“Eu acredito no poder da oração.” A frase, repetida de diferentes formas por todos os pré-canditatos democratas à Presidência dos Estados Unidos no debate do dia 19 de agosto, demonstra o tom que vai ter a disputa eleitoral do próximo ano, segundo o polêmico ensaísta político anglo-americano Christopher Hitchens.

A eleição “vai ser um leilão entre a direita e a esquerda para decidir qual dos dois é mais religioso”, disse, em entrevista exclusiva ao G1, por telefone, da Califórnia.

Para Hitchens, que é autor do livro “God is not great: How Religion Poisons Everything” (Deus não é grande: como a religião envenena tudo), essa disputa é um equívoco, especialmente por parte dos democratas. “Eles acreditam que perderam as últimas eleições por não serem identificados como políticos de fé. (…)Eles estão emulando um sentimento religioso que acham que é o que o eleitor norte-americano quer ver. É uma forma de oportunismo”, disse.

Conhecido como um grande crítico do Islã, Hitchens, que vem ao Brasil em novembro para uma série de palestras, diz que há uma “guerra civil” entre os muçulmanos, e que nem todos querem a guerra santa. Ele ecoa, entretanto, o discurso do papa Bento XVI, de que se trata de uma fé naturalmente violenta. “O Islã é uma religião totalitária. Por mais que haja muçulmanos vivendo pacificamente, o gérmen do terrorismo, da guerra santa, está no próprio livro, e não consigo ver uma saída.”
Leia abaixo os principais trechos da entrevista

Qual é a relevância política da religião nos EUA atualmente? Como isso vai influenciar as eleições do próximo ano?

Vai ser muito importante. Os pré-candidatos democratas se reuniram num debate [em 19 de agosto] e declararam acreditar no poder da oração, na fé. Vai ser um leilão entre a direita e a esquerda para decidir qual dos dois é mais religioso.

Ao mesmo tempo, temos o pré-candidato republicano emergente Mitt Romney, que é membro de uma seita bizarra e as pessoas nem sequer fazem perguntas a ele sobre suas crenças, o que eu acho de enorme relevância [Romney é mórmon, ligado à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, de fundamentação cristã, com características restauracionistas]. Ele precisa falar sobre sua crença sem achar que há preconceito das pessoas que querem que ele se explique.

Para completar a atmosfera, acho que Billy Graham [pastor e conselheiro espiritual de vários presidentes americanos] vai morrer muito brevemente. Ele chegou a aconselhar politicamente os presidentes dos EUA por décadas, e teremos que canonizar esta figura ridícula e fascista, o que vai pesar muito no debate político. Temos que levar em consideração ainda que no próximo ano teremos uma visita oficial do sr. Ratzinger aos EUA. Vai ser um momento de grande valorização da religião no âmbito público.

Quando o sr. menciona a declaração dos democratas em favor da religião, o sr. acha que eles estão mentindo?

É óbvio que não é algo natural, mas uma interpretação que eles fazem das pesquisas de opinião. Eles acreditam, talvez de forma equivocada, que perderam as últimas eleições por não serem identificados como políticos de fé. Na minha opinião o que acontece é o oposto. Há eleitores, mesmo alguns dos mais religiosos, que se irritam com a exploração política da fé. De qualquer forma, acho que não é uma declaração natural. Eles estão emulando um sentimento religioso que eles acham que é o que o eleitor norte-americano quer ver. É uma forma de oportunismo. Eles estão subestimando os eleitores que não se identificam com este discurso religioso e que aceitariam tranqüilamente um candidato que assumisse não ser crente.

O sr. é um crítico da religião de forma geral, o fato de este tema ter tanta importância na política norte-americana é negativo?

Não necessariamente. Quando [o pensador político francês do século XIX, Alexis de] Tocqueville veio para os Estados Unidos e escreveu “A democracia na América”, uma das coisas que ele descreveu como importantes para o sistema democrático que temos aqui foi o pluralismo religioso. O Estado não tem nenhuma religião, e as pessoas são livres para acreditar no que quiserem. Acho válido e importante que as pessoas discutam a questão da religião, mas o que é negativo é quando algum grupo tenta se sobrepor a outros.

