Livro aborda principalmente relações de Sobel com a família, a religião e a política e relembra atuação do rabino na morte de Herzog. Rabino lança neste mês autobiografia em que assume furto anterior ao de 2007.

“Um Homem. Um Rabino”, a autobiografia de Henry Sobel, começa e termina com o “episódio das gravatas”. Na página 241, Sobel confessa que é reincidente. “Tenho de admitir publicamente que o caso de Palm Beach teve um antecedente. Em 1985, na mesma cidade da Flórida, no mesmo centro comercial, apanhei uma gravata e saí sem pagar. Fui barrado por um segurança na porta, paguei a gravata e não houve conseqüências -nem fotografias”, ele escreve.

Com prefácio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a autobiografia tem lançamento previsto para 25 de março. “Foi impossível deixar o livro de lado”, diz FHC, que enaltece “a alma do homem atormentado”. “Atormentado pelo ato conhecido, inesperado, surpreendente.”

Apesar do destaque que dá ao “episódio”, Sobel não acrescenta nenhuma elaboração surpreendente para justificar o furto pelo qual foi detido em março de 2007, na Flórida.

Em uma reunião com seus advogados, logo depois de voltar dos EUA, o rabino conta que “eles concluíram que eu tinha um problema de saúde, não um problema moral ou ético. Eu não era um ladrão de gravatas”. Ele não cita as grifes nem o valor dos modelos.

A responsabilidade pelo delito é atribuída ao excesso de comprimidos Rohypnol, indicados para induzir ao sono. “Lembro-me de que entrei em uma loja e saí… Entrei na segunda loja e não me recordo de mais nada.”

Tom heróico

O livro aborda principalmente as relações do rabino com a família, a religião e a política.

Dedica um considerável espaço ao seu envolvimento “na luta contra a ditadura militar”, com um certo tom heróico.

Num capítulo intitulado “Vladimir Herzog”, Sobel lembra que se recusou a enterrar o jornalista judeu como “suicida” -causa mortis divulgada oficialmente pela repressão-, já que o israelita que se mata é segregado no cemitério.

O rabino relata o diálogo que teve com “um funcionário” da CIP (Congregação Israelita Paulista): quando o rapaz citou sinais de tortura no corpo de Herzog, Sobel disse: “Então não vamos enterrá-lo como suicida”. E o “funcionário”: “O sr. tem certeza rabino?” E Sobel: “Total. Se alguém perguntar, diga que é um pedido do rabino Sobel”.

Mais adiante, ao escrever sobre “a mídia e o poder”, ele afirma: “A verdade é que, a partir do caso Vladimir Herzog, ganhei uma projeção na mídia que jamais imaginara ao desembarcar no Brasil. O que, é claro, nunca havia sido meu objetivo: o engajamento obedeceu a um dever de consciência, a convicções religiosas e humanistas. Porém, o fato é que eu me tornara um judeu conhecido nacionalmente”.

Celebridade

Figura notória por aparecer em publicações que vão desde as revistas da comunidade judaica até a “Caras”, Sobel reservou um capítulo do livro para os “chiques e não-famosos”. Ali, deixando transparecer um certo deslumbramento com a alta sociedade, cita as bênçãos que concedeu a casais “mistos” (de religiões diferentes), como Marta Suplicy e Luis Favre; Thereza Collor e Gustavo Halbreich; John Neschling e Patrícia Melo.

No de Luciano Huck e Angélica, ele diz que ficou “muito impressionado com a lista de convidados”. “Havia gente famosíssima: Gilberto Gil, Abílio Diniz, Naomi Campbell… Mas também estavam lá dezenas de funcionários da Rede Globo, de todos os níveis, muita gente simples. Todos foram tratados com a mesma fineza que os chiques e famosos. Foi um exemplo de dignidade”, diz o rabino, sempre disposto a reforçar sua luta pela igualdade social.

Marido e pai ausente

No geral, a autobiografia tem o ritmo morno de um relatório. No capítulo “em família”, ele conta sem muito entusiasmo que “hoje, passados mais de 30 anos, meu casamento com Amanda é bom”. Tanto Amanda quanto a filha do casal, Alisha, nascida em 1983, se queixam de um marido e um pai ausente, por causa da dedicação ao trabalho, mas dão depoimentos “chapa branca”.

Diz Amanda: “O que mais me impressiona em Henry é sua inteligência, além de capacidade de falar, de se dirigir ao coração das pessoas. Mas não posso negar que ele sempre foi ausente. Às vezes ficava até duas semanas sem aparecer em casa, por conta do trabalho”.

A filha, Alisha, que namora um rapaz que não é judeu -é “gói” (expressão que Sobel diz considerar “muito pesada”)-, afirma que seu pai “nunca pressionou para que eu rompesse o namoro”. Sobel diz que teria preferido que sua filha arranjasse um namorado “com valores religiosos, culturais e familiares como os dela”. “Mas o que vale é a essência, o caráter.”

No fim, quando volta a falar das gravatas, Sobel lembra da “solidariedade e o calor humano” que recebeu de personalidades como o presidente Lula, o governador José Serra e o ex-arcebispo de SP, Cláudio Hummes. Será que, pelo grau de influência de seus relacionamentos, de certa maneira ele foi preservado no “episódio”? “Não falo com essas pessoas pela influência. São amigos de verdade”, diz.

LIVRO – “Um Homem. Um Rabino”
Henry Sobel; Ediouro; 336 págs.

Fonte: Folha de São Paulo