Com lançamento previsto para a segunda-feira 15, O Bispo – A História Revelada de Edir Macedo ostenta a maior tiragem que já se viu no mercado editorial brasileiro. São 700.000 exemplares (metade dos quais, será distribuída nos templos da Igreja Universal). Traz a versão de Macedo para as polêmicas que cercam seu nome e a Universal, da política à guerra com a Globo e revela que seu sucessor será um ex-dependente de drogas.

Escrita por dois funcionários de Edir Macedo – Douglas Tavolaro, diretor de jornalismo da Record, e a repórter Christina Lemos –, a obra oferece uma visão parcial dos fatos. O Edir Macedo que emerge das páginas é um homem obstinado e que se julga perseguido. A exceção é o episódio do “chute na santa”. Edir faz mea-culpa pelo erro de um de seus pastores. Sobre outros assuntos, silêncio.

Ele não responde às dúvidas que pairam a respeito de sua igreja e de seus negócios. Mas por meio do livro é possível conhecer um pouco mais sobre sua visão de mundo, além de obter informações sobre o império que Macedo construiu.

A obra faz um inventário da Igreja Universal no Brasil – são 4.748 templos e 9.660 pastores, além de um complexo econômico que inclui construtoras, seguradoras, uma empresa de táxi aéreo, agências de turismo e consultorias. Mostra também a força conquistada pela Universal no exterior. Hoje, a igreja opera em 172 países (o McDonald’s, a maior rede de fast-food do mundo, está em 118). O livro expõe a intimidade (e até a vida sexual) de Macedo – e também sua versão de episódios como a compra da Record.

Edir Macedo Bezerra, 62, líder da Igreja Universal e dono da TV Record, diz que dois motivos o levaram a autorizar a publicação de sua biografia (ed. Larousse), que chega às livrarias no dia 15: medo de que alguém publicasse uma versão não-autorizada e se defender que chama de “execração” e da acusação de explorar a fé.

O bispo também usa o livro para apontar publicamente -pela primeira vez- quem será seu herdeiro espiritual, o nome de seu sucessor em caso de morte.

“Doze anos depois de ter sido preso na rua, levado para a cela de uma delegacia e ter sido execrado nos noticiários dos jornais, do rádio e da televisão, resolvi contar minha versão dos fatos”, declara Macedo em entrevista exclusiva.

O livro contém vários ataques diretos à Globo, que é acusada de ser manipuladora, desonesta e até imoral no trato das notícias, especialmente as que colocaram a ele e sua igreja no centro de escândalos.

Fica claro que o bispo não perdoou e jamais perdoará a Globo pela forma com que cobriu sua prisão, sob acusação de charlatanismo e curandeirismo, em maio de 1992, e pela exibição da minissérie “Decadência” (95), de Dias Gomes, que retratava um pastor evangélico desonesto.

A minissérie, aprovada pelo próprio Roberto Marinho à época, foi posteriormente considerada um tiro no pé na emissora. Revoltou a todos os evangélicos, e não só a Universal.

O rancor com a Globo pode ser mensurado nas 273 páginas da obra escrita por Douglas Tavolaro, diretor de Jornalismo da Record, com reportagem de Cristina Lemos. O nome da “inimiga” Globo ou o de Roberto Marinho são citados 50 vezes. Já o SBT -emissora empatada na vice-liderança do ibope com a Record, com seis pontos- é citado apenas duas.

Aliás, também sobram farpas para Silvio Santos. O biografado se gaba de tê-lo ludibriado nas negociações para a compra da Record. Usou um “laranja” na compra, Laprovita Vieira, até a hora de assinar o cheque.

Quando viu a manobra, o dono do SBT não podia mais voltar atrás, pois um sinal de US$ 7 milhões já fora dado.

“Silvio Santos é um extraordinário vendedor, mas um péssimo diretor de programação. Você vê o SBT, aquilo é uma lástima”, ironiza o bispo.

“Dar a outra face” não faz parte de seus ensinamentos. Ele mapeia e combate inimigos.

Confiante ao exagero, acha que as revelações em sua biografia, com tiragem de 700 mil exemplares, podem mudar o Brasil. Suas críticas vão para a imprensa e para o Judiciário. “Os interesses por trás das manchetes e das decisões descabidas da Justiça; a manipulação da verdade motivada por interesses comerciais e religiosos… Isso precisa mudar.”

Procuradas por telefone durante todo o dia de ontem, as assessorias da Globo e do SBT não foram localizadas.

Sucessor

Um trecho da biografia de Edir Macedo põe fim a anos de especulações internas sobre o futuro da Universal: ele aponta finalmente quem será seu sucessor como líder máximo da igreja, no caso de sua morte ou incapacidade permanente.

O eleito é o bispo Romualdo Panceiro, 48, espécie de vice-líder da igreja há 11 anos.

