Sugerir que muçulmanos e cristãos são unidos pelos mesmos dois mandamentos mais essenciais de suas respectivas crenças e práticas -o amor a Deus e o amor ao próximo- é teologicamente dúbio e politicamente perigoso.

Adrian Pabst*

No mês passado, 138 estudiosos muçulmanos dirigiram uma carta aberta ao papa Bento 16 e a outros líderes cristãos em que pedem um novo diálogo entre a cristandade e o islã, com base nos textos sagrados.

Intitulado “Uma palavra comum entre nós e vocês”, o documento afirma que os princípios comuns dos muçulmanos e cristãos de amar a um só Deus e amar ao próximo oferecem o tipo de terreno comum entre as duas religiões que é necessário para se ter respeito, tolerância e compreensão mútuas.

A publicação dessa carta coincidiu com o aniversário de outra carta aberta em resposta ao polêmico discurso do papa em Regensburg em 12 de setembro de 2006, quando ele pareceu ligar a violência na religião à transcendência absoluta de Deus no islamismo. Sua tese era que, de acordo com os ensinamentos muçulmanos, a vontade de Deus é totalmente inescrutável e, portanto, não pode ser conhecida pela razão humana -com a implicação de que as injunções divinas não podem ser plenamente compreendidas e devem ser obedecidas cegamente.

Contra esse pano de fundo, a última iniciativa dos acadêmicos muçulmanos marca uma tentativa de afastar o diálogo entre as religiões dos debates sobre razão e revelação, em direção a uma leitura escritural. As relações cristãs-muçulmanas, segundo esse argumento, são melhor servidas pelas interpretações textuais que salientam os mandamentos e as crenças comuns.

Mas sugerir, como fazem os autores de “Uma palavra comum”, que muçulmanos e cristãos são unidos pelos mesmos dois mandamentos mais essenciais de suas respectivas crenças e práticas -o amor a Deus e o amor ao próximo- é teologicamente dúbio e politicamente perigoso.

Do ponto de vista teológico, isto omite diferenças elementares entre o Deus cristão e o Deus muçulmano. O Deus cristão é um Deus relacional e encarnado. Além disso, o Novo Testamento e os primeiros textos cristãos falam em Deus como uma única divindade com três pessoas igualmente divinas -Pai, Filho e Espírito Santo.

Isso não é meramente um ponto da doutrina, mas algo que tem implicações políticas e sociais significativas. A igualdade das três pessoas divinas é a base da igualdade entre a humanidade -cada ser é criado à imagem e semelhança do Deus triádico.

Em conseqüência disso, a cristandade pede uma sociedade radicalmente igualitária, além de quaisquer divisões de raça ou classe. A promessa de igualdade e justiça universais que é encapsulada neste conceito de Deus fornece assim aos cristãos uma maneira de questionar e modificar não apenas as normas da ordem política prevalecente como também as práticas sociais (freqüentemente perversas) da igreja.

Em contraste, o Deus muçulmano é desencarnado e absolutamente uno. Não há Deus além de Deus, ele não tem sócio. Esse Deus é revelado exclusivamente a Maomé, o mensageiro (ou profeta), por meio do arcanjo Gabriel. Como tal, o Corão é a palavra literal de Deus e a revelação divina definitiva, anunciada primeiramente aos hebreus e depois aos cristãos.

Mais uma vez, este relato de Deus tem conseqüências importantes para as relações políticas e sociais. O islamismo não postula simplesmente divisões absolutas entre os que se submetem ao seu credo central e aqueles que o negam; também contém injunções divinas contra os apóstatas e os descrentes (embora proteja os fiéis judeus e cristãos).

Além disso, o monoteísmo radical islâmico tende a fundir a esfera religiosa com a política: ele privilegia a autoridade unitária absoluta sobre as instituições intermediárias e também dá ênfase à conquista e ao controle territoriais, sob o comando direto de Deus.

Estas (e outras) diferenças implicam que cristãos e muçulmanos não adoram ou acreditam no mesmo Deus; em conseqüência, nas duas crenças o amor a Deus e o amor ao próximo diferem invariavelmente.

Ao ignorar essas divergências fundamentais, os autores da carta aberta perpetuam mitos sobre cristãos e muçulmanos orarem de maneiras diferentes ao mesmo Deus. Pior, eles exibem uma teologia simplista de monoteísmo absoluto, não-mediado.

Dessa maneira, servem inadvertidamente aos extremistas religiosos dos dois lados, que alegam ter um conhecimento imediato, total e conclusivo da vontade divina somente por meio da fé.

O problema de todas as interpretações textuais é que elas são, por definição, particulares e parcialmente subjetivas. Sem conceitos universais e padrões objetivos como a racionalidade, os acadêmicos diferem dos extremistas meramente em termos de suas intenções honrosas.

Por isso o perigo político de enfocar o diálogo cristão-muçulmano na leitura textual é que ela negligencia as especificidades teológicas de cada religião e suas implicações sociais; como tal, essa abordagem mina a compreensão mútua que pretende oferecer mas deixa de produzir.

Cristãos e muçulmanos não podem mais evitar as diferenças fundamentais que distinguem suas religiões. A melhor esperança de paz e tolerância genuínas entre a cristandade e o islã é ter uma discussão teológica adequada sobre a essência de Deus e a natureza da paz e da justiça.

De outro modo, o diálogo entre religiões representará pouco mais que as platitudes gentis de políticos e diplomatas. Em nome do compromisso comum com a verdade e a sabedoria, cristãos e muçulmanos devem ter discussões sólidas que sejam teologicamente informadas e politicamente francas.

É claro que isso não impede a cooperação pragmática entre as religiões sobre questões de interesse comum, como o secularismo agressivo, o ateísmo militante e, mais importante, a violência na religião.

Mas os fundamentalistas dos dois lados só serão intelectualmente derrotados e politicamente marginalizados por uma crença arrazoada e uma discussão racional -e não pela interpretação textual subjetiva.

* Adrian Pabst é professor de religião e política na Universidade de Nottingham, Grã-Bretanha, e bolsista de pesquisa no Instituto de Estudos Europeus e Internacionais em Luxemburgo.

Fonte: International Herald Tribune