Menos de uma semana após a revista policial polêmica na sede da Igreja Católica belga, o papa Bento 16 recebeu em Roma o arcebispo André-Joseph Léonard, presidente da Conferência de Bispos da Bélgica para discutir a crise no país.

O Vaticano não divulgou comunicados sobre a reunião, mas o porta-voz da instituição deixou claro que não há dúvidas sobre os assuntos debatidos.

Falando a jornalistas, Federico Lombardi afirmou que os assuntos do encontro com Léonard — que também já foi alvo de denúncias por negligência — são “óbvios” e se referem a “informações sobre a situação na Bélgica”.

Nos últimos dias, o Vaticano e o próprio papa protestaram pela forma com a qual foram conduzidas, por parte da polícia belga, buscas referentes a uma investigação sobre pedofilia em uma catedral e na sede da diocese da capital, que envolveram também as tumbas de dois cardeais.

Dissolução

A Comissão sobre abusos sexuais na Igreja católica belga anunciou ainda na segunda-feira sua dissolução, após a polícia belga ter apreendido documentos e confiscado objetos de investigações durante uma operação que gerou polêmica.

“Toda a comissão vai se demitir”, declarou um de seus membros, Karlijn Demasure, ao final de uma reunião do organismo criado em 2000 para compilar os casos de pedofilia cometidos pelo clero belga.

Demasure explicou que a “confiança entre as vítimas e a Comissão, por um lado, e a “a comissão e a Justiça, por outro, foi danificada e já não era possível continuar com suas atividades”.

O ex-membro do grupo denunciou que a polícia apreendeu cerca de 450 documentos sem levar em consideração que as testemunhas haviam contribuído com a as investigações sob a condição de permanecerem sob anonimato.

O órgão, de caráter independente e dirigido pelo psiquiatra Peter Adriaenssens, foi designado pela Conferência Episcopal da Bélgica para assessorar as vítimas de abusos praticados por sacerdote da Igreja Católica e contribuir para que os casos fossem levados à Justiça.

A Conferência Episcopal belga lamentou a decisão e afirmou que a comissão “estava fazendo algo bom” pelas vítimas, disse seu porta-voz, Eric De Beukelaer. “Entendemos os membros da comissão. É muito difícil continuar nesta condição”, declarou o porta-voz à agência “Belga”.

Já o ministério da Justiça belga lamentou “profundamente” a dissolução da comissão e anunciou a criação de um novo “grupo de trabalho” que realizará uma função similar.

Vaticano

Ainda no início da semana o papa declarou que a operação representa um “momento triste” para a Igreja. “Desejo que a Justiça faça seu curso a fim de garantir os direitos fundamentais das pessoas e das instituições, o respeito às vítimas, o reconhecimento dos que se empenham a colaborar”, declarou o pontífice

“Desejo expressar, caro irmão do episcopado, assim como a todos os bispos da Bélgica, minha proximidade e solidariedade neste momento de tristeza, depois do que, com algumas modalidades surpreendentes e lamentáveis, foram feitas revistas, inclusive na catedral de Malines e nas dependências onde o episcopado belga estava reunido em sessão plenária”, escreveu o papa em mensagem em francês endereçada ao arcebispo André-Joseph Léonard, presidente da Conferência de Bispos da Bélgica.

Os policiais estavam à procura de documentos, principalmente correspondências entre vítimas presumíveis de padres pedófilos e as autoridades católicas que teriam sido escondidos num túmulo.

Fonte: Folha Online