Menos de dois meses após ter seu diretor político filiado ao PDT, a Conae, confederação de evangélicos com atuação no Distrito Federal, assinou pela primeira vez convênio com o Ministério do Trabalho e Emprego, de US$ 4,4 milhões, para prestar cursos profissionalizantes a jovens de 16 a 24 anos.

O diretor político da Conae, Daniel de Castro, se desfiliou do PP em 2 de outubro de 2007. No mesmo mês, assinou ficha de filiação no PDT, partido presidido por Carlos Lupi, que comanda o Ministério do Trabalho. O convênio foi assinado em dezembro. No dia 18 de janeiro, a entidade recebeu a primeira parcela, R$ 1,3 milhão.

Castro admite ter entrado no PDT em outubro, mas diz não lembrar em que dia. Ontem o partido tampouco soube informar, alegando que os cadastros de filiação estavam fora do ar. O diretor político da Conae nega favorecimento e relação entre sua filiação ao PDT e a aprovação do repasse. Ele argumenta que o projeto da entidade vinha concorrendo aos recursos desde abril do ano passado.

“Eu ser do PDT é um acaso, porque na Conae também há pessoas do PSC e PTN. Temos um programa político enquanto confederação, mas isso está dissociado desse projeto.”

O contrato prevê atendimento a 1.850 jovens de sete municípios do Distrito Federal, com a contrapartida de R$ 165 mil por parte da confederação. Do total dos recursos, R$ 3,3 milhões vão ser usados para a compra de material didático e contratação de professores e R$ 1,1 milhão para custear uma bolsa de R$ 120 por aluno.

A reportagem da Folha esteve no escritório da Conae. O local começou a ser mobiliado nos últimos 20 dias na cidade satélite de Águas Claras, a 28 km de Brasília. A entidade não possui lista de alunos inscritos e os institutos educacionais responsáveis pelos treinamentos não foram definidos.

A Conae não possui estrutura profissional de oferta de cursos profissionalizantes nem infra-estrutura própria para a atividade-fim, como salas de aula. Sua experiência maior é com programas sociais vinculados a igrejas evangélicas.

Segundo os dirigentes da Conae, desde 2003 a entidade realizou 54 cursos nas modalidades garçom, barman, técnico de vendas, qualidade no atendimento e língua inglesa, que teriam sido ministrados em espaços cedidos por igrejas.

Alguns dos treinamentos foram dados pelo presidente da entidade, bispo Hélio César de Araújo, que foi instrutor do Senac entre maio de 2005 e setembro de 2006. Pelos termos do contrato, a estrutura limitada e o número de cursos reduzidos ofertados até o ano passado não configuram irregularidades, mas evidenciam as bases frágeis em que o ministério aprovou convênios para preparar a mão-de-obra juvenil.

Para aprovar o projeto, o ministério não cobrou especificamente experiência no setor, mas disponibilidade de espaço físico para funcionamento do centro de juventude, ter sede no Distrito Federal, disposição para se dedicar às ações, mais de três anos de atuação na região e “capacidade logística de gestão suficiente para a realização das ações propostas”.

Fonte: Folha Online