Nesta entrevista, o pastor Márcio Valadão fala sobre as mudanças ocorridas no mundo e no contexto eclesiástico; a importância de sempre aprender e se abrir para o novo de Deus no ministério, aproveitando todos os recursos que ele tem colocado nas mãos da Igreja, e conta também sobre a experiência de atuar ao lado de pastores com perfis tão diferentes e tão mais jovens que ele.

Pastor Márcio Valadão dispensa apresentações. Todos conhecem o simpático pastor presidente de umas das igrejas de maior expressão em nosso país, a Igreja Batista da Lagoinha. Completando mais de 40 anos de ministério, pastor Márcio já vivenciou os mais diferentes desafios e experiências como pastor e servo de Deus. Confira a entrevista abaixo:

Certamente seus desafios na liderança hoje não são os mesmos de antes, de quando iniciou o pastorado. O que mudou? Qual a maior diferença em termos de desafios e dificuldades a serem vencidas?

Há 48 anos, quando comecei o ministério, havia um contexto e uma ênfase bem diferentes. Naquela época, onde eu trabalhava, em uma cidadezinha no interior de Minas, nem luz elétrica tinha! Quando eu cheguei ali naquela cidade eu era quase um E.T., pois as pessoas nunca tinham visto um “protestante”, porque não havia nenhuma igreja evangélica ali, e eu fui exatamente para começar aquele trabalho. Olhando desde 1967 até hoje são 40 anos. E nessa caminhada, a tecnologia mudou, a igreja mudou e tem crescido de uma forma considerável, em influência, em número. Mas algo tão interessante no que tange a liderança é que ela não está presa dentro de um contexto, nem de tempo, nem de local, nem tampouco de tecnologia, pois o líder é aquela pessoa que sabe pra onde vai, e olha pra trás e vê que tem alguém o seguindo. Então os princípios de liderança não mudaram, ainda que o contexto eclesiástico tenha mudado muito, até porque o mundo tem mudado. As coisas mudaram mais num aspecto estrutural do que num contexto genuíno de liderança, isso porque não é a tecnologia, não é a globalização que forma o líder. O líder é líder dentro de qualquer contexto, porque existe o natural, mas existe também aquilo que vem pela graça e pelo dom de Deus.

E existem também desafios ou lutas que sempre estiveram presentes, a despeito da experiência adquirida nos anos de ministério?

Com certeza, porque os anos de ministério trazem uma bagagem, que pode ser percebida, mas as situações são diferentes. É verdade que hoje a gente tem caminhos para errar menos, apesar de que continuamos errando muito, dando muitas cabeçadas! Mas com o passar dos anos, a gente pode “cair no buraco” uma vez, duas, mas cair três vezes já é uma coisa tão inconseqüente! E dentro do aspecto propriamente da igreja, eu vejo que com o passar dos anos muitos de nós podemos apenas ficar mais velhos, com os cabelos brancos, podemos ficar rabugentos ou coisa assim, mas por outro lado, nós podemos, de uma forma tão bonita, experimentar um crescimento também. Na igreja é tão bonito quando temos pessoas que são vistas como referenciais. Eu creio que o maior ensino é aquele que está encarnado na própria pessoa, e nós somos a soma das nossas experiências, sejam elas todas positivas e as negativas também. Há uma diferença muito grande entre aquilo que podemos aprender nos bancos das escolas, sejam elas as melhores possíveis, e outra coisa é a vivência, é o momento, é a realidade. As experiências do passado contribuem de uma forma muito intensa. Porém, com as mudanças que vão ocorrendo no mundo, se ficarmos presos apenas à lembrança lá de trás, ou usando apenas os recursos daquela época, é como se hoje não quiséssemos usar toda a tecnologia e as oportunidades que Deus tem colocado à nossa disposição.

O senhor preside uma grande e conhecida igreja, tendo ao seu lado vários outros pastores, com diferentes estilos, experiências e idades. Como o senhor lida com as diferenças?

Como está escrito em Efésios 4:11, o Senhor deu a igreja pastores, apóstolos, profetas, evangelistas e mestres. Ele deu os cinco ministérios. Todos estes ministérios foram dados pelo Senhor a Igreja porque a Igreja precisa de todos eles. Então, dentro da igreja, hoje, aquele estereótipo de uma igreja que tem um único pastor continua valendo, mas para uma igreja poder crescer e ao mesmo tempo atender a todas as demandas, você vai ter que aprender a abrir mão de ser o único pastor da igreja. Durante muito tempo na Lagoinha eu era o único pastor. Mas quando a igreja entra num ritmo de crescimento, nós precisamos trazer mais pastores para as ovelhas serem devidamente cuidadas. E uma equipe não vem pronta, ela vai sendo formada. Tem aqueles que vão vingar, como tem aqueles outros que não vão vingar; tem aqueles que vão chegar na equipe e quando eles vão embora a gente diz “graças a Deus que foram embora”! Há outros que, quando vão, não fazem diferença nenhuma, e outros que, se um dia forem embora, deixarão um vazio muito grande. As diferenças existem e sempre vão existir, porque não existe dentro na igreja, e o Senhor não busca, uma coisa chamada uniformidade. Ele busca unidade. E para uma equipe pastoral poder funcionar tem que ter unidade, tem que existir um foco, uma paixão, um propósito, e o líder é aquele que procura buscar de Deus a visão para cada igreja. As igrejas são diferentes, como as vocações e as pessoas são diferentes. Se a gente tem expectativas muito altas, expectativas de achar que todos já estão prontos, todos são perfeitos, todos são impecáveis e pensam como pensamos, isso é uma ilusão muito grande. Precisamos estar preparados para aceitar cada um, reconhecendo o potencial de todos. O meu papel aqui, estando à frente da igreja, é exatamente buscar aqueles outros colegas que possam completar não apenas o meu ministério, mas a igreja, alimentando-a e cuidando devidamente de todo o rebanho.

