Mais de 180 caixas contendo valiosa documentação sobre a participação de cristãos e de igrejas na defesa dos Direitos Humanos na América Latina nos anos 70 a 90 do século passado estão disponíveis para pesquisadores na biblioteca do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), em Genebra, revelou o pastor Charles Harper.

A documentação também contém um “recorde” de comunicações e ações vinculadas à cooperação do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) com as igrejas e grupos da América Latina que lutaram pela defesa e promoção dos direitos humanos naquele período.

Os relatórios e documentos disponíveis no CMI também podem ser acessados via Internet, disse Harper para a ALC, depois de apresentar, na segunda-feira, 4, o seu livro “O acompanhamento: a ação ecumênica a favor dos Direitos Humanos na América Latina: 1970-1990”, publicado em inglês. Uma versão em espanhol deverá sair no próximo ano.

O livro de Charles Harper baseia-se na documentação que o CMI dispõe e é uma homenagem a personalidades ecumênicas e heróis pouco conhecidos que lutaram em defesa da vida.

Harper é um brasileiro-estadunidense, missionário presbiteriano, que foi testemunha e também protagonista, a partir de seu trabalho solidário, da luta em favor da causa dos povos latino-americanos. Ele foi diretor executivo do Departamento de Direitos Humanos para a América Latina, e diretor interino da Comissão das Igrejas para Assuntos Internacionais, de 1992 a 1993, ambas do CMI.

O uruguaio Guillermo Kerber, executivo do Programa da Comissão das Igrejas para Assuntos Internacionais do CMI, fez a apresentação do livro. Ele destacou a tarefa empreendida por Harper de tornar conhecido o trabalho, muitas vezes silencioso, desenvolvido na defesa dos direitos humanos, de modo especial nos anos 70 e 80 do século passado.

“Décadas duras, quando a maioria dos países da região padeceu sob regimes político autoritários, ditaduras, que custou a vida de milhares de latino-americanos, que implicaram desaparecimentos forçados, torturas, exílio, a quebra das sociedades”, disse Kerber.

Ao agradecer a apresentação do livro, publicado pelo CMI, Harper disse que a memória ecumênica é uma história de resistência e um testemunho acumulado de mulheres e homens que lutaram em defesa da vida, em fidelidade ao Evangelho, numa etapa muito difícil para os povos latino-americanos.

Harper rendeu tributo a pessoas como Emilio Castro, pastor metodista uruguaio e ex-secretário-geral do CMI; a Federico Pagura, bispo metodista emérito e co-presidente do Movimento Ecumênico pelos Direitos Humanos da Argentina; a Cristina Vila, diretora do Comitê de Igrejas (CIPAE), do Paraguai; a Helmut Frenz, bispo emérito luterano, co-líder do Comitê Pró-Paz no Chile e que enfrentou Pinochet; a Julia Esquivel, poetisa guatemalteca que se empenhou pela causa indígena.

O autor do livro recordou, emocionado, os “mártires contemporâneos”: Mauricio López, filósofo, membro da Igreja Irmãos Livres, da Argentina, desaparecido na ditadura militar Argentina, em 1977; Paulo Wright, presbiteriano brasileiro, morto pela ditadura militar do Brasil; Maria Cristina Gómez, professora batista, torturada e morta por grupos paramilitares salvadorenhos.

A esses pastores e leigos, também a muitas pessoas mais que são heróis anônimos, “rendemos a nossa homenagem com esse livro”, disse Harper.

Para Harper, hoje aposentado na França, a memória ecumênica também é exemplo de motor de nova vida. Ele mencionou os filhos e netos das Mães e Avós da Praça de Maio. Muitos deles foram entregues a militares como “botins de guerra” durante a ditadura que governou a Argentina de 1976 a 1983, e que, graças à garra das mulheres, puderam reintegrar-se nas suas verdadeira famílias.

Hoje, são jovens adultos, conscientes de seu passado e de seu papel na nova sociedade argentina, afirmou Harper.

Fonte: ALC