande parte da juventude, como o próprio McCain, apresenta-se apenas como “crente nominal” e não segue as regras da fé. Assim, os Estados Unidos acabaram carregando um penoso fardo: são a segunda nação do mundo em número de adolescentes grávidas. Inclusive a filha da própria Sarah, Bristol, de apenas 17 anos, que engravidou do namorado Levi Johnson.

Durante mais de 20 anos, Sarah Palin foi pentecostal das Assembléias de Deus em Wasilla, uma pequena cidade de 10 mil habitantes, da qual foi prefeita. Em 2002, ela passou a freqüentar a Igreja Bíblica de Wasilla. A verve e a eloqüência parecem ser sua grande arma. No último mês de junho, durante uma cerimônia para formandos da própria Assembléia de Deus, a governadora não somente ofereceu algumas palavras edificantes. Conclamou uma grande oração. “Peçam em favor de nossos militares, homens e mulheres, que estão lutando na Guerra do Iraque, para fazer o que é certo. Esse plano de Deus deve se cumprir”, puxou ela. Na tentativa de evitar um “tiro no pé”, Sarah também mostrou firmeza agora e, diante da crise protagonizada pela própria filha, não titubeou: “a menina não irá abortar. Pelo contrário, casará com o namorado”. Até agora a tática tem funcionado.

“É importante que o candidato reúna esses dois lados: uma política boa para o país e valores pessoais. Obama, ainda mais que McCain, tem isso. Porém, faz questão de separar sua fé das políticas que defende. Por isso, é bem mais liberal com o casamento homossexual, o aborto em certas situações específicas e as pesquisas com células-tronco”, analisa o pastor e missionário norte-americano Douglas Lamp, ligado à Sepal. Oriundo de New Wisconsin, ele trabalha há 25 anos na América Latina e, no ano que vem, terá um filho no exército americano, provavelmente rumo ao Iraque.

“Para mim é muito difícil engolir a ladainha de Bush, dizendo estar revestido de uma missão divina. No entanto, entendo que o fundamentalismo islâmico é um perigo que países como o Brasil ainda não compreenderam. Precisamos rever a guerra contra o terror e entendo que McCain esteja mais preparado para isso. Também acredito que o fato dos republicanos serem menos intervencionistas que os democratas e não costumarem criar barreiras econômicas, seja positivo para o Brasil”, aposta Lamp.

Prestígio

O prestígio dos evangélicos está tão alto, que o local escolhido para ser realizado o primeiro debate entre McCain e Obama foi justamente uma igreja e o tema, claro, a fé dos dois candidatos. Em agosto, eles estiveram na badalada Saddleback Church, em Lake Forest, Califórnia, a quarta maior igreja dos Estados Unidos. Lá, não houve perguntas entre os dois. O pastor Rick Warren, autor de Uma Vida com Propósitos e apontado como um dos homens mais influentes da América, conversou com cada um por cerca de uma hora. A ordem foi decidia no cara-ou-coroa. Diante da igreja e das câmeras de televisão que transmitiram em horário nobre, ambos abriram seus corações. Obama falou do passado, no qual experimentou drogas, e disse que, através dessas experiências, “o Senhor me fez uma pessoa mais forte”. Mas, no final, quem parece ter agradado mais a platéia foi McCain. Não por ter confessado o adultério contra a ex-mulher e casamento com a amante, mas por ser mais enfático em temas como casamento gay e liberação do aborto.

Não tem jeito, essas parecem ser mesmo as grandes discussões para muitos crentes de renome nos Estados Unidos. Recentemente, o evangelista Franklin Graham questionou Obama sobre como poderia conciliar suas crenças de que a salvação vem por meio da obediência a Cristo, com uma campanha que abraça a pluralidade. O democrata respondeu que suas crenças são pessoais, mas é preciso governar para todos e acrescentou que não se atreve a julgar certas coisas, como, por exemplo, se sua mãe, que nunca abraçou formalmente o cristianismo, foi salva ou não. A declaração foi a gota d’água para muitos crentes. Tim LaHaye, conhecido pela série Deixados Para Trás, e a esposa Beverly deram seu apoio a McCain. O pastor Phil Burress, presidente da organização Cidadãos Para os Valores da Comunidade, foi ainda mais longe: “Os únicos evangélicos que Obama vai ganhar são aqueles que nunca leram a Bíblia”.