Do ponto de vista hierárquico da igreja no Brasil, está abaixo somente de Macedo.

Fluminense, ex-cortador de cana e ex-dependente de cocaína e maconha, Panceiro é hoje um dos mais populares bispos dos programas da Universal, exibidos todas as madrugadas na Record e na Rede TV. Apesar da pouca escolaridade, é dono de uma retórica incisiva e conduz com segurança entrevistas com fiéis diante das câmeras.

Por causa de seu tamanho (1m90) e jeito considerado bronco, é temido por fiéis e pastores. Mas é só aparência. Sua história é semelhante a de muitos dirigentes. Chegou desesperado à igreja, a qual pisou pela primeira vez em 1981, durante uma crise de depressão.

“Eu passava os finais de semana me drogando. Meu pai era louco. Eu não tinha o que comer”, diz ele no livro.
Ascendeu ao posto máximo atravessando todos os degraus: foi fiel, evangelista, obreiro, pastor e finalmente bispo. Nunca ficou um dia afastado da igreja, nem sequer por doença.

Conheceu intimamente o bispo Macedo somente sete anos após sua conversão. Nesse dia iria ganhar um carro (todos os bispos e muitos pastores ficam com carros emprestados e mantidos pela igreja). Só que Panceiro não sabia dirigir e passou vexame.

“Ele é o maior milagre da Igreja Universal”, diz Macedo. “Se eu morrer hoje, o Romualdo assume tudo. E tenho certeza de que os demais bispos irão respeitá-lo como me respeitam hoje”, diz ele no livro.

Ao saber, pelos autores, que fora indicado por Macedo como seu sucessor, chorou.

A Universal tem 9.660 pastores e 4.748 templos instalados em 172 países. Diz gerar 22 mil empregos diretos no mundo e ter oito milhões de fiéis somente no Brasil. O IBGE, no entanto, calcula 2 milhões.

Leia abaixo trechos do livro sobre alguns temas:

SEXO E CASAMENTO

“O bispo não brinca quando o assunto é casamento. A união no altar é rigorosamente levada a sério dentro de sua instituição religiosa. Pastores somente crescem na hierarquia do grupo quando são bem casados. (…) Entre solteiros também há normas. Noivas de pastores passam por uma espécie de estágio ao conviver até doze meses com casais mais religiosos, mais experientes. (…) Para o bispo, sexo é uma dádiva. E pilar do casamento.
– Sexo não foi criado pelo diabo, mas por Deus. É o momento de aliviar as tensões – opina ele, dizendo-se radicalmente contra o celibato. – Quando faço sexo, vou para o altar mais forte.”

ATROFIA NAS MÃOS

“O quarto filho da família Macedo Bezerra nasceu com deficiência na mão esquerda. Didi, como Edir era chamado pelos irmãos, tem uma pequena atrofia nos dedos. Seus indicadores são finos. Os polegares, um pouco maiores. Todos se movem pouco. Apenas os outros três dedos têm movimentos normais. O problema é hereditário. Sua avó, mãe de Henrique, tinha menos dedos em cada mão. Na infância, o defeito gerou complexos de inferioridade no menino Didi.
– Eu era o patinho feio da família. Tinha a sensação de que tudo o que eu fazia dava errado: era a pipa cortada, eram os balões que pegavam fogo. Às vezes me sentia um estorvo – lembra Edir Macedo. ”

SUBMISSÃO DA MULHER

“Prevalece em nosso universo, sim. Mas não se trata de submissão imposta, é algo natural. O homem não é nada sem a mulher, e a mulher não é nada sem o homem. A mulher não deve se submeter à vontade do homem. O homem é que deve colocar-se como líder numa relação conjugal. Esse entendimento nasce à luz da Bíblia. O homem é a cabeça, e a mulher o corpo. Imagine um corpo sem cabeça ou vice-versa. Impossível existir relacionamento. Na direção da Igreja Universal, conhecemos exemplos desse tipo. Quando a mulher manda no marido, o pastor não cresce. Ela domina e não dá certo. No meu caso, quem manda dentro de casa é a Ester. Na igreja, sou eu. Um não pode ultrapassar o limite do outro. Em casa, eu só mando no meu escritório, e até lá ela mexe de vez em quando.”

A PRIMEIRA VEZ

“Edir sempre foi muito namorador. A deficiência nas mãos nunca foi barreira para exercitar o papel de galanteador. Apesar da timidez, tinha conversa sedutora. Vaidoso com a aparência, dono de farta cabeleira, lisa e comprida, chegou à maioridade com muitas namoradas. Mas teve sua primeira relação sexual dois anos antes, aos 16, numa farra com colegas de escola no bairro do Catumbi.
– Foi antes do casamento, antes da minha conversão. Foi num bordel em frente ao colégio em que eu estudava à noite. ”

CHUTE NA SANTA

“– Na hora soube que foi um erro… Nosso maior erro. (…) O Sérgio criou um problema na igreja. Atrasou nosso trabalho em dez anos. Ficamos parados no tempo por causa daquele chute. Atrapalhou a igreja, atrapalhou todos os nossos projetos. Nós estaríamos lá na frente, poderíamos ter ajudado muito mais gente se não fosse aquele ato impensado.”

