Jerusalém – Sessenta anos depois de sua fundação, Israel se orgulha de ter um exército forte, uma economia vibrante, cidades modernas e 62 faculdades e universidades. O país abriga mais de 7 milhões de habitantes – 5,5 milhões deles são judeus -, nove vezes a população que tinha em 1948.

Ainda assim, para muitos israelenses, o país está mais ameaçado do que nunca. Militantes palestinos em Gaza lançam foguetes caseiros quase todos os dias no sul de Israel. A milícia libanesa Hezbollah está se rearmando depois de ter lutado contra Israel numa batalha sem vencedores há dois anos. E a mídia israelense divulgou na semana passada que o Irã pode estar a caminho de produzir uma arma nuclear dentro de um ano.

Como, então, será Israel daqui a outros 60 anos?

Apesar dos fatos, será que a paz, finalmente, tomará conta de Israel e transformará seus vizinhos árabes numa região próspera construída sobre o comércio e cooperação intelectual? Ou o conflito entrará numa espiral de guerra nuclear, transformando o Oriente Médio num deserto radioativo inabitável?

Ou será mais provável que Israel fique parecido com o que é hoje – um país com esperança de paz, mas com dificuldades para definir suas relações com os palestinos?

“Os judeus entendem que não há outra opção senão a sobrevivência”, diz Gerald Steinberg, presidente do departamento de ciência política da Universidade Bar-Ilan, próxima a Tel-Aviv. “Sessenta anos é um período longo, mas é difícil ver alguma mudança no tema essencial que é a soberania judaica em Israel. Essa é a chave da questão.”

A permanência moderna de Israel pode ser vista nas altas torres dos edifícios comerciais de Tel-Aviv, no boom de construção de condomínios em Jerusalém e no corredor tecnológico internacional Silicon Wadi.
Três quartos dos israelenses acreditam que seu país continuará existindo para celebrar seu centenário, de acordo com uma pesquisa de opinião pública divulgada na semana passada pelo jornal diário Israel Hayom. Mas metade dos entrevistados diz que Israel está “avançando na direção errada.”

Israel ainda é uma ilha no Oriente Médio. Os tratados de paz com o Egito em 1979 e com a Jordânia 15 anos depois não levaram à paz com os palestinos, ou com a maioria do mundo árabe. E à medida que o Irã busca o poder nuclear, ameaça aniquilar o estado judaico.

“Nós viveremos e possivelmente morreremos pela espada por muitos, muitos anos”, disse Ofer Shelah, colunista do Yedioth Ahronoth, o jornal diário de maior circulação em Israel, em uma entrevista. “Sessenta anos depois de sua independência, Israel ainda é visto pela maioria de seus cidadãos como um refúgio, como uma forte de certa forma.”

Na edição de abril do Índice de Guerra e Paz, uma pesquisa mensal feita por telefone com israelenses, conduzida pela Universidade de Tel Aviv, três quartos dos entrevistados disseram que esperam uma guerra contra um ou mais Estados árabes dentro de cinco anos. Quase o mesmo número disse que não espera um acordo de paz com os palestinos.

Ao mesmo tempo, há razões para otimismo, diz Galia Golan, professora de governo no Centro Interdisciplinar, uma faculdade privada em Herzliya, e uma das fundadoras do Peace Now (Paz Agora), grupo israelense que há muito advoga a troca de territórios pela paz.

“Hoje, ainda temos a maioria de ambas as populações a favor de uma solução de dois-Estados. Percorremos um longo caminho, é importante lembrar isso. Desse ponto de vista, estamos mais próximos da paz”, disse.

Na mesma pesquisa da Universidade de Tel Aviv, 70% disseram ser a favor de “dois Estados para dois povos.”

Mas quando questionada se achava que seus netos iriam viver em um Estado judaico chamado Israel dentro de 60 anos, Golan disse: “Isso me preocupa. Me preocupa bastante.”

“Meu neto mais velho tem hoje 13 anos. E parece que ele vai entrar para o exército. E ele provavelmente terá de lutar. Quando nasceu, não achei que ele fosse ter de fazer isso. Pensei que as coisas iriam tomar outra direção.”

Os israelenses têm poucas esperanças de que o novo diálogo de paz com os palestinos seja frutífero. O grupo militante Hamas, que controla Gaza, não está participando das conversações promovidas pelos Estados Unidos.

Apesar dos 60 anos da nação, que foram comemorados na quinta-feira – dia do aniversário de Israel de acordo com o calendário hebraico – e serão festejados novamente nesta semana durante a visita do presidente Bush, Israel ainda tem de formular uma constituição, definir suas fronteiras políticas ou conciliar os direitos de 1,5 milhão de cidadãos árabes dentro do conceito de uma democracia judaica.

