O dono da clínica de suicídio assistido suíça Dignitas, Ludwig Minelli, defendeu a política da organização de oferecer seus serviços a pacientes com doenças crônicas e até mentais, como esquizofrenia, e não apenas aos doentes terminais.

A organização já ajudou mais de mil pessoas a morrer nos últimos 12 anos, muitas delas estrangeiros que vão à Suíça porque a prática não é permitida em seus países de origem.

“Como um advogado da área dos direitos humanos, estou convencido de que o direito de pôr fim à vida pertence a cada pessoa que tenha a capacidade de discernimento. A maioria das pessoas que tem doenças mentais tem plena capacidade de discernimento, obviamente”, disse Minelli.

Na rara entrevista, ele falou sobre como sua organização funciona, em meio a planos do governo suíço de adotar novas regras para controlar para o suicídio assistido.

“Não há regras estatais, mas nós temos nossas próprias regras”, disse ele à correspondente Imogen Foulkes, da BBC, em Genebra.

“A primeira é que nós nunca precipitamos um suicídio assistido, todos os passos devem ser iniciados pelo cliente e não por nós.”

Doenças mentais

O médico Alois Geiger, que trabalha para a Dignitas, defendeu também os casos de clientes com problemas mentais que são aceitos pela organização.

“Se você tem uma pessoa que está mentalmente doente, e isso ocorre há anos, nunca melhorando, sempre piorando, uma pessoa que tentou se matar oito vezes, porque não dar a ela a possibilidade de acabar com essa vida horrível? A esquizofrenia é uma doença horrível”, disse Geiger.

Ele se referia ao caso de um espanhol de 39 anos que sofria de com esquizofrenia e que morreu há dois anos com a ajuda da Dignitas.

“A maioria das pessoas que vem a mim não diz apenas ‘Eu quero morrer’, disse. “O que elas falam é ‘Eu não quero mais viver essa vida’.”

As autoridades suíças decidiram que Geiger, que é especializado em ginecologia, não tem a competência necessária para assistir suicídios e retirou seu poder de dar receitas médicas a doentes mentais.

Minelli e Geiger estão contestando a decisão.

Novas regras

A atual legislação suíça sobre suicídios assistidos é breve e extremamente liberal, permitindo a prática se os envolvidos não tiverem motivações pessoais e não obtiverem lucro.

Mas à medida que organizações como a Dignitas e a Exit crescem, surgem novas questões. A descoberta de dezenas de urnas contendo cinzas humanas no Lago de Zurique também chamou a atenção para o que exatamente os grupos de suicídio assistido podem fazer.

Não está claro quem colocou as urnas no lago, mas há acusações de que a Dignitas possa estar envolvida já que as urnas levavam a marca do crematório usado pela organização.

O governo suíço apresentou dois projetos propondo mudanças na lei de suicídio assistido – um que proibiria completamente a prática, e outro, com mais chances de ser aprovado, que limitaria o suicídio aos pacientes em estado terminal.

Os pacientes teriam que apresentar provas concedidas por dois médicos independentes de que suas doenças são incuráveis e de que morreriam em meses.

Eles também teriam que provar que fizeram uma decisão informada, tomada ao longo de um período de tempo.

Essas condições acabariam ou mudariam fundamentalmente as práticas da Dignitas, cujos pacientes estrangeiros tipicamente chegam à Suíça, se consultam com um médico da organização e morrem em 24 horas.

Referendo

A imprensa suíça vem alegando que Minelli ficou milionário desde que criou a organização, mas ele se recusa a comentar os aspectos financeiros da Dignitas.

“Essa é uma organização privada”, disse ele, que juntamente com outra pessoa (cuja identidade não é conhecida publicamente) é responsável pelo estatuto e pelas contas da organização.

“Apenas os membros ativos têm direito de saber dos fatos, e o público não tem direito nenhum. Nós não estamos trabalhando com dinheiro público, por isso não há razões para respondermos questões”, disse.

Minelli afirmou ainda que vai tentar levar as propostas do governo a um referendo, se necessário.

“Eu estou convencido de que temos que lutar para implementar o último direito humano em nossas sociedades”, disse.

“E o último direito humano é o direito de tomar a decisão sobre o fim de alguém, e de ter esse fim possivelmente sem risco ou dor.”

Fonte: UOL