O embaixador de Israel no Vaticano, Mordechay Lewy, elogiou o Papa Pio 12 por ter salvado judeus durante a ocupação nazista de Roma, numa surpreendente reviravolta em uma antiga controvérsia sobre o papel do pontífice durante a 2a Guerra.

Os comentários do embaixador estão entre os mais calorosos feitos até hoje por uma autoridade israelense sobre Pio 12. Na maioria, os dirigentes do país costumam criticar o histórico do papa.

Num pronunciamento em uma cerimônia na quinta-feira à noite para homenagear um padre italiano que ajudou judeus, Lewy disse que os mosteiros e conventos católicos abriram suas portas para salvar judeus nos dias que se seguiram a uma operação nazista no gueto judaico de Roma, em 16 de outubro de 1943.

“Há razões para acreditar que isto aconteceu sob supervisão das mais altas autoridades do Vaticano, que estavam informadas sobre o que ocorria”, afirmou ele no discurso. “Portanto, seria um erro dizer que a Igreja Católica, o Vaticano e o próprio papa se opuseram às ações para salvar os judeus. Ao contrário, o oposto é verdadeiro”, acrescentou.

A questão do que o papa fez ou não para ajudar os judeus atormentou por décadas as relações entre as duas religiões e é muito raro que uma autoridade israelense de destaque elogie Pio 12.

Muitos judeus acusam Pio 12, que esteve à frente da Igreja de 1939 a 1958, de fazer vistas grossas ao Holocausto. O Vaticano diz que ele trabalhou em silêncio, nos bastidores, porque falar abertamente levaria os nazistas a adotar represálias contra católicos e judeus na Europa.

FERIDA ABERTA

Lewy disse nesta sexta-feira à Reuters que já previra que seus comentários causariam rebuliço, mas que ele os mantém.

“Estou ciente de que isso vai provocar alguns assombros na comunidade judaica de Roma, mas isto tem a ver com salvar judeus, algo que Pio fez, e não com falar sobre judeus, o que ele não fez e que os judeus esperavam que fizesse”, disse Lewy.

Quando o papa Bento 16 visitou a sinagoga de Roma no ano passado, o presidente da comunidade judaica da cidade lhe disse que “o silêncio de Pio diante do Holocausto” ainda fere os judeus porque mais deveria ter sido feito.

[b]Fonte: Estadão[/b]