“Quero chegar ao ponto de olhar para a independência do povo judeu como se fosse minha própria independência”, diz Ahmad Hijazi, que desde 1992 vive em uma comunidade com 250 moradores fundada em parceria por judeus e árabes israelenses, chamada Neve Shalom em hebreu e Wahat al-Salam em árabe, que significa Oásis de Paz.

“Acho que o sionismo tem que mudar”, disse ele, “assim como o movimento nacionalista palestino.”

Hijazi faz parte de um número crescente de cidadãos árabes em Israel – e um pequeno, mas sonoro, grupo de judeus israelenses – que apóiam a solução de um Estado único, que incorporaria os palestinos vivendo na Cisjordânia e na Faixa de Gaza ao Estado de Israel, oferecendo direitos iguais para árabes e judeus.

A grande maioria dos judeus israelenses rejeita a idéia e considera a solução de um Estado único, ou de um Estado binacional, como uma excomunhão ao sionismo – que vê Israel como uma terra para os judeus.
A esquerda e a direita conservadoras de Israel consideram que a taxa de natalidade palestina é uma das maiores ameaças ao país. Os demógrafos prevêem que a balança vai pender dramaticamente para o lado dos palestinos nas próximas décadas.

Se Israel não mudar de curso, será “um Estado de apartheid ou um Estado palestino no final. A questão de um Estado binacional é um desastre”, disse o notório escritor, ensaísta e dramaturgo israelense A. B. Yehoshua, que, junto a dois outros gigantes da literatura israelense, Amos Oz e David Grossman, urgiram o governo a negociar com o Hamas.

Foram as preocupações com o crescimento demográfico que convenceram o primeiro-ministro Ariel Sharon a retirar os ocupantes judeus de Gaza em 2005 e construir uma barreira de separação na Cisjordânia, como forma de começar a desenhar as fronteiras políticas entre Israel e um futuro Estado palestino, de acordo com Arnon Sofer, professor de geografia na Universidade de Haifa, que é conselheiro de Sharon.

Sofer é a favor de concessões territoriais que incluem o leste de Jerusalém, que os palestinos alegam ser de seu direito. Ele diz que se um acordo de paz não for atingido, Israel deve se retirar unilateralmente de vastas extensões de terra da Cisjordânia. Se não, disse, “lentamente, vamos acabar nos descobrindo dentro e um Estado binacional. Este é o fim do sonho sionista. É o fim do Estado judeu.”
Akiva Eldar, escritor e colunista político chefe do diário esquerdista Haaretz, prevê dois cenários daqui a 60 anos: um Israel “pequeno, mas bonito”, ou então “grande e feio”.

Os israelenses seculares temem que a longa ocupação de territórios por parte de Israel e a expansão dos acampamentos judeus na Cisjordânia, condenada pelos palestinos e considerada ilegítima pela maioria das nações do mundo, poderá eventualmente impedir a criação de um Estado palestino viável ao lado de Israel.

“Manter o status quo não é uma opção”, diz Eldar.
Israel, todavia, parece longe de soltar suas garras da Cisjordânia.
Depois que o Hamas preencheu o vácuo deixado em Gaza, o movimento de assentamentos judaicos foi encorajado por alertas de que o mesmo aconteceria na Cisjordânia.

“Os territórios são o coração da terra natal histórica do povo judeu (…) o pilar sobre o qual o Estado se sustenta”, diz Noam Arnon, ocupante na cidade palestina de Hebron.

Um terceiro cenário futuro pode ser a manutenção do status quo.
“Por mais que eu fale da urgência e de que a janela está se fechando, lá no fundo não acredito que a janela possa se fechar porque não há outra solução possível” além daquela de dois-Estados, disse Golan, professora de governo e ativista pela paz.

“Seremos uma minoria, e a tese é de que como uma minoria, o mundo não iria tolerar a continuidade de nosso governo sobre os palestinos. Essa é a tese. Mas não estou convencida de que é o caso.”

Muitos israelenses e palestinos apontam para um fator que asseguraria a sobrevivência do Estado judeu: o apoio americano.

Mahdi Abdul Hadi, fundador e líder da Sociedade Acadêmica Palestina para Estudo de Assuntos Internacionais, diz que um Estado binacional é uma “ilusão”, e também questiona se uma solução de dois-Estados poderia ser aprovada.

“Enquanto esse assunto permanecer nas mesas dos tomadores de decisão em Washington”, disse, “Israel continuará a existir, e haverá um certo grau de autonomia, quer eu goste ou não, para os palestinos no que sobrou da Palestina.”

Fonte: Cox Newspapers