Não é bem assim. O pastor brasileiro Jose Pezini mora há alguns anos nos Estados Unidos e lidera um conjunto de igrejas evangélicas que fazem seus cultos em português, o Portuguese Language Ministries. Ele conta que nunca houve no país eleições tão acirradas por conta da religião. “Os evangélicos estão divididos. Alguns dizem apoiar o McCain por conta das propostas, mas é preciso lembrar que ele sempre foi um liberal, que não vive a fé e, no Senado, já havia aceitado discutir questões como o casamento homossexual. Acredito que a discussão deva girar em torno da economia, segurança social, assistência médica e energia, as grandes responsabilidades do presidente. Na comunidade de língua portuguesa, todos os regularizados e os que ainda não estão são favoráveis a Obama, por ser mais transparente e os democratas terem uma tradição de serem abertos ao diálogo. Mas, caso não surja nenhuma novidade, por não ser o mais votado que leva e sim aquele que tiver maior número de delegados escolhidos para o colégio eleitoral em cada Estado, acredito que a situação seja mais favorável a McCain”.

Apesar do prognóstico, é muito difícil dizer quem vai levar a eleição em 4 de novembro, dia do pleito. Até lá, tudo pode acontecer. Poucos dias depois da entrevista de Pezini, por causa da grave crise econômica, que levou o presidente Bush a uma tentativa desesperada de aprovar um pacote de US$ 700 bilhões em socorro ao sistema financeiro e à economia mundial por tabela, uma nova pesquisa já apontava Obama em primeiro lugar na preferência dos eleitores com 50% das intenções de voto contra 44% de McCain. Parece que o balé está de volta e, nele, os chamados “novos evangélicos”, menos preocupados com a agenda moral e mais atentos ao meio ambiente, à pobreza e à aids, estão novamente à frente. Mas só as urnas dirão mesmo qual grupo religioso terá a hegemonia cultural e política nos próximos anos. Uma coisa é certa: não apenas lá, mas em todo mundo a religião dará cada vez mais as cartas.

“É um grande erro subestimar a fé. Ela continua mais forte e viva que nunca. Na França, o presidente Nicolas Sarcozy afirmou há pouco tempo que a verdadeira identidade da Europa é cristã. Nos países islâmicos nunca houve dúvida do papel da religião na sociedade. Até no Brasil, a separação entre Estado e religião é apenas simbólica, pois o país é católico. Se duvida, basta pegar o calendário e ver as festas e feriados nacionais. Diferente das antigas ideologias, que são mais utopias deslumbradas, hoje vivemos o que chamo de ‘iteologias’, a política de batina”, explica o jornalista Jacques Wainberg, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e autor do livro A Pena, a Tinta e o Sangue – A Guerra das Idéias e o Islã (Edpucrs).

Que o mundo moderno vive uma crise de valores é certo. E Wainberg aponta justamente o fenômeno da interferência da religião na política como uma reação a isso. “Todos se perguntam: onde estão os parâmetros? A realidade é que estamos no meio de um tsunami e ninguém os encontra. Pode ser algo positivo, caso ajude as sociedades a reencontrarem o rumo. Mas também negativo, caso não exista o diálogo e pequenos grupos decidam lutar para impor os valores perdidos. Aí, há que se temer o fundamentalismo, inclusive na forma terrorista. E nem o Brasil está a salvo disso.”

Liberou geral

O tom é animado e o clima descontraído, mas a mensagem deixa bem claro o nível de boa parte das campanhas dos evangélicos para os cargos de vereador e prefeito nas próximas eleições em outubro: “Deixa Deus te usar. Deixa Deus te usar na hora de votar”. A música pertence a certo pastor, candidato a vereador em São Paulo. Para ele, mais que discutir propostas, o horário eleitoral serve para informar ao crente sua missão divina: irmão deve votar em irmão. E, para encerrar, nada melhor do que fechar com um batido chavão, mas que identifica o evangélico pentecostal, grupo que mais cresce hoje no Brasil e ao qual pertence a maior parte dos protestantes: “Eita Deus”.

