Guy Consolmano, astrônomo do VaticanoGuy Consolmagno (foto) não é um astrônomo comum. É um jesuíta, com votos de obediência, pobreza e castidade. E são virtualmente nulas as suas chances de ser despedido por seu patrão – a Igreja.

Nos últimos 13 anos, ele detém um dos cargos mais prestigiados e garantidos da ciência planetária: é um dos 12 astrônomos pessoais do papa, dividindo seu tempo entre o Observatório do Vaticano, no palácio de verão do papa na Itália, e um telescópio gigantesco no Arizona, EUA.

“É o emprego dos meus sonhos”, diz ele. “Consigo fazer tudo que sempre quis sem nenhuma das pressões comerciais que afetam outros cientistas. Posso assumir projetos que têm apenas 30% de chance de sucesso e perseguir idéias que não trazem benefícios financeiros. É a ciência na sua forma mais pura.”

“Não preciso perder tempo preenchendo formulários para pedir financiamento ou participar de comitês intermináveis e aborrecidos. E, como temos uma reputação de independência, todas as portas têm se aberto porque as pessoas querem trabalhar conosco”, conta.

Parceiros improváveis

A idéia de que o papa tenha seu próprio esquadrão de elite de astrônomos pode surpreender, mas Consolmagno ri de qualquer insinuação sobre uma pauta oculta para detectar Deus escondido atrás da Alfa Centauro.

“O Observatório do Vaticano foi criado em 1891 pelo papa Leão XIII para servir de ponte entre a religião e as ciências”, diz ele. “Foi uma coincidência muito feliz o fato de o papa ter mostrado interesse pela astronomia. Observar estrelas não só combina o homem com o transcendente como não tem valor financeiro. Nada que eu descubra vai requerer patente, assim não há perigo de comprometer minha integridade ou a da Igreja.”

Consolmagno reconhece que Vaticano e ciência podem parecer parceiros improváveis. “Não há dúvida de que o Vaticano pressionou Galileu. Mas a contenda durou dois anos. Até 1611, o trabalho dele era elogiado pela Igreja. A leitura das transcrições do tribunal não oferece pistas sobre os problemas que a Igreja teve com ele nem sobre por que foi considerado culpado.”

Vale lembrar que o notável físico, astrônomo e matemático italiano foi preso e condenado pela Inquisição por heresia – postular que o Sol, e não a Terra, era o centro do Universo. E só se livrou de pena mais severa do que o cárcere privado porque negou suas convicções diante de um tribunal eclesiástico.

O mistério a respeito do julgamento de Galileu se aprofundou em 1992, quando a Igreja pediu desculpas por tê-lo julgado sem especificar as acusações, mas Consolmagno se esforça para ressaltar que o Vaticano aceita bem as idéias de Galileu. “Temos ensinado boa ciência em escolas católicas há mais de 300 anos”, diz. “E certamente não com base no sistema de Ptolomeu.”

A necessidade de crer

Há, é claro, um pré-requisito para ser um astrônomo papal: a crença num Deus criador.

Isso não faz de Consolmagno um jovem criacionista. Ele concorda com a teoria de que o universo começou com o Bing Bang há 13,7 bilhões de anos e que a vida evoluiu desde então. Apenas acrescenta a idéia de que havia um Deus todo-poderoso que planejou tudo.

Isso o opõe aos cientistas ateus. “A maioria dos que argumentam que Deus não existe é de biólogos evolucionistas presos ao sistema de crença de causa e efeito newtoniano do século 19”, diz ele. “Essa foi uma reação compreensível para um sistema de crença religiosa que tudo sabia. Com a física quântica, tivemos de desaprender muitas coisas que antes dávamos como certas. Estou certo de que os biólogos enfrentarão contestações semelhantes no futuro.”

O título de “astrônomo papal” não é tão importante quanto parece. Na década de 1920, o papa delegou a operação do seu observatório aos jesuítas e não tem influência sobre a escolha de seus astrônomos. Consolmagno só esteve com o papa João Paulo II uma vez. E ainda não teve contato com o papa Bento XVI.

Sua obsessão pela astronomia cresceu na esteira do programa espacial tripulado dos EUA. Ele estudou ciências da terra e planetária no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), se doutorou no Arizona antes voltar para a Costa Leste, para Harvard e o MIT, onde foi empregado como pesquisador.

Hoje estuda a densidade de objetos do Cinturão de Kuiper. Mas, apesar de todo seu desejo científico por certezas, ele gosta que algumas coisas permaneçam misteriosas. Como se vamos para o céu quando morremos. Afinal, se alguém poderia sabê-lo é o astrônomo do papa. Ele levanta os olhos e sorri. “Quando tiver os dados, terei toda a satisfação em contar.”

Fonte: Estadão