No geral, este pacto social funciona, mas há grupos protestantes conservadores e fundamentalistas querem se impor pela política, tentando, por exemplo, mudar o ensino da evolução nas escolas, ou proibir o aborto com bases religiosas. Este tipo de imposição não está de acordo com o pluralismo religioso que faz a democracia funcionar. Quando o governo age seguindo preceitos religiosos é que há um sério desrespeito a outros tipos de religião.

Em relação à visita do papa Bento XVI, o que o sr. acha destes dois primeiros anos de papado?

Ele está tentando restaurar um conservadorismo religioso entre os católicos. Em pouco tempo, ele já declarou que o catolicismo é a única religião, mostrando que não aceita ecumenismo. Ele esta tentando fazer uma certa reforma tradicionalista, e tem sido muito controverso. Há uma tentativa de voltar a uma época em que a fé era simples, universal e facilmente compreendida pelos fiéis. Ele é um papa nostálgico.

Esse conservadorismo é real ou apenas uma tentativa de se fixar na história da Igreja Católica sem ser apenas um papa de transição?

Ele quer, sim, ficar para a história, mas tudo o que está fazendo é reflexo de suas crenças reais. Toda sua vida ele foi um guardião das tradições conservadoras, e agora está realizando isso como papa.

O sr. é reconhecido como um grande crítico do Islã. Dois projetos ocidentais, na Inglaterra e no Iraque, estão tentando criar formas de dialogar com os muçulmanos a partir do islamismo, tentando entender como eles pensam e discutindo a religião a fim de evitar radicalismos e terrorismo. O sr. acha este diálogo válido?

É importante dizer que há milhões e milhões de muçulmanos que não querem viver sobre o duro código da shariah, milhões de muçulmanos que não acreditam que a forma de viver como um muçulmano é pela jihad. Podemos dizer que há uma guerra civil entre as diferentes crenças islâmicas e que nem todas são violentas, e as interpretações da religião são diferentes.

O que há, e precisa ser criticado, é que muçulmanos acreditam que o Alcorão é a lei inalterável, a palavra final de Deus, que não pode ser mudada. Infelizmente este livro tem, sim, a idéia de guerra santa contra os descrentes. Eles não podem mudar isso. Está lá, e é usado pelos fundamentalistas, que têm a comprovação da importância da guerra santa neste livro, que é a palavra final de Deus e não pode ser alterada. Por isso é difícil falar numa reforma muçulmana.

O Islã é uma religião totalitária. Por mais que haja muçulmanos vivendo pacificamente, o gérmen do terrorismo, da guerra santa, está no próprio livro, e não consigo ver uma saída. O grande problema é que mesmo os muçulmanos mais progressistas, os mais pacíficos, têm dificuldade em denunciar a presença destes termos no texto sagrado do islamismo.

Outros analistas do Islã e do terrorismo dos radicais, como a historiadora Karen Armstrong, dizem que o problema é mais político de que religioso. O sr. diz que “Deus não é grande”, apontando o problema na própria religião. É errado falar em política?

Os dois estão certos, mas não podemos negar que o problema existe na religião, no fato de as pessoas acreditarem que Deus está do seu lado. Este é o maior problema. As pessoas acreditam na fé, sem questionamento, de forma totalitária. Claro que há motivos políticos para os ataques terroristas, por exemplo, mas eles sempre usam a justificativa, real, da religião. Sem a religião ia ser mais difícil legitimar seus ataques.

A crítica do Islã não é aceita pelas pessoas, é um regime totalitário e radical, e pode trazer riscos para quem levanta os questionamentos. Mesmo pessoas que não são muçulmanas e vivem em países não-muçulmanos chegam a ser ameaçados se questionarem a religião, e isso é completamente, completamente, inaceitável.

Fonte: G1