Definitivamente os crentes mudaram seu jeito de fazer política. Vai longe o tempo em que a política partidária era coisa do demônio e quem se aventurasse a concorrer em qualquer eleição era xingado de “diabo barbudo” – isso mesmo, num indiscreto trocadilho a um influente personagem da esquerda nacional que se tornou uma das figuras mais importantes da história recente do país – e até excluído da comunhão de sua igreja.

É bem verdade que não dá para generalizar. Nos últimos anos, lideranças sérias se formaram. Não para ter poder ou brigar pelos interesses particulares de sua denominação, mas com propostas sérias, que beneficiam a sociedade em diversas áreas. E eles não estão apenas na esfera federal ou estadual. Estão também nas cidades e bairros. Outra marca das próximas eleições é a mudança de paradigmas dos candidatos aos cargos majoritários. Exemplo é o senador Marcelo Crivella, candidato a prefeito do Rio de Janeiro. Reconhecendo que não governará para sua igreja, ele enviou a representantes da sociedade carioca uma Carta Aberta ao Povo do Rio, no qual se compromete com 12 questões, entre elas, não nomear membros de sua denominação para o secretariado municipal e, independente de suas posições, respeitar os eventos culturais da cidade, entre eles, o carnaval.

Há pouco mais de uma década, a Universal do Reino de Deus e a Assembléia de Deus começaram a lançar seus próprios candidatos, mas demoraram a superar a oposição vinda de seus pares e mesmo das próprias fileiras. Hoje, só não disputa as eleições quem realmente não tem condições. E basta freqüentar alguns cultos de denominações neo-pentecostais para perceber que a maior parte dos candidatos é composta por homens de confiança das igrejas que os lançam com a aura de representantes do povo de Deus. Nada mais enganoso.

Várias delas perderam de vez o pudor. Nos cultos, o pastor faz campanha aberta e pede votos para o candidato da denominação. Em alguns casos, um bom tempo é usado para convencer o membro-eleitor a votar. E não somente isso. Ele também deve fazer campanha e convencer sua família, amigos, vizinhos, colegas de escola ou trabalho a votar também. Para não esquecer, recebe os santinhos na saída do culto. Talvez não conheça o cara em quem vai votar, mas certamente reconhecerá o líder de sua denominação ao lado do candidato.

Para tornar as coisas mais fáceis e menos dispendiosas, algumas igrejas já abrem o comitê de campanha na sala de algum imóvel da própria denominação. Até no mesmo prédio em que funciona o templo para unir o útil ao agradável. “Esse modelo é ruim, mas outros grupos sociais se articulam para ter representantes no poder. O sindicatos têm seus defensores, os empresários, os ruralistas, até grupos de interesse, como os homossexuais. Por que as igrejas não podem?”, pergunta o sociólogo Gedeon de Alencar, do Instituto Cristão de Ensino Contemporâneo (Icec), ligado à Igreja Assembléia de Deus Betesda, em São Paulo.

Apesar disso, ele avalia que o empobrecimento da política se deva à falta de honestidade. “Se é assim, as igrejas precisam assumir isso e falar a verdade: precisam desses representantes para defender suas propostas e interesses. É mais ético do que dizer que é uma missão divina”. Alencar também não acredita que nas grandes cidades o povo se deixe dominar como uma manada. “Os membros estão mais maduros e não se deixam levar. Não acredito que a igreja seja um curral eleitoral.”

De qualquer forma, o processo é em si purificador. A Igreja brasileira ainda vive à sombra de recentes escândalos, como a Máfia dos Sanguessugas, que macularam a imagem dos políticos evangélicos no país. Não por coincidência, nas eleições seguintes, o número de membros da bancada evangélica tenha se reduzido quase à metade.

Atuar politicamente, trabalhar para mudar a sociedade são mandamentos cristãos. Mas os líderes evangélicos devem repensar urgentemente seu modo de fazer política e ver quem e porque estão lançando como candidato. Política religiosa é coisa do Talibã. E para o eleitor fica um recado: antes de votar, pesquise a história do candidato. Se já é político, veja que projetos ele defendeu e aprovou. Afinal, é pelos frutos que se conhece a árvore e não por frases de efeito como o “eita Deus”.

Fonte: Revista Eclésia edição 127