‘Desisti da minha cultura para viver na solidão’, diz padre do Togo sobre país, que vive declínio de fiéis e sacerdotes.

No Togo, o reverendo Folly Rodolphe costumava realizar missas exuberantes aos domingos para uma centena de fiéis de todas as idades, que cantavam a música gospel local e iam até ele para oferecer o que tinham.

Na tranquila cidade de Saint-Vallier, na Borgonha, ele prega para uma audiência mais sombria de cerca de 40 aposentados em uma igreja do século 19 sem adornos, que pode acomodar até 600 fiéis.

“No meu país, aplaudimos, aclamamos a Deus, gritamos”, disse Folly, um padre católico que falou de sua modesta sala de estar. “Aqui, mesmo quando eu peço para que as pessoas deem as mãos, elas dizem não.”

Folly, 45, instalou-se na cidade de cerca de 9 mil habitantes, para substituir um padre idoso. Ele trouxe seu sorriso jovial e bom coração para um lugar onde a prática religiosa é fraca, como em muitas outras regiões da França.

Ele é parte de um batalhão de padres que vieram para a França de locais como Benin, Burkina-Faso, Camarões, mas também do Vietnã e da Polônia, e que hoje representam cerca de 10% dos padres da França.

A Igreja Católica na Europa Ocidental e nos EUA tem tido que lidar com uma grave escassez de sacerdotes nas últimas décadas, já que muitos abandonaram o sacerdócio ou faleceram. Por isso, os bispos do mundo desenvolvido foram buscar auxílio no mundo em desenvolvimento para trazer padres da África, Ásia e América Latina, onde o sacerdócio ainda é uma perspectiva atraente e aumenta cada vez mais.

O declínio do sacerdócio como uma vocação é particularmente maior na França, um país que se define como secular. Magníficas igrejas pontilham o país, mas o clero da França é idoso e as ordenações de padres estão em contínuo declínio. A idade média dos cerca de 14 mil sacerdotes da França é 72 anos.

Chegando a 1600, o número de padres estrangeiros quase triplicou nos últimos oito anos, com muitos sendo recrutados para paróquias em áreas urbanas e para os subúrbios parisienses.

Para as autoridades da Igreja, isso não é necessariamente uma coisa ruim. “Eles trazem um novo ar, juventude e uma outra maneira de enxergar a pastoral”, disse o reverendo Pierre-Yves Pecqueux que lidera o recrutamento internacional na Conferência des Eveques de France, uma comissão de bispos da igreja. “Eles têm sua própria maneira de falar a respeito da fé e uma alegria por acreditar em Deus.”

Em 2012, apenas 56% dos franceses se declararam católicos, em comparação com 81% dos franceses, em 1986, de acordo com um estudo realizado em 2012 pelo instituto de pesquisa CSA. No ano passado, 47% dos jovens de 18 a 24 anos disseram não ser de “nenhuma religião.” A pesquisa fez 20 mil entrevistas.

“Se esta tendência for confirmada, é provável que as pessoas ‘sem religião’ sejam o principal grupo na população francesa dentro dos próximos 20 ou 30 anos”, disse Yves-Marie Cann, o vice-diretor do departamento de opinião do CSA.

O reverendo Thomas Magimel, que atende 48 igrejas em Dordogne e faz cerca de 280 funerais por ano, disse que a entrada de sacerdotes africanos não é uma solução a longo prazo para os problemas da igreja. “Eles estão em melhor posição para falar sobre o Evangelho em seu país”, disse, “e seria egoísta de nossa parte abusar de sua generosidade.”

Magimel estava confiante de que a eleição do papa Francisco e sua mensagem de paz e humildade revitalizaria a fé católica entre os jovens. O padre, disse ele, vai realizar menos missas, mas deverá fazer com que cada uma delas se torne um momento de “discussão e convívio”, com mais educação religiosa.

“Nós, sacerdotes, devemos tentar encorajar as pessoas a conhecerem umas as outras, a comer uma refeição juntas”, disse Magimel. “Precisamos que a Igreja esteja mais presente.”

Em Saint-Vallier, Folly, o sacerdote do Togo lava suas roupas, cozinha suas refeições e pondera os costumes franceses. No Togo, segundo ele, os padres são figuras respeitadas que visitam as casas das pessoas e empregam cozinheiros em tempo integral.

“Aqui, o sacerdote é um mero cidadão que tem um trabalho que muitos outros não fazem”, disse ele, dirigindo em torno de sua paróquia em seu Renault Clio branco, cujo espelho retrovisor é adornado com uma pequena bola de futebol.

Uma vez por mês, Folly coloca uma mesa perto da porta da frente de sua igreja e convida os paroquianos ao que chama de “bebida da amizade”, com vinho tinto, lanches e doces para as crianças. Às vezes, ele até coloca uma gravação de um famoso cantor de poesia, Jean Ferrat, que morreu em 2010, no CD player da igreja para tornar o evento mais atraente.

“Eu desisti da minha cultura, da minha família, para vir aqui e viver na solidão”, disse Folly. “Mas a minha presença aqui é um símbolo de como a Igreja é algo universal.”

[b]Fonte: The New York Times via Último Segundo[/b]