Fé e política, eleição e religião. No Brasil, esses elementos sempre tiveram uma ligação umbilical. O País tem 100 milhões de pessoas adultas que se declaram praticantes de algum tipo de religião. Ignorar esse contingente é dar as costas ao voto. Cometer deslizes pode ser fatal.

A história recente conta casos de candidatos favoritos que perderam disputas por terem se declarado agnósticos ou, suprema heresia, ateus. Até uma simples vacilação no momento de professar a própria fé traz conseqüências nas urnas. Não é diferente agora.

Em cima dos púlpitos, à sombra da cruz ou com o terço nas mãos, os candidatos têm procurado os templos e os líderes religiosos para buscar apoios e deixar claro que, sim, são crentes. Líder nas pesquisas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem se mostrado o mais ecumênico dos concorrentes. Católico que se diz fervoroso, mas, também, um frio estrategista, ele vai estendendo as mãos para todos os grupos religiosos, sobretudo os evangélicos, cuja tradição no controle dos votos de seu rebanho se amplia a cada eleição.

Nos próximos dias, Lula vai divulgar uma carta aos evangélicos, em que pedirá orações e, diretamente, votos. Além disso, sua equipe de campanha irá criar comitês especiais para esses religiosos. Acredita-se entre os petistas que o voto religioso pode ser o diferencial para a realização ou não de um segundo turno eleitoral. A preocupação é antiga.

O primeiro passo na peregrinação do candidato à reeleição rumo aos evangélicos foi o acordo do PT com o PRB, partido do vice-presidente José Alencar e de influentes lideranças de igrejas pentecostais. O mais forte aliado de Lula nessa cruzada é o senador Marcelo Crivella, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, e candidato a governador do Rio de Janeiro. Pesquisas recentes apontam que Lula tem mais de 40% dos votos dos pentecostais, a fatia mais numerosa dos evangélicos, e está empatado com Geraldo Alckmin, do PSDB, entre os não-pentecostais.

No périplo para diminuir a distância nas pesquisas, Alckmin tenta descolar sua imagem da conservadora Opus Dei, uma das correntes mais fechadas do catolicismo. Fundada no início do século passado pelo padre espanhol Josemaria Escrivá, a ordem ficou famosa pela rigidez e pela aversão aos avanços propostos por alas mais progressistas da Igreja.

Alckmin nega fazer parte dos seus quadros. Incomodado com a associação, o tucano sai em busca de apoio de outras crenças. Recentemente esteve na Comunidade da Graça, uma igreja evangélica que nasceu na periferia de São Paulo e se espalhou pelos quatro cantos do País. Seu colega de partido e candidato ao governo de São Paulo, José Serra, foi mais longe ainda. A pedido de um pastor, chegou a ajoelhar no palco da Comunidade Paz e Vida, também em São Paulo.

Devota de São Francisco de Assis e ex-aluna de um colégio de padres, Heloísa Helena ainda não visitou nenhuma igreja nem líder religioso. Mas recebeu um importante reforço em sua campanha. Desiludidos com os rumos e escândalos associados ao PT, antigos militantes petistas ligados às alas progressistas da Igreja Católica migraram para o palanque de HH.

Um dos fundadores da Pastoral Operária, Wagner Rossi está entre os que subiram à arca do PSOL. Ex-filiado petista, o dirigente votará em Heloísa Helena no primeiro turno e anulará o voto no segundo, se houver. “O PT se afastou dos seus ideais. Tornou-se um aliado do capital e das vaidades de seus líderes. Privilegiou um projeto de poder em vez de um projeto de sociedade, fraterno e humano”, ataca Rossi, que deixou o PT em 2004. O socialista católico Plínio de Arruda Sampaio, um dos símbolos da aliança PT e Igreja, também debandou. Hoje é candidato de Heloísa Helena ao governo de São Paulo.

O professor e teólogo Fernando Altmeyer tem uma explicação curiosa para o sucesso do presidente nesse grupo. “Eles votam no Lula pelo carisma e por uma espécie de força messiânica que ele tem. Ele mexe com a emoção das pessoas e isso de alguma forma o aproxima desse eleitorado”, atesta Altmeyer.

Estratégias e táticas de aproximação à parte, nenhum candidato pode garantir que carregará para as urnas os votos maciços de católicos e evangélicos. Essa é a avaliação do cientista político Cesar Romero Jacob, da PUC do Rio de Janeiro. Ele é um dos autores do estudo Religião e sociedade em capitais brasileiras, que mostrou a perda de fiéis pela Igreja Católica na última década e o conseqüente avanço dos pentecostais na periferia das maiores regiões metropolitanas do País.

Agora, Jacob acompanha os movimentos dos candidatos para conquistar esse voto religioso. “Dessa vez, o voto virá dividido”, acredita Jacob. A Igreja Católica, personificada em sua militância leiga (oficialmente, a Igreja não assume uma candidatura), deve vir dividida entre Lula, Heloísa Helena e Geraldo Alckmin. Os dois primeiros herdariam os votos progressistas e o último aqueles vindos da ala mais conservadora.

Oficialmente, a Igreja Católica não manifesta apoio a candidatos ou partidos. Porém, o bispado de Itaici, cidade do interior de São Paulo que abriga a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, está atento ao desenrolar dos acontecimentos políticos.

Em abril, a CNBB divulgou o documento “Eleições 2006 – Orientações”. Trata-se de um manual de boa conduta eleitoral para partidos e candidatos envolvidos no pleito de outubro. O livreto traz algumas estocadas no governo Lula. Em um trecho diz: “O resultado das eleições de 2002 despertou grandes expectativas de transformação social. Aos poucos, o projeto de poder se sobrepõe à busca de um projeto de nação socialmente mais justa.”

Sem querer entrar em polêmicas, o secretário-geral da entidade, dom Odílio Pedro Scherer, traça o perfil do candidato ideal. Seria alguém “honesto e reto, com uma história pessoal coerente com os valores éticos, sobretudo o amor à verdade e à justiça; defensor da dignidade da pessoa e do direito à vida; é idealista e deseja sinceramente servir à sociedade, sobretudo àquela parte da sociedade que mais tem necessidades das atenções do setor público”.

Esse candidato seria Alckmin? Para o círculo mais fechado da CNBB, sim. Ali o conservadorismo do tucano é visto com bons olhos e a aproximação de Lula de igrejas como Universal do Reino de Deus é acompanhada com desconfiança.

Católico, evangélico, budista ou islâmico, o certo é que a cada eleição o voto religioso vem ganhando mais importância. Em 1989, enquanto a Igreja Católica progressista apoiava Lula, os pentecostais ajudaram a eleger Fernando Collor de Mello. Em 1994 e 1998, isso se repetiu, com os pentecostais dessa vez apoiando Fernando Henrique Cardoso.

Em 2002, pela primeira vez o voto evangélico pôde ser comprovado com a candidatura de Anthony Garotinho à Presidência. Recebeu 15 milhões de votos (17% dos votos válidos), ficando em terceiro lugar no primeiro turno. Garotinho teve mais votos em áreas da periferia de predominância evangélica. Resta saber quem será o bem-aventurado que subirá ao púlpito presidencial. Façam suas orações.

Revista Isto É – edição 1923 de 30/08/2006 nas bancas