Três mães de internos da Fundação Casa (ex-Febem) falam de sua luta pela recuperação dos filhos e da batalha para que eles deixem o crime e escapem do preconceito.

Camas arrumadas, silêncio na cozinha e um sentimento de vazio por toda a casa devem marcar o Dia das Mães de três mulheres que têm os filhos na Unidade 1 da Fundação Casa, a antiga Febem, em Itaquaquecetuba, Região Metropolitana de São Paulo. Tráfico de drogas, assalto e sequestro afastaram os adolescentes infratores das famílias, mas não do amor materno. Elas mostram o rosto para quebrar o preconceito em relação aos filhos, na esperança de que eles se recuperem e um dia voltem a ser motivo de orgulho.

A doméstica Alessandra Mendonça, de 33 anos, pensava que o filho, hoje com 14 anos, estava na escola, quando foi detido por envolvimento em um assalto, há oito meses, em Guarulhos. “Ele disse que eu fui a primeira pessoa em quem pensou quando a polícia o pegou. Eu dei conselhos, não faltou educação. Ele agiu por impulso”, diz.

Nas quatro ou cinco visitas que faz por mês, Alessandra aproveita para orientar o filho e diz confiar nele. “Ele sente falta de carinho e diz isso quando o encontro aqui. Vou dobrar a atenção sobre o comportamento dele quando ele voltar para casa. O amor ficou maior ainda, até pelo sofrimento. Em casa, vou fazer as camas dos outros e a dele não precisa, porque já está arrumada. Isso é triste. No fundo, eu me sinto um pouco presa com ele.”

Bicicleta. “Sou a mãe, não a avó. Ele está comigo desde os 4 anos e é tratado pelos meus filhos como se fosse mais um irmão. A minha ex-nora mora na França e o viu apenas uma vez nos últimos oito anos”, diz a doméstica Copertina Fátima Gomes, de 64 anos. Ela assume uma maternidade que não é biológica, mas do coração. E sofre pelo adolescente de 13 anos que a decepcionou quando participou de um sequestro com um maior de idade.

Roupa, comida, educação e carinho. Copertina diz que não faltou quase nada ao neto, criado como filho em sua casa. “Mas ele queria uma bicicleta, um videogame. Quando ela (a ex-nora) veio visitá-lo, prometeu comprar tudo isso. Foi embora sem dar nada. Ele caiu no choro ao chegar em casa e se jogou na cama. Também criou uma revolta muito grande. Acho que foi isso que atrapalhou tudo”, afirma.

Durante o sequestro que o levou à Fundação Casa, o adolescente criado por Copertina estava com um jovem de 24 anos. Segundo a avó, transformada em mãe, o maior de idade teria ameaçado o adolescente de morte caso não participasse do esquema. Evangélica, ela acredita que as orações das colegas de igreja vão desviar o menino do caminho do crime, quando ele voltar para casa e para as ruas de Itaquaquecetuba.

Pão de queijo. Durante o encontro na unidade da Fundação Casa de Itaquaquecetuba, na quarta-feira, a ialorixá (mãe de santo) Carla Ferreira da Cruz, de 36 anos, chorou quando o filho entrou na sala onde conversava com o Estado carregando uma bandeja com pedaços de uma torta feita por ele mesmo, para servir de lanche às visitas no meio da tarde.

O reencontro emocionado não lembrou em nada o momento em que viu o filho detido por tráfico de drogas, há oito meses, quando tinha 17 anos. “Na delegacia, ele não me olhava na cara. No começo, eu tinha vergonha por ser honesta e vê-lo naquela situação. Senti uma revolta comigo mesma, fiquei deprimida, por sempre ajudar outras pessoas e não conseguir fazer isso pelo meu próprio filho”, afirma.

Depois de muitas brigas, o filho de Carla foi morar em um cômodo na casa da avó, juntamente com a namorada. Segundo a mãe, foi a moça quem aproximou o filho das drogas e o fez perder a cabeça. “Ele mudou completamente, não se importava mais com a família. Eu pensava até que ele já havia se perdido para sempre. Dois meses depois de sair de casa, a polícia apareceu dizendo que ele havia sido detido por tráfico”, afirma.

Carla diz que sempre supriu as necessidades do filho. “Dei de tudo para ele, justamente para que não sentisse necessidade de buscar coisas na rua, com más companhias, e fizesse algo errado”, afirma.

Apesar das visitas, a saudade de Carla é grande e ela diz que não vê a hora de voltar a ver a “comilança” na cozinha de casa. “Ele gosta de batata frita, ovo e pão de queijo, que até deixei de comprar durante um tempo, depois que ele veio para cá, porque me lembrava dele na hora”, afirma. Além dela, o filho mais novo, de 10 anos, também se emociona quando lembra do irmão.

Sobre a punição ao filho, Carla é taxativa ao dizer que todo mundo que comete falhas deve pagar por elas. “Se ele errou, tem de responder por isso.”

A ialorixá também diz que os dois assumiram o compromisso de nunca mais esconder a verdade um do outro – e ela acredita que o acordo será cumprido. “Eu sempre lutei contra o preconceito. Mostro o rosto agora para que ele saiba que não tenho mais vergonha nenhuma dele”, diz.

O sentimento de Carla é compartilhado pelas outras duas mães na sala da Fundação. Todas fazem questão de posar ao lado dos filhos, quando convidadas a encontrá-los no pátio da unidade de Itaquaquecetuba. “Senti que agora era o momento de dar ainda mais apoio. Quando ele sair daqui, será como se tivesse nascido de novo. Não vejo a hora de que isso aconteça”, afirma Alessandra.

[b]Fonte: Estadão[/b]