Na sua opinião, há benefícios que sejam proporcionados a uma igreja local pelo fato de ter em sua liderança tanto pastores jovens, quanto pastores de gerações mais antigas? Em que aspectos esta união de diferentes gerações pode ser positiva para os membros?

Uma das coisas tão bonitas que eu vejo é que, com o passar dos anos, os velhos vão ficando mais velhos e os jovens estão ali com todo aquele verdor! Eu comecei o ministério muito cedo, com 18 anos, então eu lembro que quando eu olhava para as pessoas de 50 anos elas eram todas velhas! Hoje eu tenho 58! Todos têm a sua beleza, tanto jovens, quanto velhos. O corpo do jovem é completamente diferente do corpo de um ancião. O corpo do ancião pode estar mais decrépito, mas a mente, a experiência, a comunhão, o relacionamento com o Senhor Deus continuam os mesmos, porque o relacionamento com Deus não envelhece. É algo tão novo, tão diferente a cada amanhecer! Vejo que há um momento necessário em que o líder tem que começar a investir naquela equipe que vai substituí-lo, para evitar que a igreja passe por um momento de crise, porque um dia todos nós vamos passar. Mas igreja não passa, e é tão bonito quando o ritmo, a compreensão, a visão e aquilo que Deus tem dado àquela igreja continuam. Em julho, eu celebrei 35 anos de ministério ininterruptos aqui em Lagoinha. Isto não é muito comum, porque algumas igrejas têm um sistema em que o pastor muda de 4 em 4 anos, outros mudam de 2 em 2 anos…as igejas são diferentes. Mas é verdade que um ministério longo implica duas coisas: ou a igreja pode morrer, no sentido de definhar, como ela pode crescer. Mas quando a igreja contempla esta atitude do pastor de estar cercado também de pastores mais jovens, tendo a oportunidade de mentoreá-los e de inspirá-los, os irmãos vibram com isso, e eles sabem que cada um tem um modo, cada um tem a sua maneira. Por exemplo, eu vejo o Pr. André, meu filho, que não tem 30 anos ainda. Ele está lá naquele verdor do ministério, cheio de alegria, pulando meio metro de altura… Somos diferentes, mas não há nada de choque! Uma das coisas necessárias é que os pastores mais velhos precisam se ver nos pastores mais jovens no sentido de amá-los, de estar bem junto, presentes, conversando, e ao mesmo tempo impulsionando-os e dando todo apoio e exemplo.

O que o senhor tem aprendido com a nova geração de pastores e líderes que tem se levantado em nosso país, a exemplo de seus filhos, Ana Paula e André, que o senhor já citou?

Eu vejo o André hoje e percebo que ele está anos-luz na minha frente, comparando à época em que eu tinha a idade dele. Eu vejo essa geração principalmente apaixonada por Jesus, que tem inspirado, tem tocado milhões e milhões de pessoas. Vejo com bons olhos e com uma alegria tão grande, não apenas o André e a Ana, mas toda uma geração apaixonada pelo Senhor que está fazendo diferença não apenas aqui no Brasil, mas por tantos outros lugares, deixando por onde passam uma inspiração tão grande! Quando os jovens hoje vêem um velho de 60, 70 anos, muitas vezes eles pensam assim: esse aí já passou! Mas quando vêem alguém jovem, bonito, que podia estar fazendo tantas outras coisas, num ministério, diante de tantas oportunidades que o mundo oferece a pessoas tão talentosas pela graça de Deus, eles sempre vão pensar: “essas pessoas têm algo diferente, eles têm uma mensagem, nós podemos ouvir, eles tem credibilidade”. O que temos aqui na Lagoinha é o espaço para eles, e nós procuramos nunca “cortar suas asas”. É tão diferente quando você pode soltá-los e ver que eles estão indo, estão indo… E o bonito é que essa geração tem milhares e milhares de pastores idosos que servem de inspiração para ela.

As organizações que não se abrem para o “novo”, que são fechadas a mudanças, estão, em geral, fadadas à estagnação e conseqüentemente à morte. E quanto às igrejas, o que o senhor pensa? É possível uma igreja sobreviver sem se atualizar?