O DÍZIMO

“O que justifica a cobrança do dízimo?
Veja o exemplo da terra arrendada a um trabalhador: depois de cultivada, 50% do que dela se retira é do dono da terra, a outra metade é do arrendatário. Na igreja, os primeiros 10% são colocados na obra de Deus. Ele é o dono da terra, de nossa vida. Esse gesto é um sinal de consideração, de respeito e de fé. Não é um ato abstrato, teórico. É um compromisso que revela a fé prática. A de que Deus fica obrigado a esse compromisso com a pessoa que deu o dízimo, fica obrigado a cumprir a promessa que está na Bíblia: ‘Trazei o dízimo e eu abrirei as janelas do céu.’ Além disso, não impomos nada. Não cobramos o dízimo de ninguém. Apenas conscientizamos as pessoas dessa prática. É questão de colocar Deus em primeiro lugar na vida. (…) ”

A BANCADA EVANGÉLICA

“A bancada evangélica hoje é respeitável, embora tenha diminuído nos últimos tempos. Tem representantes nas principais esferas do Poder Legislativo. São sete deputados federais, dezenove deputados estaduais, 91 vereadores e um senador da República integrantes da Universal. (…)
– Os políticos são para defender a causa do Evangelho. Para fazer frente a todos os movimentos de perseguição que enfrentamos. Edir Macedo assegura: apesar das especulações, nunca pensou em candidatar-se à Presidência da República.
– Mas, se eu fosse presidente, este país seria outro. Meu primeiro ato seria proibir o gasto de um centavo sem a minha autorização. Você iria ver este país mudar. Os corruptos iriam passar fome.”

O PAPA BENTO XVI

“Exclusivamente um político. Mais nada. O que ele e o restante do clero fazem o tempo todo é apenas ditar regras, impor normas, em sua maioria contrárias à Bíblia. É só checar. São regras e mais regras, uma atrás da outra. Não pode fazer sexo, não pode usar camisinha, não pode planejar a família, a mulher não pode ter o direito de abortar, o segundo casamento é uma praga, sexo é somente para procriação, a Igreja Católica é a única verdadeira igreja de Cristo, os evangélicos são uma seita e por aí vai. Como ter uma opinião diferente?”

A COMPRA DA RECORD

“A transação era ousada. Entrou para a história como o maior negócio no setor de comunicações do país até então. As cifras assustaram especialistas do mercado. Não era comum uma empresa de rádio e televisão ser vendida por aquele valor no Brasil. No total, Edir Macedo assumiu uma dívida de 45 milhões de dólares ao adquirir a Record. Da quantia acertada, 14 milhões deveriam ser depositados logo no início. O restante, 31 milhões, seria pago à família Machado de Carvalho e a Silvio Santos ao longo de dois anos.”

“A expressão do bispo Macedo muda ao recordar de uma manhã em seu escritório na Rádio Copacabana, centro do Rio de Janeiro. Sobre sua mesa, após horas de reuniões, os números da dívida da Record. O bispo pediu licença, trancou-se sozinho no banheiro e orou.
– Coloquei minha cara no chão e chorei, chorei. (…)
Mas o inacreditável aconteceu meses depois, pontualmente no dia 15 de março de 1990, com o lançamento do Plano Collor. (…) As prestações do bispo Macedo, baseadas na cotação da moeda estrangeira, despencaram. As dívidas da compra da Record, antes exorbitantes, acabaram pagas com facilidade. Edir passou a zerar duas, até três prestações em um único mês. Antes de 1992, o bispo Macedo já quitara integralmente a dívida.
– Fui salvo pelo gongo. O Plano Collor só ajudou a mim no Brasil inteiro, mais ninguém. Sorte? Coincidência? Cada um acredite no que quiser. Eu tenho certeza que foi Deus. ”

“Perguntamos se enfrentaria tudo novamente pela compra da Record.
– Não. Sinceramente, acho que não. Hoje eu não iria agüentar. Ninguém imagina o que passei, nem minha mulher sabe o que vivi.
Edir larga os talheres apoiados no prato, escorrega a mão direita pela cabeça e nos mira por cima dos óculos.
A resposta ganha tom de confissão:
– Quer saber a verdade? Se eu não cresse no meu Deus, teria dado um tiro na cabeça.”

Fonte: Folha Online e Revista Veja Edição 2029 de 10 de outubro de 2007