Entrevista com ex-membros de alto escalão da seita revelam cultura de abusos físicos e psicológicos e controle da vida pessoal de seguidores, entre eles, celebridades como John Travolta e Tom Cruise.

Os detalhes e a estrutura de funcionamento da Igreja da Cientologia ainda são pouco conhecidos apesar de sua fama ter crescido nas últimas décadas.

A Cientologia foi fundada na Califórnia nos anos 1950 pelo escritor de livros de ficção científica L. Ron Hubbard. Em alguns países, inclusive nos Estados Unidos, tem condição de religião. Mas, em outros, como a França, é considerada uma seita.

Sabe-se que os responsáveis pela religião não poupam esforços para silenciar seus críticos, recorrendo a tribunais e lançando campanhas de propaganda.
Mas com a chegada da internet e as redes sociais, a tarefa de proteger a imagem da igreja tornou-se cada vez mais difícil.

Exemplo disso é a repercussão na internet de um documentário transmitido no domingo pelo canal de televisão americano HBO, no qual são feitas acusações sérias contra os responsáveis pela Cientologia.

O documentário é chamado Going Clear: Scientology and the Prison of Belief (Esclarecendo: Cientologia e a Prisão de Crença, em tradução livre), baseado no livro de mesmo título de Lawrence Wright, ganhador do prêmio Pulitzer.

Dirigido por Alex Gibney, que ganhou um Oscar em 2008, o documentário entrevista ex-importantes membros da Igreja que revelam, entre outros pontos, a alegada manipulação a que alguns seguidores são submetidos, incluindo nomes conhecidos, como os atores Tom Cruise e John Travolta.

O programa mostra também detalhes sobre o financiamento da Igreja e os supostos abusos físicos e psicológicos sofridos por membros.

A porta-voz da Cientologia Karin Pouw disse, há algumas semanas, em comunicado enviado à BBC Mundo – o serviço em espanhol da BBC – que “as acusações feitas no documentário são totalmente falsas e foram feitas sem pedir a versão da Igreja”.

“A Igreja está comprometida com a liberdade de expressão. No entanto, a liberdade de expressão não dá carta branca para emitir ou publicar informações falsas”.

Veja abaixo alguns dos detalhes sobre a Igreja da Cientologia revelados por entrevistados do documentário “Going Clear”.

[b]1. Membros da Igreja “são submetidos a abusos físicos e psicológicos”
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O documentário fala sobre a política de “desligamento”, que obriga os seguidores da Igreja a cortar todo contato com família e amigos que deixam a fé.

Além disso, dá detalhes sobre o que é conhecido como “The Hole” (o buraco), cativeiros onde, supostamente, são mantidos membros desobedientes do Sea Org – nome de um ramo que dirige a Igreja e que conta uma frota de barcos – e que seriam abusados física e psicologicamente.

Como o documentário explica, muitos membros da Sea Org trabalham em troca de uma salário baixíssimo. Dali controla-se a chamada Força do Projeto de Reabilitação, que possui campos de internação para onde são enviados membros da Cientologia que não cumprem as expectativas da organização e os que são forçados a trabalhar sem descanso.

Uma ex-membro da Igreja conta como, supostamente, foi obrigada a realizar “trabalho forçado” durante a gravidez. Ela diz que teve seu bebê levado e, em seguida, abandonado doente “em um berço coberto por urina, fezes e moscas.”

Além disso, segundo o documentário, membros da Sea Org – que tem uma seção infantil na qual crianças começam a trabalhar desde cedo – são aconselhados a não ter filhos e, em caso de gravidez, o aborto é sugerido.

[b]2 – A Cientologia “pressionou autoridades para ser declarada uma religião e não pagar impostos”
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No documentário, afirma-se que L. Ron Hubbard – que é acusado de mentir sobre seu histórico no Exército dos EUA e de maltratar sua segunda esposa – decidiu criar a Cientologia para ganhar dinheiro.

A organização – que o Going Clear diz ter 50 mil membros – não paga impostos há décadas e deve centenas de milhões de dólares a autoridades.
No início dos anos 90, o atual líder da organização, David Miscavige, pressionou o IRS americano, órgão equivalente à Receita Federal brasileira, para conceder à Cientologia status religioso, o que a isentaria de impostos.

O programa diz que a Igreja entrou com mais de 2 mil ações judiciais contra funcionários do IRS e investigou a vida pessoal de muitos deles com detetives particulares.

Finalmente, em 1993, o IRS concedeu à Igreja a condição de religião, o que, segundo o documentário, permitiu que a Cientologia atingisse um patrimônio de US$ 1,5 bilhão.

[b]3 – Detalhes da religião “são conhecidos apenas após o pagamento de milhares de dólares”
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Ao contrário do que acontece na maioria das religiões, membros na Cientologia só passam a conhecer detalhes do credo da religião aos poucos, e depois de pagar grandes quantidades de dinheiro, diz o documentário.

Eles têm de pagar por anos para subir dentro da Igreja e só quando atingem certo nível, conhecido em inglês como “Operating Thetan III”, têm acesso a documentos escritos pelo próprio Ron. L. Hubbard.

Neles, há explicações sobre a história de Xenu, um ditador galático que há 75 milhões de anos trouxe milhões de pessoas à Terra em naves espaciais, depositando-as em vulcões e aniquilando-as com bombas de hidrogênio.

A Cientologia evita falar publicamente sobre Xenu. Em Going Clear, o cineasta Paul Haggis, que deixou a organização há alguns anos, conta que não era capaz de acreditar que esta história fizesse parte da tradição da Igreja.

[b]4 – A Igreja da Cientologia “causou a separação de Tom Cruise e Nicole Kidman”
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Um ex-alto funcionário da Igreja conta como supostamente a organização não via com bons olhos a relação de Tom Cruise, seu membro de mais alto perfil, e Nicole Kidman, que estiveram casados entre 1990 e 2001.

É afirmado que a atriz era considerada uma “fonte potencial de problemas” por ter sido criada no catolicismo e ter um pai psicólogo – um dos inimigos da Cientologia é a psiquiatria.

Kidman teria sido, supostamente, investigada por detetives particulares e seu telefone foi interceptado a pedido de Cruise. A Igreja teria, ainda, tentado colocar os dois filhos adotivos do casal contra a mãe para que Cruise pudesse conseguir a custódia deles no caso de um divórcio.

Em Going Clear também afirma-se que, após o divórcio do casal, a igreja comprometeu-se a encontrar uma nova namorada para Tom Cruise, a também atriz Nazanin Boniadi.

[b]5 – John Travolta “não deixa a Igreja por medo de que detalhes de sua vida pessoal sejam revelados”
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Os membros da Cientologia são regularmente submetidos a chamadas auditorias, confissões gravadas e nas quais explicam detalhes de sua vida pessoal. As sessões teriam o objetivo de encontrar a origem dos traumas que afetam uma pessoa.

Going Clear afirma que as informações obtidas nas auditorias são, então, usadas para “chantagear” membros descontentes com a organização.

Esse seria o caso do ator John Travolta que, alega-se, não deixa a Igreja por medo de que detalhes de sua vida pessoal sejam revelados.

[b]Fonte: G1[/b]