Toda igreja é uma igreja em crescimento. Uma das figuras da igreja é a noiva, é como se fosse uma mulher. Mas existem algumas mulheres que nunca vão ter filhos. Uma mulher, se for bem novinha, de cinco anos de idade, ela não está pronta para ter filhos. Uma mulher de 85 anos também não vai ter filhos, uma mulher doente, também não, uma mulher viúva, sem o marido, não vai ter filhos… Da mesma forma, uma igreja não pode crescer se ela ficar estagnada lá no século atrás, ou se ficar naquela mesma liturgia. Eu me lembro quando eu assumi aqui o pastorado da igreja, naquela época, uma mulher que entrasse na igreja usando calça comprida era como se ela fosse uma grande pecadora. Hoje isso já é tão comum. Jogar bola, assistir televisão, eram coisas terríveis para algumas igrejas. Não se podia de forma alguma ter televisão em casa. Hoje, essas mesmas igrejas que antes diziam que não se podia ver televisão, possuem programas e até mesmo canais de televisão. Portanto, é preciso atualizar! Uma coisa que temos que fazer uma diferença é entre aquilo que é pecado, que são os mandamentos e aquelas outras coisas que são princípios. A lei de Deus nunca vai mudar, os 10 mandamentos jamais serão atualizados, são irretocáveis. Mas os princípios não. Quando lemos lá sobre o povo de Israel na caminhada do Êxodo, está lá na Bíblia que quando alguém fosse fazer uma viagem no deserto, todos tinham que usar uma pazinha, porque não tinha vaso sanitário e rede de esgoto no deserto. Então eles tinham que fazer o buraquinho com a pazinha, usá-lo e depois colocar a terra por cima para manter o nível de higiene. Hoje esse princípio não se aplica. Não podemos ficar presos a estruturas do passado. O mais importante não é tanto o método, mas a mensagem. O bisavô dos meus filhos foi um pastor presbiteriano muito conhecido aqui em Minas. Ele andava a cavalo e muitas vezes passava meses fora visitando os irmãos. Agora, vamos imaginar se hoje eu continuasse andando à cavalo porque naquela época o bisavô dos meus filhos andava a cavalo! Não! Hoje eu posso ir de carro, posso ir de avião. A mensagem é a mesma mensagem, mas o modo de embrulhá-la é diferente. Então, nós temos que ter este nível de liberdade. Os métodos têm que ser atualizados, assim como a maneira de chegarmos às pessoas. Como alcançar as pessoas hoje? Elas moram em condomínios, em prédios..como chegar lá em cima? No livro de Daniel está escrito que nos últimos dias a ciência se multiplicaria…Para quê? Exatamente para ser uma ferramenta nas mãos de Deus, não apenas para a comunicação, mas para a própria vida!

Existe uma linha tênue entre a igreja se atualizar e modernizar (atendendo às necessidades e anseios do homem contemporâneo), e tomar a forma do mundo, negociando princípios e se “secularizando”. Na sua opinião, quais são as questões ou os aspectos da vida da igreja que podem e devem estar abertos a mudanças e inovações, sem que se percam os valores inegociáveis?

Temos que saber uma coisa: método é método, e não existe um método que é o infalível. Os métodos e as estratégias são os mais diversos. É tão interessante quando nós lemos o livro de Atos, nós percebemos que o Espírito Santo podia agir do modo como ele quisesse, e ainda pode. Por exemplo, Felipe foi arrebatado de um lugar para o outro, Paulo já foi de navio, outro foi a cavalo, outro foi a pé..Então, temos que ter sempre o coração tão aberto em relação aos métodos! Não significa que aquilo que deu certo no passado vai dar certo hoje também. É como que chegar em Brasília e parar ali naquela avenida principal e começar a pregar. As pessoas não passam ali, só os carros! O inegociável são os mandamentos da Palavra de Deus. Pecado continua sendo pecado, o salário do pecado continua sendo o mesmo – com toda a inflação, com o aumento, a queda do dólar, o salário do pecado continua sendo a morte. Essas coisas não podemos negociar. Outra coisa é que o ministério é algo que queima no coração, é uma paixão. Então, não existe espaço dentro do ministério para profissionalismo simplesmente, para secura, para um intelectualismo frio e inoperante. Não existe um ministério a não ser numa dependência do Espírito do Senhor. Sem liberdade no Espírito, as coisas não funcionam. Pode funcionar uma religião, mas uma religião não é o que nós temos na Palavra de Deus. A fé cristã é diferente de todas as outras religiões porque todas as religiões crescem por adesão. A pessoa se torna um adepto (do catolicismo romano, do judaísmo, do espiritismo, do islamismo). Mas o cristianismo verdadeiro não é por adesão. A pessoa tem que ter uma experiência, chamada novo nascimento ou conversão. E isso é algo inegociável! Quem entre para a igreja tem que ter apenas uma porta de entrada, o novo nascimento. Mas quanto à questão de métodos, temos que ter uma abertura muito grande.

Fonte: Instituto Jetro