O empresário holandês Paul Sturkenboom, que foi gestor no setor de saúde pública, tem uma maneira singular de fomentar a integração dos imigrantes muçulmanos. Propôs a criação de um hospital só para pacientes dessa religião, atendidos por médicos e enfermeiras de seu próprio sexo.

O centro seria o primeiro do tipo na Europa e se instalaria em Roterdã, segunda cidade do país, com um terço de seus 600 mil habitantes de origem imigrante. O hospital também teria salas de oração, um serviço permanente de imãs (religiosos) e uma dieta de acordo com as exigências islâmicas.

Não é novidade na Holanda nem no resto da Europa que algumas pacientes muçulmanas vão ao médico acompanhadas de seus maridos ou de parentes, que explicam em seu nome os sintomas ao médico. Em algumas ocasiões houve atritos para examinar a paciente quando o profissional era um homem.

Mas ninguém havia proposto até agora a criação de um hospital totalmente dedicado à comunidade muçulmana. O plano de Sturkenboom, que foi apresentado à Câmara de Vereadores e está sendo analisado pelas seguradoras – sem cuja aprovação não será viável -, parte de uma premissa clara. “Se há colégios cristãos ou judeus e se o governo subvenciona as escolas islâmicas, por que não ter um hospital específico para muçulmanos?”

O empresário desejaria inaugurá-lo dentro de dois anos e empregaria 45 médicos e outras 275 pessoas ligadas a serviços paramédicos. Mas essa equipe não precisaria professar a religião islâmica, somente respeitaria a separação de sexos em suas funções e ofereceria aos doentes uma dieta “halal” (alimentos produzidos segundo as leis muçulmanas).

Com 1,7 milhão de imigrantes não-ocidentais, na maioria muçulmanos, e 450 mesquitas, a Holanda é considerada pelo empresário o lugar ideal para realizar seu projeto. Como também seria algo inédito na Europa, poderia atrair pacientes de outros países em busca de um hospital desse tipo fora do mundo árabe.

Na opinião dele, a tranqüilidade que representaria suprir suas necessidades médicas contribuiria para fomentar a integração. O Ministério da Saúde, dirigido por Rita Verdonk, ex-titular da Imigração, não pensa assim. Como se trata de um plano privado, seus porta-vozes lembram que deve cumprir as normas vigentes e demonstrar que existe uma demanda real para o novo hospital. Mas em relação às exigências do doente sobre o médico que o atenderá a idéia parece pouco integradora. Entre a comunidade muçulmana há grupos que o consideram desnecessário, porque reforça a identidade das minorias sem favorecer a abertura. Outros aplaudem a iniciativa.

Para um grande grupo de holandeses, por outro lado, esse tipo de iniciativa reforça sua decisão de deixar o país. Não o reconhecem como deles, sobretudo desde o assassinato do líder populista Pim Fortuyn, grande crítico do islã, e buscam “espaços mais amigáveis”.

Segundo o Departamento Central de Estatística, 30 mil holandeses (o país tem 16 milhões de habitantes) emigraram em 1999, especialmente para Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Em 2004, 40 mil pessoas o deixaram em busca de “tranqüilidade”. Para sua partida também contribuiu o próprio desenvolvimento da Holanda, um dos países de maior densidade populacional do mundo – e também um dos de maior poder de atração. Só em Roterdã há moradores de 160 países que falam mais de cem línguas diferentes e professam cerca de 50 religiões.

Os especialistas em estatísticas indicam, no entanto, que essa nova fornada de imigrantes (depois da Segunda Guerra Mundial milhares de holandeses buscaram no estrangeiro um modo de vida que os tirasse da pobreza em que a Holanda estava mergulhada) costuma ser de classe média, e não agricultores sem terra, como alguns anos atrás.

Fonte: El País